Pressão aumenta no mercado do boi gordo e arroba perde força em importantes praças

Com avanço da safra de pasto, escalas de abate mais confortáveis e consumo doméstico enfraquecido, mercado do boi gordo enfrenta novas pressões de baixa; consultorias apontam cenário desafiador para as próximas semanas

O mercado do boi gordo iniciou a semana sob um ambiente de cautela e pressão sobre os preços em diversas regiões pecuárias do Brasil. Apesar da estabilidade observada em algumas praças no início das negociações desta segunda-feira (18), analistas apontam que o avanço da safra de pasto, aliado ao enfraquecimento do consumo interno e ao conforto nas escalas de abate dos frigoríficos, deve continuar pressionando a arroba no curto prazo.

O cenário descrito por consultorias como Agrifatto, Safras & Mercado e Cepea revela um mercado travado, com frigoríficos menos agressivos nas compras e pecuaristas enfrentando dificuldades para sustentar preços em meio ao aumento da oferta de animais terminados a pasto.

Segundo análise da Agrifatto, o momento atual é considerado típico do auge da safra do boi gordo. Nessa fase do ano, cresce significativamente a oferta de animais vindos do pasto, enquanto a capacidade de retenção por parte dos produtores diminui devido à perda gradual da qualidade das pastagens.

Oferta elevada e frigoríficos confortáveis pressionam arroba

A combinação entre maior disponibilidade de gado e escalas de abate mais alongadas vem reduzindo a necessidade urgente de compras por parte das indústrias frigoríficas. Em várias regiões, frigoríficos já trabalham abastecidos para os próximos dias, fator que diminui a disputa por animais terminados.

De acordo com levantamento do Cepea, muitas unidades frigoríficas já encerraram a última semana com programação atendendo inclusive o início de junho, cenário que contribui para a lentidão das negociações no mercado balcão.

Na avaliação do analista Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, a pressão baixista se intensificou especialmente em estados como Goiás, Minas Gerais e São Paulo, onde as condições das pastagens pioraram mais rapidamente.

Enquanto isso, Rondônia ainda apresenta maior firmeza nas negociações devido à melhor condição das pastagens, permitindo negócios acima da média nacional.

As médias levantadas pela Safras & Mercado mostram a diferença entre as regiões:

  • São Paulo: R$ 343,17/@
  • Goiás: R$ 326,07/@
  • Minas Gerais: R$ 325,88/@
  • Mato Grosso do Sul: R$ 344,55/@
  • Mato Grosso: R$ 352,57/@

Já segundo a Agrifatto, o boi comum em São Paulo segue cotado em torno de R$ 345/@, enquanto o chamado “boi-China” opera próximo de R$ 355/@ no prazo. Pela Scot Consultoria, as referências paulistas apontam R$ 348/@ para o mercado interno e R$ 353/@ para animais destinados à exportação para a China.

Consumo enfraquecido agrava situação do mercado do boi gordo

Outro fator que vem contribuindo para a perda de sustentação do boi gordo é a desaceleração do consumo doméstico de carne bovina na segunda quinzena do mês. Com o orçamento das famílias mais apertado após o pagamento de contas e despesas do início do mês, o varejo registra menor fluxo de compras.

A Agrifatto relata que o frio e as chuvas registrados no fim de semana também reduziram o movimento em supermercados e açougues.

No atacado, o quadro segue semelhante. As entregas realizadas entre sexta-feira e segunda-feira apresentaram baixo volume, refletindo a retração dos pedidos de reposição do varejo. A expectativa do mercado é que o consumidor continue migrando para proteínas mais acessíveis, como frango, ovos e carne suína.

A própria Safras & Mercado destaca que a carne bovina perdeu competitividade frente às proteínas concorrentes, especialmente o frango, o que limita novas reações positivas nos preços da carne no atacado.

Atualmente, os preços médios no atacado paulista estão em:

  • Quarto traseiro: R$ 27,50/kg
  • Quarto dianteiro: R$ 21,50/kg
  • Ponta de agulha: R$ 20,00/kg

Segundo o Cepea, o quilo da carne bovina na Grande São Paulo já acumula retração de 1,3% desde o início do mês, encerrando a sexta-feira cotado em média a R$ 25,20/kg.

Mercado futuro também sente pressão

O ambiente negativo também atingiu os contratos futuros do boi gordo negociados na B3. Os vencimentos mais curtos registraram quedas importantes ao longo da última semana.

O contrato de maio/26 caiu 1,45%, encerrando cotado a R$ 336,75/@, enquanto junho/26 fechou a R$ 336,55/@, com recuo de 0,33%.

Os contratos de médio prazo apresentaram estabilidade maior, indicando que parte do mercado ainda trabalha com expectativa de restrição de oferta mais à frente, principalmente caso haja retomada mais forte das exportações para a China.

A Agrifatto ressalta que o ágio entre mercado futuro e físico segue negativo até agosto, variando entre R$ 6/@ e R$ 7/@, o que demonstra cautela dos investidores diante do atual cenário.

Questões geopolíticas também entram no radar

Além dos fundamentos internos, o mercado acompanha atentamente fatores internacionais que podem impactar diretamente as exportações brasileiras de carne bovina.

Entre os temas monitorados estão:

  • O avanço do preenchimento da cota de salvaguarda da China;
  • Possíveis alterações tarifárias nos Estados Unidos;
  • Mudanças regulatórias envolvendo a União Europeia.

A Agrifatto destacou ainda que o Brasil já atingiu 50% da cota chinesa de salvaguarda, fator que mantém o setor exportador em alerta diante do risco de aplicação de tarifas adicionais caso o limite seja alcançado nos próximos meses.

Mesmo diante desse ambiente de incertezas, parte do mercado acredita que eventuais restrições futuras na oferta podem trazer alguma sustentação aos preços no segundo semestre.

Por enquanto, porém, o sentimento predominante continua sendo de cautela, com a safra de pasto mantendo pressão sobre o mercado físico e limitando qualquer tentativa mais consistente de recuperação da arroba.

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