Raça Sussex nasceu nas florestas da Inglaterra, virou gigante da carne e hoje surpreende pecuaristas

Com origem nas antigas “vacas vermelhas” do sul da Inglaterra, o gado da raça Sussex atravessou séculos, evoluiu geneticamente e hoje se destaca pela eficiência produtiva, rusticidade e qualidade de carcaça.

O avanço da pecuária moderna muitas vezes faz parecer que as grandes raças bovinas surgiram apenas com os programas de melhoramento do século XX. No entanto, algumas linhagens carregam uma história muito mais profunda — moldada por guerras agrícolas, mudanças tecnológicas e transformações no uso da terra. É o caso do gado da raça Sussex, uma raça que nasceu nas densas florestas do sul da Inglaterra e conseguiu se reinventar ao longo de mais de dois séculos até conquistar espaço em diferentes continentes.

Descendente das chamadas “vacas vermelhas” com chifres, que habitavam grande parte das regiões de Weald, Sussex e Kent, o animal era facilmente reconhecido por seus chifres longos e robustos, semelhantes aos do antigo Longhorn inglês. Mais do que aparência, porém, o que chamava atenção era sua capacidade física: tratava-se de um bovino forte, veloz e resistente — qualidades essenciais para um período em que a pecuária estava diretamente ligada ao trabalho pesado nas propriedades rurais.

Durante muitos anos, esses animais foram utilizados principalmente como força de tração, ajudando no preparo de solos difíceis e no transporte agrícola. Somente após anos de serviço — frequentemente aos seis ou sete anos — eram direcionados para a produção de carne.

Uma das primeiras referências formais ao Sussex puro aparece em 1793, no livro Agriculture in Sussex. A obra já destacava que os criadores da região priorizavam fortemente a coloração vermelho-escura, além de reconhecerem características como:

  • Pele fina
  • Carne macia e delicada
  • Boa conformação muscular

Apesar do reconhecimento precoce, o desenvolvimento estruturado da raça só ganhou força no século XIX, quando os criadores passaram a selecionar animais que combinassem padronização da cor com maior qualidade de carne.

Foto: Skietlaagte Farms

No auge de sua popularidade, o Sussex era conhecido por produzir bois ativos e extremamente fortes, ideais para trabalhar nas terras pesadas de sua região de origem. Porém, com a substituição gradual dos bois por cavalos nas atividades agrícolas, a raça passou por uma transformação estratégica.

O Sussex deixou de ser um animal de trabalho para se consolidar como raça especializada em corte, iniciando um processo de seleção genética voltado ao rendimento de carcaça e à produção de carne premium.

Nas últimas décadas, esse esforço se intensificou. Criadores investiram no aprimoramento da conformação corporal para garantir maior proporção de cortes nobres, sem abrir mão das qualidades naturais da raça — como rusticidade e fertilidade.

O Sussex é considerado um bovino de porte médio, com aparência marcante:

  • Pelagem lisa vermelho-escura, com ponta branca na cauda
  • Possibilidade de desenvolver pelagem mais espessa e encaracolada em climas frios

Medidas médias:

  • Vacas: cerca de 135 cm na cernelha e 585 kg
  • Touros: aproximadamente 145 cm e até 950 kg

Além da estrutura corporal equilibrada, trata-se de um animal econômico e longevo, capaz de atender às exigências de um mercado cada vez mais técnico e competitivo.

Sua facilidade de manejo — herdada do período em que atuava como animal de tração — faz com que se adapte bem à maioria dos sistemas produtivos.

Outro ponto valorizado por pecuaristas é a alta prepotência genética, garantindo que características desejáveis sejam rapidamente transmitidas em programas de cruzamento.

Entre os atributos mais citados por criadores estão o temperamento dócil e a facilidade de manejo — fatores que impactam diretamente a segurança operacional e os custos da fazenda.

Vacas e bezerros Sussex. Foto: Skietlaagte Farms

Principais indicadores zootécnicos da raça:

✔ Excelente mobilidade: pernas fortes e bons aprumos permitem deslocamentos longos em terrenos difíceis. Um relato na Zâmbia descreve vacas roubadas que percorreram 55 km em 24 horas, retornando sozinhas à propriedade.

✔ Alta fertilidade: partos fáceis e reprodução regular mesmo sob condições comerciais.

✔ Peso ao nascer reduzido: bezerros entre 30 e 40 kg, o que diminui riscos no parto.

✔ Maturação precoce: elevada proporção de carne comercializável.

✔ Eficiência alimentar: mantém condição corporal mesmo em pastagens de baixa qualidade, graças ao pastoreio pouco seletivo.

Um diferencial importante do Sussex é sua capacidade de adaptação climática.

A raça apresenta pele pigmentada e mais de 900 glândulas sudoríparas por cm², característica que favorece a dissipação de calor e garante tolerância a ambientes quentes e secos — atributo associado ao chamado fator Bos indicus.

No verão, desenvolve pelagem lisa; já no inverno, o crescimento rápido de uma cobertura mais densa permite enfrentar baixas temperaturas, inclusive em áreas expostas e úmidas.

Essa versatilidade explica sua expansão global.

Historicamente, o Sussex já demonstrava potencial para atingir grandes massas corporais. No final do século XVIII, os animais enviados ao tradicional mercado de Smithfield frequentemente se aproximavam de 900 kg.

Foto: Skietlaagte Farms

Registros apontam casos ainda mais expressivos:

  • Bois de oito anos chegando a 1.375 kg
  • O exemplar mais pesado conhecido atingindo 1.828 kg

Hoje, porém, a lógica produtiva mudou. O Sussex moderno é abatido mais jovem, geralmente aos 16 meses, quando alcança cerca de:

  • 475 kg de peso vivo
  • 260 kg de carcaça
  • Rendimento próximo de 55%
  • Ganho médio diário de aproximadamente 0,9 kg

O resultado é um animal alinhado às demandas atuais por eficiência e giro rápido de capital.

Embora continue sendo considerada uma raça típica das Ilhas Britânicas, o Sussex ganhou espaço fora da Europa e hoje prospera especialmente em países como:

  • Austrália
  • África do Sul
  • Estados Unidos

A exportação para a Nova Zelândia, iniciada em 1970, também marcou a difusão da genética — embora ainda existam poucos rebanhos de raça pura no país.

A trajetória do Sussex ilustra como a pecuária evolui junto com as necessidades produtivas. O que começou como um bovino de trabalho se transformou em um animal altamente eficiente para carne, combinando rusticidade, fertilidade e qualidade de carcaça.

Em um cenário global que exige produtividade com sustentabilidade econômica, raças com esse perfil tendem a ganhar ainda mais relevância — especialmente entre produtores que buscam genética funcional, facilidade de manejo e previsibilidade de resultados.

Mais do que um capítulo da história britânica, o Sussex se consolida como um exemplo clássico de adaptação — provando que, na pecuária, tradição e inovação frequentemente caminham lado a lado.

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