Farmacêutica Renata Monteiro avança na integração entre cannabis medicinal, psicodélicos e ciência e se posiciona no centro de uma das maiores transformações da saúde global
O avanço das terapias psicodélicas deixou de ser um tema restrito a nichos acadêmicos ou experimentais para ganhar espaço definitivo na agenda global da saúde. Em meio a uma crise crescente de saúde mental — marcada por limitações nos tratamentos convencionais —, um novo campo terapêutico começa a se consolidar com força científica, interesse econômico e disputas estratégicas. É nesse cenário da cannabis medicinal que surge o nome da farmacêutica brasileira Renata Monteiro, hoje posicionada na linha de frente de um setor que pode movimentar até US$ 10 bilhões nos próximos anos.
Mais do que acompanhar uma tendência, Renata representa uma geração de profissionais que transitam entre ciência, prática clínica e inovação. Com mais de duas décadas de atuação na área da saúde, ela construiu sua base na terapia canabinoide — sendo a primeira farmacêutica do Brasil reconhecida como especialista em cannabis medicinal pelo Conselho Regional de Farmácia — e, a partir daí, avançou para um território ainda mais sensível e promissor: a integração entre cannabis e psicodélicos no cuidado à saúde mental.
Um mercado que deixou de ser promessa
Os números ajudam a dimensionar o tamanho da transformação. O mercado global de terapias psicodélicas já movimenta entre US$ 1,8 bilhão e US$ 3,6 bilhões, com projeções que apontam para até US$ 10 bilhões nos próximos anos, impulsionado principalmente pela demanda por tratamentos mais eficazes para depressão, ansiedade e transtornos resistentes .
Esse crescimento não ocorre de forma isolada. Grandes farmacêuticas, fundos de investimento e startups de biotecnologia já disputam espaço em uma corrida global por inovação em saúde mental. Um dos sinais mais claros desse movimento foi um acordo internacional recente que ultrapassou US$ 1,2 bilhão envolvendo terapias inspiradas em psicodélicos, evidenciando que o capital já reconheceu o potencial desse setor.

Além disso, cadeias paralelas começam a ganhar escala, como clínicas especializadas, modelos híbridos entre saúde e wellness e o mercado de cogumelos terapêuticos, que deve ultrapassar US$ 3,6 bilhões até 2032. Na prática, não se trata mais de uma aposta — mas da construção de um novo setor econômico dentro da saúde.
Cannabis medicinal: Entre ciência e saberes ancestrais
Apesar do crescimento acelerado, Renata evita tratar os psicodélicos apenas como um mercado. Em entrevista exclusiva ao Compre Rural, ela reforça que o fenômeno atual representa, na verdade, um movimento mais profundo.
“Não estamos diante de uma nova indústria da saúde, mas do renascimento de práticas milenares que voltam à luz da ciência contemporânea” .
Segundo ela, substâncias como DMT, psilocibina, LSD e ibogaína têm demonstrado, em estudos clínicos controlados, resultados relevantes no tratamento de depressão resistente, transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade e dependência química. O diferencial está no modelo terapêutico: ao invés de uso contínuo, essas abordagens atuam em processos profundos de reconexão emocional e ressignificação, muitas vezes com efeitos duradouros após poucas sessões.
Do ponto de vista científico, os mecanismos já começam a ser compreendidos. Essas substâncias atuam sobre receptores serotoninérgicos, promovendo aumento da neuroplasticidade, reorganização de padrões cerebrais e maior integração entre regiões do cérebro — fatores associados à melhora clínica em diversos quadros psiquiátricos.

O risco do crescimento sem estrutura
Se por um lado o potencial é evidente, por outro o avanço acelerado levanta alertas importantes. A ausência de regulamentação clara, aliada ao aumento da demanda, pode abrir espaço para distorções.
“O problema não é o crescimento dessas terapias. É o crescimento sem responsabilidade”, afirma Renata.
Na prática, isso significa risco de banalização, uso sem acompanhamento clínico e promessas terapêuticas exageradas. A especialista destaca que o efeito dessas terapias não depende apenas da substância, mas de fatores como preparo do paciente, ambiente, condução profissional e integração posterior — elementos conhecidos como “set e setting”.
Sem esses cuidados, o que poderia ser uma ferramenta terapêutica potente pode se tornar um fator de risco psicológico.
O papel do Brasil nessa corrida global
Apesar de ainda estar atrás de países como Estados Unidos e Canadá em termos regulatórios, o Brasil ocupa uma posição estratégica nesse cenário. O país reúne biodiversidade, tradição no uso de medicinas ancestrais e base científica em crescimento.

Além disso, já possui um diferencial relevante: a regulamentação do uso ritualístico da ayahuasca, que coloca o Brasil como referência global nesse aspecto. Para Renata, no entanto, o país ainda precisa avançar. “A gente tem conhecimento, tem profissionais e tem demanda. Falta estrutura para transformar isso em política e acesso”.
Ela defende uma regulamentação estruturada, que integre ciência, prática clínica e saberes dos povos originários — considerados fundamentais para a segurança e a sustentabilidade desse campo.
Educação como ativo estratégico
Além da atuação clínica, Renata também investe na formação de profissionais por meio da Tekoá Escola, focada em terapias integrativas, cannabis medicinal e ciências psicodélicas.
Esse movimento revela uma das principais disputas do setor: o domínio do conhecimento. Em um mercado ainda em formação, quem estabelecer padrões de capacitação, protocolos e segurança tende a assumir posição de liderança.
“Quem dominar conhecimento, dominará mercado”, resume a lógica que já orienta investidores e players globais .
Uma transformação que vai além da medicina
O que está em jogo não é apenas a criação de novos tratamentos, mas uma mudança de paradigma na forma de enxergar a saúde. Para Renata, o futuro desse campo não será apenas clínico, mas também social, ambiental e econômico.
Ela projeta que, nos próximos anos, o setor deve evoluir para um ecossistema mais amplo, envolvendo práticas sustentáveis, valorização de cadeias produtivas éticas e maior integração entre saúde, consciência e qualidade de vida.
Nesse contexto, a pergunta central deixa de ser se esse mercado vai crescer — porque isso já é consenso — e passa a ser outra: quem vai liderar essa transformação global.
E, ao que tudo indica, o Brasil — com nomes como o de Renata Monteiro — pode deixar de ser coadjuvante para ocupar um papel de protagonismo na nova medicina.
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