Com mais de 13 mil casos no México, a bicheira-do-Novo-Mundo — parasita que pode levar animais à morte — já mobiliza um plano bilionário nos EUA e acende um alerta global na cadeia da carne bovina.
O avanço de uma praga capaz de matar animais e gerar perdas bilionárias colocou a pecuária dos Estados Unidos em estado de atenção máxima. O governo norte-americano prepara um plano de US$ 750 milhões para conter a disseminação da chamada bicheira-do-Novo-Mundo, um parasita que vem se deslocando do México em direção ao Texas e ameaça diretamente a produção de carne bovina do país.
Embora autoridades afirmem que o parasita ainda não cruzou a fronteira, o impacto potencial já preocupa. Estimativas do Departamento de Agricultura dos EUA indicam que a ameaça pode gerar prejuízos de até US$ 1,8 bilhão apenas no Texas, evidenciando a dimensão econômica do problema.
Plano emergencial para conter a praga
Entre as principais medidas está a construção de uma fábrica no Texas dedicada à produção de moscas estéreis, tecnologia utilizada para interromper o ciclo reprodutivo do parasita da bicheira-do-Novo-Mundo. A previsão é que a unidade seja inaugurada até 2027, reforçando a estratégia sanitária do país.
O surto atual teve origem na América Central e avançou para o norte, afetando cadeias pecuárias tanto no México quanto nos Estados Unidos. Como resposta imediata, os EUA mantêm a fronteira sul praticamente fechada para a entrada de gado mexicano desde maio, numa tentativa de impedir a propagação.
O que é a bicheira-do-Novo-Mundo
As responsáveis pela infestação são moscas-varejeiras, cujas fêmeas depositam ovos em feridas abertas dos animais. As larvas se alimentam de tecido vivo e, quando não tratadas, podem levar o hospedeiro à morte — um risco sanitário que preocupa produtores e autoridades.
Além dos bovinos, o parasita pode, em casos raros, afetar aves e até humanos, ampliando o nível de vigilância necessário para evitar surtos mais graves.
Dados oficiais apontam que o México contabilizou 13.106 casos da praga desde novembro de 2024, dos quais 671 permaneciam ativos até o fim de 2025. O estado de Chiapas lidera as ocorrências, seguido por Oaxaca, Veracruz e Yucatán.
Casos recentes reforçam o alerta sanitário: um foi identificado em uma cabra no Estado do México e outro em um bezerro de apenas seis dias no estado de Tamaulipas — ambos tratados, com medidas preventivas adotadas nos demais animais das propriedades.
Carne mais cara e oferta pressionada
O avanço da doença surge em um momento já delicado para o abastecimento de carne bovina nos EUA. Nos últimos dois anos, o preço da carne moída — base de produtos como hambúrgueres — subiu 23%, refletindo uma combinação de fatores como clima adverso, redução do rebanho e políticas comerciais.
Desde 2019, o rebanho de gado de corte do país caiu para 27,9 milhões de cabeças, uma retração de 13% e o nível mais baixo desde 1951. A seca no oeste elevou custos, forçando produtores a investir mais em ração e, em muitos casos, reduzir plantéis.
Outro componente da pressão veio da tarifa de 50% sobre a carne brasileira, além dos efeitos persistentes da pandemia, que fechou frigoríficos e reduziu a demanda por gado, desorganizando o mercado.
Fronteira fechada e reação da Casa Branca
Historicamente, os Estados Unidos importavam gado do México para engorda em confinamentos e posterior abate. Com a suspensão dessas importações, parte relevante da oferta foi cortada, dificultando o equilíbrio entre oferta e demanda e ampliando os desafios para controlar os preços internos.
Na tentativa de aliviar o mercado, o governo autorizou o aumento em 80 mil toneladas das exportações de carne bovina da Argentina aos EUA, buscando ampliar a disponibilidade do produto e frear a escalada dos preços.
Impactos que ultrapassam as fronteiras
A crise sanitária evidencia como doenças e pragas continuam sendo um dos maiores riscos para cadeias globais de proteína animal. Para um mercado já pressionado por custos elevados, mudanças climáticas e tensões comerciais, a disseminação da bicheira-do-Novo-Mundo pode redefinir fluxos de comércio e influenciar preços internacionais.
Para o setor agropecuário mundial — especialmente grandes exportadores — o episódio reforça uma lição recorrente: sanidade animal deixou de ser apenas uma questão veterinária e passou a ser um fator estratégico de segurança alimentar e econômica.
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