Quando a arroba sobe, a euforia engana: por que os ciclos de alta testam mais a gestão do que aliviam a fazenda
Por vários autores* – Nos últimos meses, o tema voltou a circular com força no campo. Em rodas de conversa, reuniões e análises de mercado, cresce a expectativa de que o preço da arroba volte a reagir ao longo desse ano. Não é nada novo, na verdade, já temos mais de 100 anos de histórico de mercado que mostram que o ciclo pecuário existe, acontece e tem um padrão em todos os países pecuários (Estados Unidos, Austrália, Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina…). Mas se todo o mundo sabe que isso existe, por que ele continua acontecendo? Exatamente por causa dos sentimentos e dores (principalmente no bolso) que ele gera em cada uma das suas fases…
O ciclo de alta é sempre o momento que reacende a chama: a ideia de que o cenário pode começar a virar, e quando a arroba do boi sobe, o humor das fazendas melhora, as conversas ganham ânimo e surge aquela sensação de “agora vai”. É natural. O alívio chega, o “caixa respira”, mas, sem gestão, vira euforia, e a euforia pode cegar.
Em ciclos de alta, muita gente confunde faturamento com lucro e dinheiro entrando com dinheiro sobrando. A fazenda começa a girar mais, o caixa parece respirar e, de repente, decisões importantes passam a ser tomadas no impulso: compras, investimentos, aumentos de custo fixo, compromissos longos. Não porque o produtor “não sabe trabalhar”, pelo contrário: quase sempre é porque ele trabalha demais e mede de menos.
A arroba em alta não é a vilã. Na verdade, ela costuma fazer o que a rotina esconde: escancarar o que estava desorganizado. Em momento bom, o erro fica mais caro, o risco fica mais invisível e a conta chega com atraso, às vezes quando o mercado já virou e não dá mais tempo de corrigir com calma.
Este texto não critica o produtor, nem o mercado. É um convite à reflexão: por que alguns aproveitam os ciclos favoráveis para fortalecer a fazenda, enquanto outros apenas os atravessam e voltam ao sufoco na primeira virada? A diferença não está na arroba, nem na sorte, mas na capacidade de executar o essencial, com consistência, justamente quando tudo parece dar certo.
O tamanho da oportunidade (e da ilusão)
Para dimensionar o que está em jogo, basta olhar para o retrovisor. Uma análise dos últimos três ciclos pecuários completos no Brasil (período pós-2006) mostra que, na fase de alta, aquele momento de euforia, o preço da arroba chega a valorizar, em média, 105% entre o fundo do vale e o pico do mercado.
Isso significa que, durante os 3 ou 4 anos de subida, o rebanho valoriza “sozinho” a uma taxa equivalente a cerca de 20% ao ano. É um rendimento passivo sobre o capital biológico que supera a maioria das aplicações financeiras tradicionais. O perigo é que esse ganho não é perene. Historicamente, a fase de baixa seguinte devolve, em média, 25% desse preço nominal, corroendo violentamente a margem de quem usou a bonança para inflar custos fixos em vez de fazer caixa.
Faturamento não é lucro e o caixa não é sobra:
Quando o preço do boi sobe, a primeira coisa que aparece é o faturamento. A conta fecha maior, o giro aumenta e a sensação de alívio toma conta. É nesse ponto que mora uma das confusões mais comuns, e mais perigosas da pecuária: acreditar que faturamento alto significa margem.
Na prática, faturamento é apenas movimento. Ele mostra que dinheiro entrou, mas não diz quanto ficou, por que ficou ou se ficará. Em momentos de alta, os custos também sobem, o risco se espalha pela operação e decisões mal calculadas passam despercebidas porque o volume oculta os erros. A fazenda parece saudável, quando na verdade está apenas mais movimentada.
Outro engano frequente é confundir caixa com sobra. Ver dinheiro disponível na conta cria a sensação de conforto, mas sem saber o que aquele valor representa, lucro real, capital de giro, recurso comprometido ou antecipação de receita, qualquer decisão vira aposta. E aposta, mesmo quando dá certo, não é estratégia.
O problema não está em ganhar dinheiro. Está em não saber quando se está ganhando, quanto se está ganhando e o que fazer com isso, como “gastar”. Sem essa clareza, o produtor entra no ciclo bom sem mapa e sai dele sem entender por que, apesar da arroba alta, a fazenda continua vulnerável quando o mercado vira.
O “efeito euforia” – quando o momento bom vira o gestor da fazenda:
Quando não há clareza sobre lucro, margem e risco, alguém precisa assumir o comando das decisões. Em ciclos de alta, esse “alguém” quase nunca são os números. É a “euforia”. Ela entra de forma silenciosa, disfarçada de otimismo, e passa a conduzir escolhas que deveriam ser frias, técnicas e planejadas.
A euforia muda o critério. O que antes exigia conta passa a exigir apenas confiança. Compras são antecipadas, custos fixos aumentam, investimentos são decididos no calor do momento e compromissos de longo prazo são assumidos com base em um cenário que parece sólido, mas que ainda não foi medido. O raciocínio é simples: se está entrando mais dinheiro, dá para avançar mais. O problema é que o “mais” quase nunca vem acompanhado de controle.
Esse comportamento não nasce da irresponsabilidade, mas da falta de referência. Sem indicadores claros, sem histórico bem analisado e sem leitura de risco, o produtor passa a decidir pelo sentimento do mercado. O preço alto vira argumento. A boa fase vira justificativa. E a fazenda começa a ser gerida pelo momento, e não pela estratégia.
O perigo da euforia é que ela não erra sozinha. Ela erra em cadeia. Um aumento de custo aqui, um investimento mal dimensionado ali, um compromisso assumido cedo demais. Isoladamente, nada disso parece grave. Juntos, constroem uma estrutura frágil, dependente da continuidade do ciclo bom. Quando o mercado muda, e ele sempre muda, a euforia some, mas as decisões ficam.
O sistema também empurra para o erro:
Seria injusto, e pouco honesto, colocar toda a responsabilidade apenas no produtor. Em momentos de alta, o ambiente ao redor da fazenda muda rapidamente. O crédito fica mais acessível, as ofertas se multiplicam, o discurso se torna otimista e a mensagem é quase sempre a mesma: “Agora é a hora”. Poucos falam de risco. Quase ninguém fala de limite.
Fornecedores, instituições financeiras e até a própria narrativa do mercado reforçam a ideia de continuidade. Planos são apresentados como oportunidade, não como compromisso. Parcelas parecem leves diante do faturamento crescente. E a decisão que deveria passar por análise acaba sendo empurrada pelo contexto.
Nesse cenário, a gestão deixa de ser prioridade e passa a ser detalhe. O foco se desloca do controle para a expansão, do planejamento para a execução rápida, da análise para a confiança. Tudo parece funcionar enquanto o ciclo sustenta. O problema é que o sistema incentiva o avanço, mas não ajuda a frear quando é preciso, e “pisar no freio” também é decisão estratégica.
Reconhecer esse empurrão externo não é transferir culpa, é entender o ambiente. Porque justamente nos momentos em que tudo conspira para avançar é que a disciplina de gestão faz mais falta. Quem tem estrutura, atravessa. Quem não tem, sente o impacto quando o mercado desacelera e percebe que muitas decisões foram tomadas sem a sustentação necessária.
Maturidade de gestão para atravessar ciclos:
Em algum ponto da trajetória, a diferença entre atravessar um ciclo bom ou desperdiçá-lo deixa de ser preço, genética ou tecnologia. Ela passa a ser maturidade de gestão. Não aquela gestão sofisticada, cheia de relatórios complexos, mas a capacidade básica de separar sensação de realidade e decisão de impulso.
Produtores que conseguem aproveitar momentos de alta costumam ter algo em comum: eles usam o ciclo bom para organizar, não para acelerar sem critério. Medem antes de decidir, entendem o que é lucro e o que é apenas giro, sabem quanto podem comprometer e, principalmente, quanto não podem. Não são avessos a risco, mas sabem exatamente qual risco estão assumindo.
Essa maturidade aparece nas escolhas mais simples: saber quanto custa produzir, entender o impacto de cada decisão no caixa futuro, resistir à tentação de transformar um bom momento em aumento permanente de custo fixo. Ela não impede erros, mas impede que erros pequenos se tornem estruturais. E, na pecuária, erro estrutural quase sempre cobra caro quando o ciclo vira.
O ponto central é que momentos de alta exigem frieza. São eles que oferecem a oportunidade rara de corrigir falhas, formar reserva, ajustar processos e preparar a fazenda para o próximo movimento do mercado. Quem entende isso não depende do preço para sobreviver. Quem ignora, passa de um ciclo ao outro repetindo os mesmos padrões, esperando que o mercado resolva o que a gestão deixou em aberto.
Quando a alta vira oportunidade e não armadilha:
O problema não está no ciclo pecuário, mas o que se faz em relação a ele. Momentos de euforia não exigem decisões rápidas, exigem decisões conscientes. E a primeira delas não é expandir, investir ou assumir novos compromissos, é entender com precisão o que aquela alta representa dentro do sistema.
A solução começa quando o produtor separa preço de resultado. Quando reconhece que faturamento não é lucro e que o caixa cheio, muitas vezes, é apenas reflexo de giro elevado. É nesse ponto que a gestão deixa de ser discurso e passa a ser ferramenta.
Transformar a alta em solução significa usar o bom momento para estruturar, não para inflar custos. Significa fortalecer o sistema para quando o ciclo virar, porque ele sempre vira. Quem usa a alta para criar reservas, ajustar processos e reduzir fragilidades atravessa a baixa com menos ruído e mais controle.
A maturidade está em entender que ciclos favoráveis não existem para serem comemorados, mas para serem bem aproveitados. E aproveitar, na pecuária, quase nunca é gastar mais, é errar menos.
O preço passa, a gestão fica:
O mercado muda. A arroba sobe, desce, surpreende e frustra. O produtor não controla o preço, mas controla como sua fazenda reage a ele.
Toda alta passa. Toda euforia termina. O que permanece é a estrutura construída, ou a fragilidade deixada pelas decisões tomadas no auge do entusiasmo.
Quando a gestão assume o comando, o preço deixa de ser vilão ou salvador. Passa a ser apenas uma variável. Um dado de cenário, não o condutor das escolhas. É nesse ponto que a fazenda deixa de ser refém do mercado e passa a operar com lógica própria.
No fim, não é a arroba que define quem permanece no jogo. É a capacidade de atravessar ciclos sem se iludir nos bons momentos e sem se perder nos ruins.
O preço passa. A gestão fica. E é ela que decide quem sobrevive, quem cresce, e quem aprende da forma mais cara possível.
Sugestão de caixa
Dados dos Ciclos Pecuários (Base Nominal)
Considerando os 3 grandes ciclos completos mais recentes (intervalo de aprox. 18 anos), temos o seguinte comportamento médio: Fase do Ciclo Comportamento do Preço Duração Média Variação Média Total Rendimento Equivalente (% a.a.) Fase de Alta Do fundo do vale até o pico máximo ~3 a 4 anos +105% ~20% a.a. Fase de Baixa Do pico máximo até o novo fundo ~2 a 3 anos -25% -9% a.a.
Detalhamento dos Ciclos Utilizados (Referência):
- Ciclo 2006-2012:
- Alta (2006-2010): Saiu de ~R$ 55 para ~R$ 115 (+109%).
- Baixa (2011-2012): Recuou para a casa dos R$ 90 (-21%).
- Ciclo 2012-2017:
- Alta (2012-2015): Saiu de ~R$ 90 para ~R$ 155 (+72%).
- Baixa (2016-2017): Recuou para a casa dos R$ 125 (-19%).
- Ciclo 2017-2023 (Ciclo da China):
- Alta (2017-2021/22): Saiu de ~R$ 125 para picos de ~R$ 340 (+170%).
- Baixa (2022-2023): Recuou fortemente para ~R$ 220 (-35%).

Histórico de correção dos preços do boi e da inflação (IPCA) desde o início do plano real, os segmentos em vermelho apresentam todos os anos que o preço do boi perdeu para inflação e os segmentos em verde representam todos os anos que a correção do preço do boi foi acima da inflação.
Autores:
- Otacílio Jarcem Escobar Júnior – Médico Veterinário – Mestrando em Zootecnia no IF Goiano – Consultor Técnico na Trilha Pecuária Inteligente e Gestão.
- Tiago do Prado Paim – Médico Veterinário e Pesquisador no IF goiano.
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