Biotecnologia transforma resíduo industrial – pó de tabaco – em insumo agrícola certificado, fortalece a economia circular e amplia a sustentabilidade da cadeia produtiva do tabaco
A agricultura brasileira tem avançado em soluções sustentáveis capazes de unir produtividade e responsabilidade ambiental — e um dos exemplos mais recentes vem da cadeia do tabaco. O resíduo gerado durante o processamento das folhas, conhecido como pó de tabaco, está sendo totalmente reaproveitado na forma de fertilizante orgânico, em um movimento que reforça o conceito de economia circular e reduz impactos ambientais.
Para a safra 2025/26, cerca de 23 mil toneladas do fertilizante reciclado devem ser utilizadas nas lavouras, resultado de um sistema estruturado pelas empresas associadas ao Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco).
A iniciativa demonstra como a inovação tecnológica pode transformar descartes industriais em insumos estratégicos, retornando às propriedades rurais e contribuindo diretamente para o aumento da produtividade agrícola.
Economia circular ganha força no campo
O fertilizante — comercialmente chamado de Fertileaf — é produzido pela Fundação para Proteção Ambiental de Santa Cruz do Sul (Fupasc) e possui registro no Ministério da Agricultura e Pecuária, além de certificação da Ecocert para uso na produção orgânica.
Após o processamento, o produto retorna às unidades industriais e é distribuído aos produtores por meio do Sistema Integrado de Produção de Tabaco (SIPT), fortalecendo a lógica de reaproveitamento dentro da própria cadeia produtiva.
O modelo garante que 100% do pó de tabaco seja reutilizado como fertilizante, gerando ganhos ambientais e econômicos ao setor.
Escala crescente e avanço da reciclagem
Os números evidenciam a expansão do projeto ao longo dos anos. Entre 2014 e 2025, foram produzidas mais de 175 mil toneladas de fertilizante orgânico, sendo que o programa começou com o processamento de apenas 5.375 toneladas do resíduo.
Já no intervalo de 2020 a 2025, a produção registrou crescimento de 56,5%, saltando de 14.692 toneladas para aproximadamente 22.992 toneladas — volume que agora deve atender diretamente as lavouras da nova safra.
Esse avanço ocorreu à medida que mais unidades industriais passaram a direcionar integralmente o pó de tabaco para a transformação em adubo.

Como o fertilizante é produzido
O processo combina tecnologia, controle ambiental e biotecnologia. Para a fabricação do Fertileaf, o pó de tabaco recebe cerca de 3% de cinzas de caldeiras à lenha, além de um consórcio de micro-organismos responsáveis por acelerar a fermentação e estabilização do material.
A compostagem ocorre em área totalmente coberta, por meio de um sistema de fermentação em estado sólido — um ciclo fechado que não gera resíduos líquidos.
O processo inclui ainda:
- Monitoramento diário da temperatura das pilhas de maturação;
- Ensaios de germinação para verificar a eficiência do composto;
- Maturação entre 90 e 120 dias até que o produto esteja pronto para uso.
Além disso, a produção opera com 100% de energia proveniente de usina solar própria e utiliza exclusivamente água de reuso, reforçando o compromisso ambiental da iniciativa.
Duas décadas de pesquisa sustentam a tecnologia
Segundo o SindiTabaco, o Fertileaf é resultado de aproximadamente 20 anos de pesquisas e experimentos, que permitiram o desenvolvimento da biotecnologia e da estrutura adequada para compostagem dos resíduos do setor fumageiro.
Esse histórico ajuda a explicar por que o fertilizante hoje atende normas brasileiras e internacionais para produção orgânica, ampliando sua relevância no cenário agrícola.
Sustentabilidade aliada à produtividade
Ao transformar um passivo ambiental em insumo agrícola, o setor cria um ciclo virtuoso: reduz a necessidade de descarte industrial, melhora a fertilidade do solo e devolve valor ao produtor rural.
A estratégia também se conecta a uma tendência global — a busca por sistemas produtivos mais eficientes, com menor impacto ambiental e maior rastreabilidade dos processos.
Com a utilização do fertilizante reciclado na safra 2025/26, a cadeia do tabaco reforça que a sustentabilidade deixou de ser apenas um discurso para se tornar um componente prático da competitividade no agro.
Em um cenário de crescente pressão por práticas responsáveis, iniciativas como essa mostram que a economia circular pode ser não apenas viável, mas também altamente escalável dentro do agronegócio brasileiro.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.