Sem encontrar maquinário adequado para a cultura, agricultor mineiro transforma sucata em solução tecnológica, acelera o plantio de abacaxi e passa a exportar equipamentos para o mercado asiático.
A cultura do abacaxi no Brasil ainda enfrenta desafios estruturais importantes, especialmente quando se trata de mecanização. Em muitas propriedades, o plantio e a aplicação de insumos continuam dependentes de trabalho manual intenso, o que eleva custos, reduz eficiência e amplia a dependência de mão de obra — cada vez mais escassa no campo. Foi nesse cenário que o produtor rural Wagner Guidi, do distrito de Aparecida de Minas, em Frutal (MG), decidiu agir.
Movido por uma paixão antiga pelo cultivo e plantio de abacaxi e sem encontrar no mercado máquinas adaptadas às suas necessidades, Wagner resolveu fazer o que parecia improvável: construir seus próprios equipamentos. O que começou como uma solução improvisada em um barracão da fazenda evoluiu para uma pequena indústria que hoje exporta tecnologia agrícola brasileira até Taiwan.
O ponto de partida foi um gargalo clássico da fruticultura: a aplicação de insumos. Sem recursos para investir em maquinário sofisticado, Wagner utilizou peças antigas armazenadas na propriedade e desenvolveu sua primeira “engenhoca”: uma máquina capaz de pulverizar até um hectare por hora, aplicando adubo com precisão, próximo à planta.
A solução não apenas acelerou o trabalho no campo, como também aumentou a eficiência na utilização de insumos, reduzindo desperdícios e melhorando a distribuição dos produtos.
A experiência mostrou que era possível ir além.
O segundo invento atacou diretamente outro entrave da cultura: o plantio do abacaxi. Wagner criou uma plantadora de mudas acoplada ao trator, onde duas pessoas posicionam as mudas em um sistema que as deposita diretamente na terra, já enfileiradas e corretamente alinhadas.
O ganho de produtividade impressiona. Com o equipamento, é possível plantar 3.600 mudas por hora. No sistema tradicional, um trabalhador conseguia plantar cerca de 3 mil mudas por dia inteiro de serviço.
Até chegar ao modelo atual, foram cinco anos de testes e cinco protótipos diferentes. O desenvolvimento foi marcado por ajustes técnicos, tentativas frustradas e muita persistência. O próprio produtor relembra o momento decisivo: quando conseguiu colocar três mudas em pé com a máquina, teve certeza de que o projeto estava no caminho certo.
Além de acelerar o plantio do abacaxi, as máquinas trouxeram ganhos agronômicos importantes. A aplicação mais precisa de insumos reduziu perdas e melhorou o aproveitamento dos produtos.
Segundo relatos de produtores que adotaram os equipamentos, como Júlio — que utiliza as máquinas desenvolvidas por Wagner — a produtividade aumentou cerca de 20% após a mecanização do processo.
Esse percentual representa um salto relevante para uma cultura em que margens podem ser pressionadas por custos operacionais e oscilações de mercado.
O que era apenas um barracão com peças reaproveitadas se transformou em um pequeno polo de inovação agrícola. Hoje, Wagner produz cinco máquinas por mês, com estrutura mais profissionalizada, corte a laser, peças pré-montadas e organização industrial.
Com maior capital e estrutura, os equipamentos ganharam acabamento técnico, padronização e confiabilidade, abrindo portas para novos mercados.
A iniciativa deixou de ser apenas uma solução para a própria lavoura e se tornou um negócio estruturado, capaz de atender outros produtores e até compradores internacionais.
A expansão ultrapassou fronteiras nacionais. As máquinas desenvolvidas no interior de Minas Gerais já são exportadas para Taiwan, território asiático com tradição na produção agrícola intensiva e alto nível tecnológico.

O fato de uma solução criada em um barracão rural brasileiro alcançar o mercado internacional demonstra a competitividade e a capacidade de inovação do agro nacional.
Mais do que um caso isolado de criatividade, a trajetória de Wagner revela uma tendência crescente no campo brasileiro: produtores que deixam de ser apenas consumidores de tecnologia e passam a ser também desenvolvedores de soluções adaptadas à realidade local.
A história do produtor de Aparecida de Minas evidencia que a inovação no agronegócio não nasce apenas em grandes centros de pesquisa ou multinacionais de máquinas agrícolas. Muitas vezes, ela surge da necessidade, da observação prática e da persistência de quem vive diariamente os desafios da produção.
Ao transformar dificuldades em oportunidade, Wagner não apenas garantiu o sustento da família, como também colocou o nome de sua cidade e do agro brasileiro no mapa internacional.
Do interior do Triângulo Mineiro até o mercado asiático, suas máquinas carregam mais do que tecnologia: levam a prova de que criatividade, resiliência e conhecimento de campo podem revolucionar sistemas produtivos e abrir novas fronteiras para o Brasil no cenário global.
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