Estudos do IPBES e Embrapa revelam o custo bilionário das 5 piores pragas de animais invasores no Brasil. Veja dados sobre Javali, Coral-sol e mais.
O Brasil enfrenta uma crise silenciosa que sangra a economia e devasta a biodiversidade. As pragas de animais invasores são responsáveis por um prejuízo global estimado em US$ 423 bilhões anuais, segundo o relatório mais recente da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), ligada à ONU. No cenário nacional, essas espécies exóticas – introduzidas fora de seu habitat natural – tornaram-se um dos principais motores de perda de biodiversidade e representam um risco sanitário e financeiro incalculável para o agronegócio.
A ausência de predadores naturais e a alta plasticidade adaptativa permitem que esses animais dominem territórios, dizimando lavouras e infraestruturas. Abaixo, analisamos com profundidade técnica os cinco invasores que lideram o ranking de destruição no país, baseando-nos em dados de monitoramento ambiental e estudos de impacto econômico.
Javali (Sus scrofa): O líder das pragas de animais invasores no agro
O javali europeu e seu híbrido, o “javaporco”, ocupam o topo da lista de ameaças ao agronegócio. Segundo o Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Javali (Ibama), a espécie já está presente em mais de 1.500 municípios brasileiros.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) alerta que o impacto vai além do consumo direto de lavouras de milho e soja. O javali é um “engenheiro de ecossistemas” negativo: ele revira o solo, causa erosão e assoreamento de rios. Do ponto de vista sanitário, estudos da Embrapa Suínos e Aves apontam o javali como reservatório viral da Peste Suína Clássica e da Febre Aftosa. O risco de transmissão para o rebanho comercial brasileiro coloca em xeque o status sanitário do país, podendo bloquear exportações de proteína animal que sustentam a balança comercial.

Mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei)
Originário do sudeste asiático, o mexilhão-dourado chegou à América do Sul através da água de lastro de navios mercantes. Sua capacidade de reprodução é alarmante, formando densas colônias conhecidas como “macrofouling”.
Pesquisas do Centro de Bioengenharia de Espécies Invasoras de Hidrelétricas indicam que o setor elétrico brasileiro gasta cerca de R$ 400 milhões por ano apenas no combate e limpeza dessas incrustações. O molusco entope tubulações de resfriamento e grades de proteção de turbinas em usinas como Itaipu. Além do dano industrial, estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostram que o mexilhão altera a química da água, filtrando o fitoplâncton e colapsando a base da cadeia alimentar de peixes nativos.

Caramujo-gigante-africano (Achatina fulica)
Introduzido no Brasil na década de 1980 como uma promessa gastronômica (escargot) que fracassou, o caramujo-africano se tornou uma das pragas de animais invasores mais disseminadas em áreas urbanas e rurais.
De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a gravidade desta invasão reside na saúde pública. O molusco atua como hospedeiro intermediário do verme Angiostrongylus cantonensis, causador da meningite eosinofílica, e do Angiostrongylus costaricensis, que provoca a angiostrongilíase abdominal. Na agricultura, sua voracidade é documentada pela Agência de Defesa Agropecuária, sendo capaz de consumir mais de 500 espécies de plantas, afetando severamente a horticultura e a agricultura familiar.
Coral-sol (Tubastraea spp.)
Enquanto as pragas terrestres atacam o lucro visível, o coral-sol destrói o patrimônio subaquático. O Projeto Coral-Sol, iniciativa ligada ao Instituto de Biodiversidade Marinha, monitora a expansão agressiva desta espécie na costa brasileira, especialmente na Baía de Ilha Grande (RJ) e em plataformas de petróleo.
Diferente dos corais nativos, o coral-sol não realiza fotossíntese (não possui zooxantelas) e se alimenta vorazmente de zooplâncton. Estudos publicados em revistas de biologia marinha demonstram que ele compete por espaço e alimento, matando corais endêmicos como o Cérebro (Mussismilia hispida). O impacto econômico atinge a pesca artesanal, pois a biodiversidade de peixes associada aos recifes diminui drasticamente nas áreas invadidas.

Sagui (Callithrix spp.) e a poluição genética
A inclusão dos saguis nesta lista surpreende muitos, mas é cientificamente justificada. O tráfico de animais silvestres levou espécies do Nordeste/Cerrado (Callithrix jacchus e Callithrix penicillata) para o Sudeste e Sul, onde se tornaram invasoras.
O maior impacto, segundo a Sociedade Brasileira de Primatologia, é a “poluição genética”. Essas espécies cruzam com primatas nativos e ameaçados, como o sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), gerando híbridos férteis. Isso leva à extinção da espécie pura ao longo das gerações. Além disso, são predadores eficientes de ovos de aves, desequilibrando a avifauna local.

O custo da inação contra as pragas de animais invasores
O relatório da IPBES é categórico: o custo da prevenção é dez vezes menor que o custo do controle ou da erradicação tardia. Para o Brasil, potência agroambiental, o monitoramento rigoroso e o investimento em tecnologias de controle biológico não são apenas medidas ecológicas, mas uma blindagem necessária para a economia nacional.
Escrito por Compre Rural
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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