Polinizadores são essenciais para produtividade, biodiversidade e segurança alimentar — e sua escassez pode afetar diretamente o futuro do agro. Em resumo: sem flores, sem abelhas…sem agricultura!
A base da produção agrícola global pode parecer estar no solo, na tecnologia ou na genética, mas um dos pilares mais importantes da cadeia alimentar trabalha em silêncio: as abelhas. Responsáveis pela polinização de cerca de 75% das culturas agrícolas do mundo, esses insetos garantem não apenas maior produtividade, mas também melhoria na qualidade dos alimentos, incluindo culturas que não dependem exclusivamente desse processo.
Além do impacto direto nas lavouras, as abelhas desempenham papel decisivo na manutenção da biodiversidade vegetal e são reconhecidas como um verdadeiro bioindicador da qualidade ambiental, refletindo o nível de conservação dos ecossistemas e a adoção de práticas agrícolas sustentáveis.
Polinização: um trabalho involuntário, mas vital
Diferentemente do que muitos imaginam, a polinização não é uma tarefa planejada dentro das colmeias. Ela ocorre como consequência do trabalho das abelhas operárias — conhecidas como campeiras ou forrageiras — que saem em busca de pólen, néctar, resinas e água para garantir a sobrevivência da colônia.
Ao visitarem flores, elas promovem a transferência de pólen entre plantas, viabilizando a reprodução vegetal e sustentando cadeias produtivas inteiras.
No entanto, há um alerta crescente: muitas plantas atrativas florescem apenas em períodos específicos ou têm sua ocorrência reduzida pelo desmatamento, fragmentação de habitats e perda de biodiversidade. Esse cenário compromete o desenvolvimento das colônias e reduz a eficiência da polinização — um risco direto para a agricultura.
Pastagem para abelhas: estratégia que começa na lavoura
Garantir alimento para os polinizadores ao longo do ano é uma medida considerada essencial para manter colônias saudáveis. A recomendação de especialistas é clara: “Plantar para as abelhas deve ser um cuidado permanente”, destaca a bióloga Betina Blochtein, CEO da Mais Abelhas Consultoria Ambiental e coordenadora executiva do Observatório de Abelhas do Brasil.
Entre as estratégias recomendadas estão:
- Cultivo de plantas ornamentais ou cercas vivas para oferta contínua de flores;
- Uso de espécies anuais que também melhoram o solo, como trevo e leguminosas;
- Plantio de culturas altamente nutritivas para os polinizadores, como canola e girassol, sendo a canola especialmente importante no inverno, quando outras floradas terminam.
O eucalipto também aparece como alternativa interessante, pois oferece néctar às abelhas e madeira ao produtor, podendo integrar sistemas agroflorestais. Já espécies como lavanda e calêndula, quando plantadas nas bordas das lavouras, ajudam a manter os polinizadores próximos da cultura principal.
Amazônia e a força da biodiversidade
A região Norte concentra grande parte da diversidade de abelhas do país. No Pará, por exemplo, estão cerca de 50% das abelhas nativas e sem ferrão do Brasil. Das 240 espécies sociais registradas nacionalmente, 220 vivem na Amazônia — sendo 120 apenas no território paraense.
Diante desse patrimônio natural, produtores de açaí vêm adotando a diversificação da flora como estratégia para conservar polinizadores, resultando em ganho de produtividade e maior segurança alimentar.
Segundo pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, a conservação de plantas nativas — mesmo aquelas sem retorno econômico direto — permite que as abelhas construam ninhos e encontrem nutrição fora do período de floração principal.
Espécies como mucajá, taperebá, pracaxi e ingá ajudam na incorporação de nutrientes ao solo, produzem frutos e ainda geram impacto econômico regional, ao mesmo tempo em que sustentam as populações de abelhas.
Abelhas também dependem das cidades
A conservação dos polinizadores não é responsabilidade exclusiva do campo. Áreas verdes urbanas, como praças, parques e hortas comunitárias, também contribuem para a sobrevivência desses insetos.
Temperos comuns na culinária — manjericão, tomilho, alecrim, sálvia, hortelã, coentro e orégano — são altamente atrativos para diversas espécies. Quem dispõe de mais espaço pode investir em árvores frutíferas, reforçando a presença dos polinizadores nas cidades.
Espécies variam conforme o clima
A diversidade de abelhas acompanha as características regionais do país:
- Sul: pomares de maçã, morango e pêssego atraem espécies como Mandaçaia e Iraí;
- Sudeste e Centro-Oeste: pitangueiras, jabuticabeiras e amoreiras recebem visitas da Jataí e da Bugia;
- Nordeste: culturas como caju, umbu e carnaúba atraem a Jandaíra, além de abelhas sem ferrão e espécies solitárias do gênero Centris.
O alerta para o futuro da agricultura
O equilíbrio entre flores e abelhas vai muito além de uma relação ecológica — trata-se de uma questão estratégica para a segurança alimentar global. A escassez de plantas e a degradação ambiental podem desencadear efeitos em cadeia, reduzindo a eficiência da polinização e pressionando a produtividade agrícola.
Em um cenário de demanda crescente por alimentos, preservar os polinizadores deixa de ser apenas uma pauta ambiental e passa a ser uma decisão econômica para o agronegócio. Afinal, sem flores não há abelhas — e sem abelhas, grande parte da agricultura simplesmente não existiria.
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