Diversificação, ativos ambientais, apicultura e turismo rural mostram que o potencial das terras brasileiras podem gerar renda além da pecuária e da lavoura, ampliando oportunidades de investimento e valorização no campo
Há algumas semanas, achei importante trazer para esta coluna algumas reflexões sobre eficiência operacional e como esse conceito, se explorado da forma correta, desmistifica a ideia de “terra ruim” ou improdutiva. Quando ilustramos isso com o exemplo da Austrália, que hoje figura entre os maiores exportadores de carne bovina do mundo, mesmo com baixa disponibilidade hídrica, clima adverso e solos considerados pobres, automaticamente escancaramos o potencial ainda pouco aproveitado pelo agro brasileiro. Afinal, por aqui, o cenário é inverso, com clima tropical favorável, solos férteis e abundância hídrica pouco comum em outras regiões do globo.
Outro aspecto, porém, merece ser lembrado. O Brasil se acostumou a olhar para o campo a partir de duas grandes lentes: pecuária e lavoura, que, sem dúvidas, são os motores históricos do nosso agronegócio e responsáveis por consolidar o país como protagonista global na produção de alimentos. Mas limitar nosso potencial a elas é um grande equívoco estratégico, pois nossas terras e clima têm capacidade para explorar, com alta produtividade, outras aptidões. E já existe uma boa oferta de propriedades para elas.
A apicultura é um exemplo claro. Em muitas regiões, especialmente onde a agricultura extensiva não é a atividade mais eficiente, a produção de mel e derivados pode gerar renda relevante com investimento relativamente baixo e impacto ambiental positivo. Um bônus, nesse caso, é que a presença das abelhas fortalece o ecossistema local e contribui para a produtividade de culturas vizinhas por meio da polinização. Temos, portanto, uma atividade que conversa diretamente com as demandas globais por rastreabilidade e produtos de origem sustentável.
Pelas propriedades atualmente anunciadas no Chãozão com estrutura para essa atividade, observamos uma predominância da região Sudeste, especialmente nos estados de Minas Gerais e São Paulo, que respondem, juntos, por mais da metade.
Há também um potencial imenso na destinação de áreas para reserva ambiental estruturada. Em um contexto de valorização de ativos ambientais, créditos de carbono e preservação de biomas, manter e gerir áreas de vegetação nativa não deve ser visto apenas como obrigação legal, mas como estratégia econômica. Terras com passivo ambiental regularizado e com excedente de preservação tendem a se valorizar, especialmente diante de investidores atentos às práticas ESG. Por aqui, o estado paulista também possui grande oferta de terras com essa capacidade, mas em regiões como o Centro-oeste o cenário também é bastante propício. Goiás aparece na segunda posição entre os estados com mais terras disponíveis para negócios que possuem aptidão para reserva ambiental, sendo responsável por abrigar 13% do total nacional.
O turismo rural e o lazer, também já abordados por aqui, são outras frentes que transformam o campo em experiência e atraem aqueles procuram “lifestyle”, especialmente em propriedades próximas a centros urbanos ou inseridas em paisagens naturais privilegiadas, capazes de desenvolver hospedagens, trilhas, pesca esportiva, gastronomia regional e atividades pedagógicas. O produtor passa a comercializar, também, vivências. Isso muda completamente a lógica de geração de valor da terra.
Uma fazenda pode ter pecuária, uma área de reserva bem manejada, um projeto de apicultura e, ainda, explorar turismo de fim de semana. A diversificação reduz vulnerabilidades climáticas e de mercado, além de ampliar as possibilidades de sucessão familiar, atraindo uma nova geração mais conectada à inovação.
Para que esse movimento ganhe escala, é fundamental ampliar o acesso à informação qualificada, crédito direcionado e assistência técnica específica para essas atividades. O produtor brasileiro é, por natureza, resiliente e empreendedor. Quando enxerga oportunidade concreta e viabilidade econômica, ele responde com eficiência.
O Brasil já mostrou ao mundo sua capacidade de produção agropecuária. Agora, temos a oportunidade de liderar também na inteligência de uso da terra. Explorar aptidões menos óbvias não significa abandonar nossas nossa força histórica, mas potencializá-la dentro de uma visão mais ampla, moderna e estratégica. A terra continua sendo o ativo mais sólido do agronegócio. A diferença, daqui para frente, estará na forma como escolhemos utilizá-la.
*Por Geórgia Oliveira, CEO do Chãozão
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