Descubra a ciência de por que o carrapato prefere certas raças de gado. Entenda como genética, odor e imunidade protegem o Zebuíno e afetam o Europeu.
O carrapato-do-boi (Rhipicephalus microplus) é, historicamente, o inimigo número um da pecuária tropical, gerando prejuízos que ultrapassam os US$ 3,2 bilhões anuais apenas no Brasil, segundo dados da Embrapa. No entanto, produtores que observam o rebanho misto notam um fenômeno curioso: no mesmo pasto, sob as mesmas condições, o gado Europeu (Bos taurus) costuma estar infestado, enquanto o Zebuíno (Bos indicus) ou o Cruzado apresenta uma carga parasitária significativamente menor. Mas, afinal, por que o carrapato prefere certas raças de gado em detrimento de outras?
A resposta não está na “sorte”, mas na biologia evolutiva. A ciência explica que uma combinação de fatores genéticos, imunológicos e até físicos (como a espessura do couro e o odor) cria uma barreira natural que protege certas raças. Entender essa dinâmica é crucial para reduzir custos com defensivos e aumentar a produtividade.
A Ciência explica: Por que o carrapato prefere certas raças?
Para compreender a predileção do parasita, precisamos analisar a adaptação das espécies. O gado Zebuíno (como o Nelore) coevoluiu com os carrapatos em ambientes tropicais por milhares de anos, desenvolvendo mecanismos de defesa que o gado Europeu (como Angus ou Hereford), originário de climas temperados e livres desse parasita específico, não possui.
Estudos de instituições como a CSIRO (Austrália) e a Embrapa Gado de Corte apontam que a resistência é uma característica de alta herdabilidade. Isso significa que o carrapato prefere certas raças porque encontra nelas “caminhos abertos” para se alimentar, enquanto em outras encontra barreiras biológicas.
1. O Fator Pele e Pelagem
A estrutura física é a primeira linha de defesa.
- Gado Zebuíno: Possui pelos curtos, lisos e assentados, dificultando a fixação das larvas do carrapato. Além disso, possuem a capacidade de mover a pele (o famoso “tremer” do músculo cutâneo) com mais eficiência para expulsar o parasita.
- Gado Europeu: Tende a ter pelos mais longos e encaracolados, criando um microclima úmido e protegido, ideal para a sobrevivência das larvas. A pele é mais vascularizada na superfície, facilitando o acesso ao sangue.
2. A “Química” do Suor e Odor
Um ponto fascinante revelado por pesquisas recentes é o papel das secreções glandulares. O odor exalado pelo gado funciona como um atrativo ou repelente. O gado Zebuíno produz secreções sebáceas e sudoríparas com composições químicas específicas que atuam como repelentes naturais. Já o gado Taurino libera odores que, quimicamente, sinalizam ao parasita que ali há um hospedeiro acessível. É uma das razões químicas do por que o carrapato prefere certas raças.
Imunidade: A reação alérgica que salva o gado
Além da barreira física, existe a resposta imunológica. Quando uma larva de carrapato pica um animal resistente (como um Cruzado com bom grau de sangue zebuíno), o sistema imune do animal reage quase imediatamente.
Ocorre uma reação de hipersensibilidade (similar a uma alergia forte) no local da picada. O corpo libera histamina, causando inchaço e exsudação (liberação de líquidos), o que impede a larva de se fixar e se alimentar, levando-a à morte antes que possa transmitir doenças ou sugar sangue significativo. No gado sensível, essa resposta é tardia ou inexistente, permitindo que o carrapato complete seu ciclo.
Dado Importante: Pesquisas indicam que em um mesmo rebanho, animais sensíveis podem carregar até 90% da contagem total de carrapatos. Identificar e tratar ou descartar esses animais “de sangue doce” é uma estratégia de limpeza do pasto.
A solução para o produtor
Sabendo por que o carrapato prefere certas raças, o produtor não deve ficar refém apenas dos carrapaticidas químicos, que geram resistência nos parasitas. A estratégia moderna de combate baseia-se em dois pilares:
Seleção Genética
Incorporar a resistência ao carrapato como critério de seleção é vital. Raças sintéticas (como o Brangus ou Braford) buscam equilibrar a qualidade da carne europeia com a rusticidade zebuína. Ferramentas de genômica já permitem identificar touros que transmitem maior resistência aos parasitas para sua progênie.
Controle Estratégico
Não espere o gado estar “branco” de carrapato para agir. O Controle Estratégico baseia-se em tratar o rebanho nos momentos em que o parasita está mais vulnerável no ambiente (geralmente final da seca e início das águas) e focar nos animais mais suscetíveis.
Entender a fundo a relação parasita-hospedeiro e por que o carrapato prefere certas raças tira o produtor do empirismo e o coloca na gestão de precisão. A combinação de genética adequada (cruzamento industrial planejado) com manejo sanitário inteligente é a única via para blindar a lucratividade da fazenda contra esse inimigo milenar.
Escrito por Compre Rural
VEJA MAIS:
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.