Uma coalizão científica liderada pela USP e Embrapa descobriu que o uso da terra preta da Amazônia pode acelerar o desenvolvimento do Ipê-roxo em até 88%. O estudo revela que a “mágica” não está nos nutrientes, mas em uma rede invisível de microrganismos
A busca por soluções que unam produtividade e preservação ambiental encontrou um aliado poderoso em solos formados há milênios. Uma investigação conjunta entre o Cena-USP, a Embrapa Amazônia Ocidental e o Inpa demonstrou que a terra preta da Amazônia (TPA) atua como um “turbocompressor” biológico para espécies florestais nativas, reduzindo drasticamente o tempo de crescimento de mudas em áreas degradadas.
O poder biológico da terra preta da Amazônia
Diferente dos fertilizantes químicos tradicionais, a eficiência da terra preta da Amazônia reside na sua complexa “biota”. Segundo os dados publicados na revista científica BMC Ecology and Evolution, o Ipê-roxo (Handroanthus avellanedae) apresentou um salto de 55% em altura e 88% no diâmetro do tronco nos primeiros 180 dias de monitoramento.
Outra espécie beneficiada foi o paricá, que registrou incrementos de 20% na estatura e 15% na robustez do caule. O diferencial, de acordo com o pesquisador Anderson Santos de Freitas, não é apenas o aporte mineral. “O determinante não foi a quantidade de nutrientes em si, mas os microrganismos, que eram bem diferentes, especialmente os fungos”, explica Freitas. Esses seres microscópicos facilitam a absorção de nutrientes e protegem a planta contra doenças.
Ciência busca replicar a terra preta da Amazônia em laboratório
Coordenada pela professora Tsai Siu Mui, a pesquisa acumula mais de duas décadas de observações sobre esse solo antropogênico (criado por populações indígenas ancestrais). O foco agora é a mimetização tecnológica. Como a extração direta da terra preta da Amazônia é protegida por lei e terminantemente proibida, a ciência brasileira trabalha para isolar seus componentes ativos.
“O objetivo é recuperar a floresta e os serviços ecossistêmicos em áreas de pastagem mal manejadas”, afirma Tsai. O laboratório no Cena-USP já identificou cerca de 200 microrganismos isolados dessas terras, visando criar biofertilizantes que possam ser aplicados em escala industrial, sem interferir nos sítios arqueológicos originais.
Impactos no reflorestamento e economia sustentável
A aplicação prática desses resultados vai além da preservação. O uso de substratos inspirados na terra preta da Amazônia pode viabilizar a exploração sustentável de madeira e acelerar projetos de sequestro de carbono. Ao garantir que uma muda de Ipê ou Paricá se estabeleça com força total nos primeiros seis meses, as chances de sobrevivência da floresta em formação aumentam exponencialmente, transformando passivos ambientais em ativos biológicos produtivos.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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