Impulsionada pelo cooperativismo, pela inclusão de gênero e por investimentos em qualificação técnica, a caprinocultura leiteira na Bahia transforma a agricultura familiar em um mercado de alta gastronomia e projeta derivados finos para o cenário nacional
A consolidação da caprinocultura leiteira no Nordeste brasileiro deixou de ser uma alternativa de subsistência para se firmar como um dos mercados mais dinâmicos e sofisticados do agronegócio nacional. Impulsionada por investimentos em biotecnologia, manejo sustentável e qualificação técnica, a região semiárida da Bahia vem liderando o surgimento de agroindústrias artesanais focadas em queijos premiados.
Esse fenômeno de forte agregação de valor ganha rostos e histórias de grande impacto socioeconômico, mostrando que a transição de pequenos criatórios para marcas de projeção nacional está redefinindo o PIB do interior baiano.
A microrevolução de Guanambi e a rota dos queijos premiados
Em 2020, a zootecnista Jaine Santana encerrou seu ciclo profissional em uma propriedade rural em Guanambi, no sudoeste do estado. Diante da falta de registro formal e de liquidez financeira do antigo empregador, a profissional aceitou uma forma atípica de indenização trabalhista: uma única matriz caprina, batizada de Safira. O que parecia um ativo de liquidação difícil transformou-se no marco zero da JM Queijos Artesanais. Amparada por sua formação acadêmica pelo Instituto Federal Baiano (IF Baiano) e por consultorias estratégicas do Senar e do Sebrae, Jaine converteu a produção familiar em um laboratório de inovação láctea.

O refino nos processos de maturação e a simbiose com ingredientes nativos da Caatinga renderam à marca uma trajetória meteórica de honrarias. Após conquistar o título máximo de “Super Ouro” no Encontro Nordestino do Setor de Leite e Derivados (Enel) em 2023 com seu queijo coalho, a empresa reafirmou sua soberania no Concurso do Queijo Artesanal da Bahia. No certame, a grife faturou uma tríade de medalhas:
- Medalha de Ouro: com um iogurte enriquecido com polpa de tamarindo;
- Medalha de Prata: com o tradicional coalho caprino;
- Medalha de Bronze: com uma sofisticada versão trufada com doce de umbu.
Segundo avaliadores do setor, a pontuação rigorosa obtida por esses produtos valida o cumprimento estrito de protocolos internacionais de sanidade, rastreabilidade e análise sensorial.

Cooperativismo e a emancipação socioeconômica no norte baiano
Se o ecossistema de Guanambi destaca o vigor do empreendedorismo individual, o norte da Bahia consolida o poder da escala coletiva. A fusão estratégica de pequenos produtores de Jaguarari e Curaçá deu origem à cooperativa Capribéee. A iniciativa resolveu o principal gargalo da agricultura familiar da região: a regularidade no fornecimento da matéria-prima e o acesso a canais logísticos de distribuição comercial.
Comandada por Eugênia Ribeiro, a associação reúne 48 cooperados assalariados, promovendo uma expressiva inclusão de gênero ao concentrar sua força de trabalho em mulheres rurais. O impacto mercadológico foi chancelado no Prêmio Queijo Brasil, onde a Capribéee foi coroada como a melhor queijaria do estado. A cooperativa processa o leite local em um portfólio de 27 derivados finos — incluindo maturações consagradas como o tipo chevrotin, o lajinha e o meia cura —, transformando a atividade pastoril em uma barreira robusta contra o êxodo rural no semiárido brasileiro.

Selo Arte e a inteligência competitiva no mercado de queijos premiados
Especialistas em economia do agronegócio destacam que o dinamismo baiano está ancorado em uma base física altamente competitiva. De acordo com os dados consolidados da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), divulgada pelo IBGE, a Bahia detém a liderança absoluta no censo caprino do país, abrigando um rebanho expressivo de 4,2 milhões de animais. A densidade dessa cadeia concentra-se predominantemente em dez municípios do eixo norte.
Cidades com maior efetivo de caprinos na Bahia
| Posição | Município | Efetivo de Animais (Cabeças) |
| 1º | Casa Nova | 779.502 |
| 2º | Juazeiro | 437.370 |
| 3º | Curaçá | 349.238 |
| 4º | Pilão Arcado | 245.260 |
| 5º | Remanso | 210.306 |
| 6º | Uauá | 209.515 |
| 7º | Sento Sé | 175.722 |
| 8º | Macururé | 123.915 |
| 9º | Abaré | 121.913 |
| 10º | Chorrochó | 105.935 |
Para consultores de mercado, o desafio contemporâneo consiste em converter esse volume bruto em rentabilidade líquida por meio de instrumentos de diferenciação, como o Selo Arte. O consumidor contemporâneo de grandes centros urbanos demonstra alta disposição a pagar ágios por alimentos que carreguem história, sustentabilidade e terroir diferenciado.
“Não basta apenas produzir um queijo bom, é preciso ter escala de venda, acesso de mercado e, para isso, são necessários selos de inspeção, investimentos. É o cooperativismo que vai dar força para essa cadeia”, aponta Wagner Cezar, coordenador de projetos do Sebrae Bahia.
A cooperação mútua facilita investimentos em melhoria genética animal, manejo nutricional resiliente às estiagens — utilizando culturas adaptadas como a palma forrageira — e a adequação aos rigorosos marcos regulatórios da inspeção sanitária. Esse alinhamento técnico quebra antigas barreiras de mercado e consolida o Nordeste como um polo exportador de iguarias finas de alto padrão.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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