Rebanho bovino dos EUA atinge menor nível em 75 anos, aponta relatório do USDA

Queda histórica no rebanho bovino dos EUA reflete seca prolongada, custos elevados e redução na produção de bezerros — cenário pode sustentar preços altos da carne e abrir oportunidades para exportadores como o Brasil

O setor pecuário global acompanha com atenção um movimento que pode redefinir o equilíbrio do mercado internacional de carne bovina: o rebanho dos Estados Unidos, tradicional líder mundial, caiu ao menor patamar em cerca de sete décadas. Dados recentes do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam que o país entrou em um ciclo de oferta mais restrita, com impactos diretos sobre preços, consumo e fluxo de comércio.

Segundo o relatório oficial de inventário divulgado pela entidade, os EUA somavam 86,2 milhões de bovinos e bezerros em 1º de janeiro de 2026, número que representa uma leve retração em relação ao ano anterior e confirma a continuidade de um processo de encolhimento observado nos últimos anos.

Esse volume do rebanho bovino dos EUA é considerado o menor dos últimos 75 anos, reforçando o caráter estrutural da queda e não apenas um ajuste pontual do ciclo pecuário.

Números que explicam a retração no rebanho bovino dos EUA

O levantamento detalha os principais indicadores do rebanho norte-americano:

  • Total de bovinos e bezerros: 86,2 milhões de cabeças (queda de cerca de 0,35%)
  • Vacas de corte: 27,6 milhões de cabeças, recuo de 1%
  • Safra de bezerros em 2025: 32,9 milhões
  • Novilhas de reposição: 4,71 milhões, com alta anual de 1%

Apesar do crescimento no número de novilhas destinadas à reposição — geralmente interpretado como um sinal de retenção — o mercado ainda não identifica uma reconstrução consistente do plantel.

Safra de bezerros registra marca histórica negativa

Um dos pontos mais relevantes do relatório é o desempenho da produção de bezerros. A estimativa de 32,9 milhões de cabeças em 2025 representa queda de 2% e o menor volume desde 1941, quando foram registrados cerca de 31,8 milhões.

Nem mesmo durante a forte liquidação do rebanho em 2014 o nível foi tão baixo — naquele ano, a safra girou em torno de 33,5 milhões de cabeças.

Além disso, o abate de novilhas somou 9,5 milhões de cabeças em 2025, recuo de 7%, equivalente a 52% dos animais acima de 227 quilos — percentual inferior aos 56% do ano anterior.

Esse comportamento pode indicar uma tentativa gradual de recomposição, ainda que lenta.

USDA: Seca, custos e estratégia dos pecuaristas

A redução do rebanho bovino dos EUA não ocorreu por acaso. Uma seca persistente nos estados do Oeste afetou as pastagens e elevou os custos de alimentação, forçando muitos produtores a diminuir seus plantéis.

Outro fator determinante foi o próprio mercado: os preços elevados do gado incentivaram a venda para abate em vez da retenção para reprodução, o que limita a capacidade de recuperação rápida do rebanho.

Para o estrategista-chefe da Allendale, Rich Nelson, o cenário ainda não mostra sinais claros de virada. “Não há sinais de uma reconstrução de verdade”, afirmou, destacando que levaria cerca de dois anos para formar animais prontos para abate caso os produtores iniciem agora a recomposição.

Carne mais cara e pressão econômica

A oferta menor tende a manter os preços da carne bovina elevados. Nos Estados Unidos, os valores ao consumidor já atingiram recordes, com a carne moída chegando a US$ 6,69 por libra em dezembro — alta superior a 2% no mês e 19% no ano.

O encarecimento dos alimentos, inclusive, contribuiu para a queda da confiança do consumidor ao menor nível em mais de 11 anos e meio, ampliando o debate político sobre o custo de vida no país.

No setor industrial, a menor disponibilidade de animais também gera reflexos. Uma das maiores processadoras do país decidiu fechar definitivamente uma planta em Nebraska e reduzir operações no Texas, evidenciando o ajuste da cadeia à nova realidade de oferta.

Brasil pode ganhar espaço no mercado americano

O encolhimento do rebanho dos EUA cria uma janela estratégica para exportadores. A expectativa é que o Brasil amplie os embarques de carne bovina para os Estados Unidos de 270 mil para cerca de 400 mil toneladas em 2026, segundo estimativas do setor exportador.

O país, inclusive, assumiu recentemente a liderança mundial na produção, com 12,35 milhões de toneladas em 2025, contra 11,81 milhões dos norte-americanos.

Para 2026, o USDA projeta praticamente um empate técnico — 11,7 milhões de toneladas para o Brasil e 11,71 milhões para os EUA — indicando uma disputa cada vez mais acirrada pela hegemonia global.

O que esperar do ciclo pecuário global

A redução do rebanho norte-americano reforça um ponto clássico da pecuária: a reconstrução é lenta e exige anos de retenção de fêmeas, o que naturalmente sustenta preços mais altos no médio prazo.

Para produtores brasileiros, o cenário mistura oportunidade e alerta. Se por um lado há espaço para ampliar exportações, por outro a oferta global mais restrita tende a elevar a volatilidade e intensificar a competição por mercados estratégicos.

Em um ambiente onde clima, custos e decisões produtivas moldam o tamanho do rebanho, o movimento dos Estados Unidos serve como termômetro do ciclo pecuário mundial — e sinaliza que a carne bovina deve continuar no centro das discussões econômicas e alimentares nos próximos anos.

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