Espécie amazônica de peixe-elétrico, o poraquê é capaz de emitir descargas potentes na água e já foi associada a quedas e pode até matar cavalo, assusta quem lida com água em áreas rurais; especialistas explicam quando o risco é real.
Em vídeos que circulam nas redes sociais — e que viralizaram entre criadores e moradores de zonas rurais — aparece um cavalo caindo imediatamente após pisar em um peixe-elétrico em um córrego raso. As imagens, que podem ser vistas abaixo e são impressionantes e preocupantes, reacenderam o debate sobre os riscos desses animais aquáticos para seres humanos e grandes mamíferos que atravessam margens de rios e igarapés. Os relatos mencionam choques que parecem “derrubar” um cavalo à primeira vista, despertando medo e curiosidade sobre o fenômeno. Mas o que diz a ciência sobre o peixe-elétrico que pode matar cavalo com até 800 volts e assusta criadores?
O que é o peixe-elétrico e como ele funciona
O peixe-elétrico mais conhecido da América do Sul é o poraquê (Electrophorus electricus), um peixe da bacia amazônica que pode alcançar até cerca de 2,5 metros de comprimento e 20 kg de peso. Embora popularmente seja chamado de enguia, ele pertence à ordem Gymnotiformes e não é um verdadeiro peixe-enguia.
O poraquê possui órgãos elétricos modificados ao longo do corpo — compostos por células chamadas eletrócitos — que geram descargas elétricas. Essas descargas são utilizadas tanto para navegação e comunicação quanto para defesa e captura de presas. A voltagem pode variar de 300 a cerca de 860 volts, embora dure por períodos muito curtos (em segundos).
Apesar de a energia elétrica produzida ser alta em termos de voltagem, a amperagem (corrente elétrica) permanece relativamente baixa, o que faz com que esses choques raramente sejam fatais para seres humanos — mesmo que extremamente dolorosos e perigosos em certas situações.
Relatos históricos e comportamento surpreendente
O poder do poraquê já era tema de relatos históricos. No início do século XIX, o naturalista alemão Alexander von Humboldt descreveu uma cena lendária na qual electric eels (enguias elétricas) atacaram cavalos que foram conduzidos por pescadores sul-americanos para um poço raso contendo esses peixes — até que eles se cansaram e puderam ser capturados.
Embora essa história tenha sido alvo de ceticismo, estudos modernos confirmaram que esses peixes podem saltar parcialmente para fora d’água e aplicar choques poderosos diretamente em um objeto ou animal que conduza eletricidade — comportamento que poderia aumentar a intensidade do choque sobre um alvo fora da água.
Segundo pesquisadores que observaram esse comportamento em laboratório, os peixes podem pressionar a parte do corpo condutor contra um objeto emergente para maximizar a transferência de energia elétrica, um mecanismo que pode ter evoluído como forma de defesa em condições em que o peixe fica “encurralado” em poças rasas durante a estação seca.
Poraquê: O perigo real para criadores e animais de grande porte
Para criadores em ambientes rurais — especialmente em regiões onde ocorrem períodos de cheia e seca que deixam animais de grande porte atravessando locais rasos com presença desses peixes — as imagens se tornam um alerta. Um choque intenso pode:
- Imobilizar temporariamente um cavalo ou outro animal grande, levando-o a cair e sofrer ferimentos por impacto;
- Provocar dor intensa e contração muscular involuntária, fator de risco para quedas e lesões secundárias;
- Assustar ou ferir seres humanos que entrem na água sem perceber a presença do peixe.
Especialistas lembram, no entanto, que a descarga elétrica dos peixes, embora de alta voltagem, não está continuamente disponível e não representa um risco constante fora do contato direto. A intensidade dos efeitos depende de fatores como profundidade da água, contato físico direto e tamanho do animal atingido.
Importância da interpretação e dos vídeos virais
Apesar de as imagens serem impactantes, pesquisadores e divulgadores científicos alertam para a necessidade de interpretar com cautela vídeos virais. A presença de um peixe-elétrico em um local e seu potencial para choque não significa que sempre seja letal ou que ele “ataque” grandes animais de forma intencional comparável a cenas cinematográficas.
Muitos vídeos que circulam em plataformas podem misturar fatos naturais com exageros da edição ou da legenda, o que pode levar a conclusões equivocadas.
O peixe-elétrico continua sendo uma espécie fascinante e temida por suas habilidades eletrogênicas. Para criadores, moradores de áreas ribeirinhas e amantes da natureza, é importante compreender tanto o potencial real de um choque elétrico quanto os limites e contextos biológicos desses animais, lembrando que o fenômeno, embora impressionante, faz parte da complexa relação entre fauna aquática e seres vivos que dependem da água no dia a dia.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.