Enquanto o Brasil bate recordes na produção de grãos, perdas silenciosas na logística, estradas precárias e déficit de armazenagem expõem o alto custo da ineficiência entre a fazenda e os portos do país
O Brasil nunca produziu tanto grão. Nos últimos anos, o país consolidou safras históricas de soja, milho e outras commodities agrícolas, reforçando sua posição como uma das maiores potências do agronegócio mundial. A cada ciclo, o campo brasileiro comprova sua eficiência “da porteira para dentro”, com ganhos em produtividade, genética, tecnologia e manejo.
Mas enquanto o produtor bate recordes dentro da fazenda, um velho problema continua corroendo a competitividade do agro brasileiro fora dela: o chamado “Custo Brasil”.
Estradas precárias, longas distâncias, filas em portos, gargalos ferroviários, falta de armazenagem e desperdícios no transporte ainda representam perdas bilionárias para o país. E foi justamente essa realidade que chamou a atenção de Pedro Coutinho durante uma viagem pela Rodovia dos Bandeirantes, em São Paulo.
Em publicação no LinkedIn, o vice-presidente do Banco Safra relatou ter visto dezenas de caminhões carregados de soja seguindo rumo ao Porto de Santos. A cena, segundo ele, simboliza ao mesmo tempo a força do agro e um dos maiores desafios estruturais do Brasil.
“Gravei um caminhão transportando soja e era impressionante a quantidade de grãos caindo pela estrada. Fiquei pensando: quanto o Brasil perde, silenciosamente, todos os dias, do Mato Grosso até Santos?”, escreveu.
A reflexão expõe um problema antigo, mas ainda sem solução definitiva. Segundo especialistas do setor, as perdas logísticas no transporte de grãos podem chegar a 5% em determinadas operações, considerando falhas em armazenagem, movimentação, estradas e escoamento.
Pode parecer pouco em termos percentuais, mas em um país que colhe centenas de milhões de toneladas de grãos por safra, o impacto econômico se transforma em bilhões de reais desperdiçados todos os anos.
Agro forte dentro da fazenda, gargalos fora dela
Pedro Coutinho destacou justamente essa contradição brasileira. “O agronegócio brasileiro é extremamente competitivo ‘da porteira para dentro’. Temos produtividade, tecnologia, genética, gestão e muita capacidade empreendedora. Mas ‘da porteira para fora’, ainda enfrentamos velhos desafios de infraestrutura e logística”, afirmou.
A declaração resume um dos maiores paradoxos do agronegócio nacional. O produtor rural brasileiro evoluiu em ritmo acelerado nas últimas décadas, mas a infraestrutura do país não acompanhou o crescimento da produção.
Hoje, boa parte da safra nacional percorre milhares de quilômetros por rodovias até chegar aos portos de exportação. Em muitos casos, a produção sai do Centro-Oeste rumo a Santos ou Paranaguá enfrentando estradas deterioradas, alto custo do diesel, pedágios, congestionamentos e atrasos logísticos.
Além disso, o Brasil ainda sofre com um grave déficit de armazenagem. Em várias regiões produtoras, faltam silos suficientes para estocar a safra, obrigando produtores a vender rapidamente ou depender de estruturas terceirizadas, elevando custos e aumentando perdas.
A deficiência histórica em armazenagem se soma ao desafio continental do país. Diferentemente de concorrentes globais, o Brasil possui uma matriz logística excessivamente dependente do transporte rodoviário, justamente o modal mais caro para longas distâncias.
Cada grão perdido representa dinheiro desperdiçado
Na avaliação do vice-presidente do Banco Safra, o desperdício ao longo da cadeia logística vai além da simples perda física do produto. “Cada grão perdido na estrada significa menos eficiência, menos competitividade e menos riqueza para o País”, destacou.
O impacto afeta toda a cadeia produtiva. Menor eficiência logística significa frete mais caro, redução de margens para produtores e tradings, perda de competitividade internacional e aumento do chamado custo operacional Brasil.
Mesmo assim, Coutinho reforçou a dimensão da força do setor agropecuário brasileiro.
“É impossível não reconhecer a força do agro brasileiro. Caminhões, estradas, portos, ferrovias, produtores, cooperativas e transportadores movimentando uma engrenagem gigante que ajuda a alimentar o mundo e representa cerca de 25% do nosso PIB”, escreveu.
O tamanho do Brasil virou desafio logístico
O avanço do agro rumo às novas fronteiras agrícolas ampliou ainda mais a pressão sobre a infraestrutura nacional. Estados como Mato Grosso, Pará, Maranhão e Tocantins cresceram fortemente na produção, mas ainda enfrentam limitações severas de escoamento.
Em muitos casos, a distância entre a fazenda e o porto ultrapassa 2 mil quilômetros.
O resultado aparece no custo do frete, na demora para exportação e até nas perdas ao longo das estradas. Caminhões sobrecarregados, pistas mal conservadas e falta de integração logística acabam ampliando o desperdício silencioso citado por Coutinho.
Enquanto isso, países concorrentes possuem sistemas mais integrados entre rodovias, ferrovias e hidrovias, reduzindo custos e aumentando eficiência.
Qual é a saída para o agro brasileiro?
A pergunta que fica é inevitável: como resolver o gargalo logístico do agro brasileiro?
Especialistas apontam que a solução passa por investimentos estruturais de longo prazo. A melhoria das rodovias continua essencial, principalmente em corredores estratégicos de exportação. Mas cresce também a discussão sobre ampliar a participação das ferrovias e hidrovias na matriz logística nacional.
Ferrovias podem reduzir significativamente o custo do transporte de grãos em longas distâncias, enquanto hidrovias oferecem alternativas mais baratas e sustentáveis em determinadas regiões.
Ao mesmo tempo, ampliar a capacidade de armazenagem dentro das propriedades e cooperativas também é visto como peça fundamental para reduzir perdas e dar mais eficiência ao sistema.
No fim, o alerta feito por Pedro Coutinho resume um desafio decisivo para o futuro do agronegócio nacional.
“O Brasil já mostrou que sabe produzir muito bem. Agora, precisamos continuar melhorando nossa capacidade de transportar, armazenar e escoar tudo isso com mais eficiência.”
Porque, no agro brasileiro, produzir já não é mais o maior desafio. O verdadeiro teste está em conseguir levar toda essa riqueza até o destino sem perdê-la pelo caminho.
Este video foi compartilhado, no LinkedIn, pelo Pedro Coutinho, VP do Banco Safra, mostrando a quantidade de soja que está sendo perdida no transporte até Santos
Lembro que na aula sobre logística na Esalq, o prof. Thiago Guilherme nos mostrou um dado absurdo sobre o quanto que… pic.twitter.com/NhhLXUqXE5— Alê Delara (@aledelara_) May 27, 2026
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