A ilusão do “pasto verde” leva muitos pecuaristas a suspenderem a suplementação na época das chuvas. Entenda por que essa economia custa caro no final do ciclo e como a estratégia certa pode antecipar o abate.
Quando as primeiras chuvas caem e o pasto, antes seco e marrom, explode em um verde vibrante, o sentimento do pecuarista é de alívio. Com a oferta de forragem abundante, a primeira reação instintiva de muitos gestores é fechar a torneira dos custos: cortar o suplemento, a ração ou o proteinado, deixando o gado “apenas no pasto e no sal branco”.
No entanto, estudos da Embrapa e dados de consultorias de nutrição animal apontam que essa decisão, embora pareça uma economia imediata no fluxo de caixa, pode ser o maior gargalo produtivo da fazenda. Cortar drasticamente a nutrição nas águas é, literalmente, um tiro no pé. Abaixo, explicamos tecnicamente — mas de forma simples — por que o “pasto das águas” não faz milagre sozinho e como potencializar os ganhos nesta época.
A Armadilha da “Barriga d’Água”
O capim tenro e jovem do início das águas tem um visual lindo, mas uma composição enganosa. Ele possui altíssimo teor de umidade (muita água) e baixa Matéria Seca.
O boi enche o rúmen rapidamente, mas grande parte desse volume é água. O animal sacia a fome física, mas muitas vezes não consegue ingerir a quantidade necessária de nutrientes sólidos para sustentar ganhos de peso elevados (acima de 800g ou 1kg/dia). Ao retirar a suplementação estratégica, você deixa o animal limitado à capacidade física de ingestão do pasto, perdendo a chance de maximizar o desempenho na época mais barata do ano.
O Desbalanço de Minerais e Energia
Mesmo verde, o capim tropical brasileiro raramente é completo. Pesquisas indicam que, nas águas, embora a proteína do capim suba, há frequentemente um desequilíbrio na relação energia/proteína dentro do rúmen.
Sem um suplemento energético ou um proteico-energético de baixo consumo para “casar” com a alta proteína do capim, parte desse nutriente nobre do pasto é desperdiçada nas fezes e urina. O suplemento nas águas não serve para substituir o pasto (como na seca), mas para catalisar o aproveitamento dele. É o chamado “efeito aditivo”: o boi come o suplemento e, por isso, aproveita melhor o capim.
O Custo Oculto do Ciclo Longo
A conta é simples: o boi é uma fábrica que nunca para. Se nas águas — que é o momento de “acelerar o carro” — você tira o pé do acelerador (corta a ração), o animal ganha menos peso do que seu potencial genético permitiria.
- Com suplementação nas águas: O animal pode ganhar de 200g a 300g adicionais por dia além do que ganharia só no pasto.
- Sem suplementação: Ele ganha peso, mas deixa de acumular essa “gordura extra”.
Resultado? O animal entra na próxima seca mais leve. Isso atrasa o abate em meses ou até um ano, aumentando o custo fixo de manutenção desse animal na fazenda. O “barato” da ração cortada sai caro no tempo de permanência do boi no pasto.
A Importância do “Proteinado de Águas”
Diferente da seca, onde o foco é fornecer a proteína que o pasto não tem, nas águas o objetivo é outro. O uso de suplementos proteico-energéticos (0,1% a 0,3% do peso vivo) serve para potencializar a digestão da fibra de alta qualidade.
Suspender isso abruptamente causa distúrbios na flora ruminal, que precisa de tempo para se adaptar. A transição seca-águas e águas-seca exige constância. Cortar o trato de uma vez gera estresse metabólico e queda de imunidade.
Não corte, ajuste
A recomendação de zootecnistas é clara: não olhe apenas para o custo da saca de suplemento, mas para o Custo do @ Produzido. Nas águas, o custo da arroba produzida é o menor do ano. É a hora de investir para colher animais pesados antes da próxima estiagem.
Em vez de cortar tudo, ajuste a estratégia. Migre de uma ração de confinamento para um suplemento de alta performance a pasto, mas nunca deixe o cocho vazio achando que o capim verde resolve tudo.
Escrito por Compre Rural
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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