O pecuarista que transformou o deserto australiano usando burros selvagens

Em uma região remota da Austrália, um pecuarista trava uma uma batalha judicial ao usar burros considerados praga para regenerar o solo, recuperar cursos d’água e reduzir o risco de incêndios florestais.

Em uma das regiões mais isoladas do norte da Austrália, um experimento ambiental fora dos padrões tradicionais colocou um pecuarista no centro de um dos debates mais sensíveis da gestão territorial contemporânea: até que ponto espécies consideradas pragas podem ser usadas como aliadas na regeneração de ecossistemas degradados. Na Fazenda Kachana, localizada na remota região de Kimberley, o manejo intencional de burros selvagens transformou uma paisagem marcada pela desertificação em áreas com solo fértil, cobertura vegetal densa e cursos d’água permanentes — ao mesmo tempo em que levou o responsável pelo projeto a enfrentar processos administrativos e ordens oficiais de abate.

A Fazenda Kachana ocupa cerca de 77.500 hectares e está situada aproximadamente 120 quilômetros a sudoeste de Kununurra, próxima à fronteira com o Território do Norte. O isolamento é absoluto: não há estradas de acesso, e o deslocamento tradicionalmente depende de aeronaves leves ou longas travessias por áreas inóspitas. O próprio nome Kachana, de origem africana, significa “longe” — uma descrição precisa do contexto geográfico e logístico da propriedade.

Apesar da grande extensão territorial, a fazenda abriga apenas algumas centenas de cabeças de gado, operando longe dos modelos intensivos típicos de outras regiões produtoras. Desde o final da década de 1980, o local tornou-se laboratório vivo de uma abordagem não convencional de manejo da paisagem.

A ocupação da área começou com a expectativa de desenvolver uma atividade pecuária tradicional, complementada por iniciativas ligadas ao turismo. No entanto, ao longo de anos de sobrevoos frequentes para missões de abastecimento, tornou-se evidente que a paisagem de Kimberley enfrentava um processo acelerado de desertificação, caracterizado por solo exposto, erosão profunda e perda contínua de biodiversidade.

Um local de acampamento temporário de mais de 30 anos atrás agora é o lar da família Henggeler. Foto: Chris Henggeler

A hipótese inicial apontava para o excesso de gado como principal causa do problema. A resposta foi a redução do rebanho. O efeito, porém, foi o oposto do esperado: a degradação se intensificou, revelando que a ausência de pressão controlada sobre o solo e a vegetação agravava o colapso ecológico.

A virada conceitual ocorreu com a adoção de princípios da gestão holística do pastoreio, uma abordagem desenvolvida pelo ecologista zimbabuano Allan Savory. Embora controversa e ainda alvo de resistência em parte da comunidade científica, essa metodologia parte do pressuposto de que animais bem manejados podem atuar como agentes regeneradores, promovendo ciclagem de nutrientes, incorporação de matéria orgânica e reidratação do solo.

Na prática, o gado passou a ser tratado como parte ativa do processo ecológico. Seu pisoteio controlado ajudou a quebrar a crosta superficial do solo, favorecer a infiltração de água e estimular o crescimento de gramíneas. Ainda assim, vastas áreas da fazenda — especialmente encostas rochosas, planaltos e regiões dominadas por espinifex — permaneciam fora do alcance dos bovinos.

Foi nesse contexto que os burros selvagens assumiram um papel central. Introduzidos originalmente na Austrália durante a Corrida do Ouro como animais de carga, eles se tornaram, ao longo das décadas, uma das espécies invasoras mais combatidas do país. Somente em Kimberley, cerca de 570 mil burros foram abatidos nos últimos 40 anos, classificados como praga por causarem erosão, compactação do solo e danos à vegetação nativa.

Os burros selvagens de Chris estão confinados a áreas selecionadas da Estação Kachana. Foto: Estação Kachana

Em Kachana, no entanto, esses animais passaram a ser manejados de forma controlada, com população estimada entre 110 e 250 indivíduos, confinados a uma área de aproximadamente 20 quilômetros quadrados. Diferentemente do gado, os burros acessam regiões íngremes e áreas de vegetação altamente inflamável, atuando onde outras espécies domésticas não conseguem chegar.

Os efeitos observados incluem redução da biomassa seca, aumento da umidade do solo, regeneração de gramíneas e a formação de depressões naturais no terreno — conhecidas como “banhos de burros” — que acumulam água durante o período chuvoso e funcionam como barreiras naturais à propagação do fogo.

O risco de incêndios florestais é uma das maiores ameaças ambientais do norte australiano. Tradicionalmente, a principal ferramenta de gestão é o uso de queimadas controladas, prática que divide comunidades e especialistas. Embora eficaz na redução de material combustível, o fogo frequente interrompe processos de regeneração e limita a recuperação da produtividade do solo.

Pesquisas conduzidas por estudiosos da Universidade de Tecnologia de Queensland indicam que os burros podem exercer um papel complementar ou alternativo ao fogo, ao consumirem vegetação altamente inflamável em locais inacessíveis ao gado e ao criarem microambientes mais úmidos, menos propensos à ignição.

Os resultados obtidos em Kachana renderam reconhecimento técnico regional, incluindo a nomeação do projeto como referência em conservação do solo em Kimberley. No entanto, o sucesso ecológico não foi suficiente para evitar o conflito com os órgãos reguladores.

Chris Henggeler afirma que os burros melhoraram muito o ambiente na fazenda. Foto: Fazenda Kachana

Em 2021, após uma inspeção aérea de helicóptero, o Departamento de Indústrias Primárias e Desenvolvimento Regional da Austrália Ocidental emitiu uma ordem formal de controle de pragas, exigindo o abate dos burros selvagens presentes na fazenda. A justificativa baseia-se na legislação estadual, que classifica os animais como pragas agrícolas devido aos riscos ambientais que representam fora de sistemas estritamente controlados.

Após quatro anos de disputas administrativas, o caso foi analisado pelo Tribunal Administrativo do Estado da Austrália Ocidental, que decidiu manter a notificação de controle. Pela decisão, a Fazenda Kachana deverá abater pelo menos 70 burros até 31 de agosto do próximo ano, com o restante — totalizando 117 animais — até 31 de agosto de 2027.

Caso não haja acordo com os reguladores até julho de 2026, o abate deverá ser realizado por meio da Associação de Biossegurança das Pastagens de Kimberley (KRBA), e não diretamente pelo responsável pelo projeto.

O caso de Kachana expõe um dilema cada vez mais presente na gestão ambiental global: como conciliar marcos legais rígidos com experiências práticas que desafiam paradigmas tradicionais de conservação. De um lado, autoridades alertam para o risco de expansão descontrolada de espécies invasoras. Do outro, evidências de campo apontam que, sob manejo rigoroso, esses mesmos animais podem contribuir para a recuperação de áreas severamente degradadas e para a redução do risco de incêndios catastróficos.

Mais do que uma disputa local, a experiência da Fazenda Kachana coloca em pauta a necessidade de novos modelos de avaliação ambiental, capazes de considerar resultados sistêmicos, contextuais e de longo prazo — especialmente em regiões onde o avanço da desertificação e dos incêndios florestais ameaça não apenas a produção agropecuária, mas a própria resiliência dos ecossistemas.

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