Produtores descartam toneladas de cebola em rodovia e crise de preços acende alerta; vídeo

Safra recorde e remuneração abaixo do custo levam agricultores de Santa Catarina ao limite, enquanto município decreta emergência para conter impactos econômicos e sociais. No vídeo produtores descartam toneladas de cebola em rodovia

Toneladas de cebola espalhadas às margens de uma estrada rural transformaram uma paisagem produtiva em um símbolo da crise enfrentada por agricultores do Sul do Brasil. O episódio ocorreu na localidade de Nova Itália, no município de Aurora, em Santa Catarina, onde produtores decidiram descartar parte da produção – no vídeo produtores descartam toneladas de cebola em rodovia – como forma de protesto contra os preços considerados inviáveis para a continuidade da atividade.

Imagens divulgadas nas redes sociais — incluindo registros feitos por drone — mostram o grande volume da hortaliça despejada em um terreno cujo proprietário autorizou a ação, com a intenção de reaproveitar o material como adubo futuramente. O gesto, embora extremo, reflete a gravidade da situação econômica vivida pelas famílias rurais da região, que têm na cebolicultura sua principal fonte de renda.

A crise ganhou contornos institucionais após a prefeitura de Ituporanga, município vizinho conhecido como a “Capital Nacional da Cebola”, decretar situação de emergência no setor agrícola por 180 dias — prazo que ainda pode ser prorrogado conforme a evolução do cenário.

Baixa remuneração pressiona e produtores descartam toneladas de cebola em rodovia

Segundo a Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente, a queda nos preços vem provocando prejuízos diretos aos agricultores, comprometendo a renda das famílias e afetando a economia local.

Os valores da cebola apresentam trajetória de queda desde o início do segundo semestre. Em junho de 2025, a saca de 20 quilos (classe 3 a 5) foi comercializada, em média, por R$ 30,36 em Santa Catarina, enquanto o custo de produção estava estimado em R$ 1,67 por quilo — uma relação que evidencia margens cada vez mais apertadas.

O principal fator por trás dessa desvalorização é o excesso de oferta. O estado, líder nacional na produção da hortaliça, deve registrar uma safra recorde em 2025/26, com quase 600 mil toneladas, crescimento de 7,3% frente à temporada anterior, de acordo com o Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola da Epagri.

Produzir para perder dinheiro

A situação já vinha se deteriorando desde o ciclo anterior. O presidente do Sindicato Rural de Ituporanga, Arny Mohr, relatou que a safra 2024/25 foi marcada por prejuízos e que o novo ciclo começou em condições ainda piores, com preços pagando apenas cerca de 50% do custo de produção.

Esse descompasso entre custo e receita tem levado produtores a decisões difíceis — desde reduzir área plantada até descartar parte da produção — para tentar minimizar perdas financeiras.

Decreto permite ações emergenciais

Com a declaração de emergência, a administração municipal passa a ter autorização para adotar medidas administrativas excepcionais voltadas à redução dos efeitos da crise. Entre as iniciativas previstas estão:

  • priorização de políticas públicas para o setor agrícola;
  • revisão de prazos administrativos;
  • ampliação de programas de apoio à produção;
  • suporte para acesso a crédito e renegociação de dívidas;
  • articulação com governos estadual e federal, além de instituições financeiras.

O reconhecimento oficial da situação também facilita a formalização de pedidos de apoio técnico e financeiro, além de subsidiar novos programas destinados à manutenção da atividade rural e à mitigação dos impactos econômicos e sociais.

Impactos vão além da porteira

Para autoridades locais, preservar a sustentabilidade da produção agrícola tornou-se prioridade não apenas para proteger os produtores, mas também para evitar efeitos em cadeia sobre o comércio, o emprego e a arrecadação municipal — todos fortemente dependentes da cadeia da cebola.

O episódio em Santa Catarina expõe um dilema recorrente do agronegócio: safras volumosas nem sempre significam rentabilidade, especialmente quando o mercado não absorve a produção no mesmo ritmo. Nesse cenário, o protesto dos agricultores serve como alerta para a necessidade de estratégias mais robustas de gestão de oferta, armazenamento, comercialização e acesso a mercados.

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