Nova plataforma lançada durante a XXI Jornada NESpro permitirá monitorar riscos relacionados à sanidade, nutrição, reprodução e manejo dos rebanhos
Depois de enfrentar nos últimos anos uma sucessão de eventos climáticos extremos — incluindo enchentes históricas, estiagens severas, ondas de calor e, agora, uma intensa onda de frio que atinge o Sul do Brasil — a pecuária gaúcha passa a contar com uma nova ferramenta voltada à gestão de riscos climáticos.
O anúncio foi feito durante a XXI Jornada NESpro e II Congresso de Criadores, realizados em Porto Alegre, que reuniram mais de 650 participantes entre produtores rurais, médicos veterinários, pesquisadores e representantes do setor agropecuário de diversos estados brasileiros e países do Mercosul.
Um dos destaques do primeiro dia do evento foi o lançamento de uma plataforma de alertas climáticos direcionada especificamente para a atividade pecuária. A ferramenta foi desenvolvida pela empresa de inteligência climática e geoespacial VortixGeo em parceria com o Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Segundo o CEO da VortixGeo, Renato Aboud, existem pelo menos 200 variáveis climáticas capazes de influenciar diretamente a tomada de decisão dentro das propriedades rurais. A proposta da plataforma é transformar esses dados em informações práticas para auxiliar o produtor diante de cenários cada vez mais imprevisíveis.
“O clima deixou de ser apenas um fator de observação para se tornar um elemento estratégico da gestão pecuária”, destacou Aboud durante o evento.
O coordenador do NESPro, professor Júlio Barcellos, informou que o sistema estará disponível para testes no site da instituição a partir da próxima semana. A ferramenta utilizará informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR) para gerar alertas personalizados conforme as características de cada propriedade.
A plataforma foi estruturada em cinco pilares principais: bem-estar animal, sanidade, nutrição, reprodução, manejo e gestão de riscos. Entre os indicadores monitorados estão, por exemplo, condições favoráveis à proliferação de carrapatos, riscos sanitários relacionados à temperatura e umidade, além de janelas climáticas mais adequadas para reprodução e manejo do rebanho.
A iniciativa surge em um momento considerado crítico para o setor. Nos últimos meses, os produtores gaúchos enfrentaram uma combinação de desafios climáticos que impactaram diretamente a produção agropecuária. Após as enchentes históricas registradas em 2024, o estado voltou a conviver com períodos de estiagem localizada, ondas de calor intensas durante o verão e, neste inverno, uma forte massa de ar polar que provocou temperaturas negativas em diversas regiões.
Para especialistas, esse cenário reforça a necessidade de ferramentas capazes de antecipar riscos e apoiar decisões estratégicas dentro das fazendas.
Além da pauta climática, o evento abordou temas relacionados à sucessão familiar, gestão de pessoas, rastreabilidade e mercados internacionais.
O consultor em produção animal Antonio Chaker chamou atenção para a necessidade de adaptação das propriedades às transformações do setor. “Temos cinco gerações atuando dentro das propriedades, e é preciso modernizá-las para atrair e manter pessoal. Não falta equipe, falta filosofia”, afirmou.
Já a presidente do Instituto Desenvolve Pecuária, Antonia Scalzilli, defendeu uma atuação mais integrada entre os diferentes elos da cadeia produtiva. Segundo ela, a imagem da carne perante o consumidor depende da atuação conjunta de todo o setor.
Outro tema que mobilizou debates foi a rastreabilidade bovina. O secretário da Agricultura do Rio Grande do Sul, Márcio Madalena, afirmou que o estado deverá se tornar o primeiro do Brasil a implementar a rastreabilidade individual de todo o rebanho bovino, ampliando a capacidade de acesso a mercados internacionais e fortalecendo os controles sanitários.
A abertura oficial contou com a presença do governador em exercício, Gabriel Souza, que destacou a importância de temas como sanidade animal, rastreabilidade e abertura de mercados para a competitividade da pecuária gaúcha.
A programação da XXI Jornada NESpro segue nesta quinta-feira com discussões sobre integração de sistemas agropecuários, manejo nutricional e reprodutivo, além das perspectivas para o mercado da carne bovina.