A era do “olhômetro” chegou ao fim. Descubra como a pesagem remota de gado está expondo a ineficiência biológica de animais que consomem lucro e ocupam espaço, transformando a gestão da fazenda em uma operação de alta performance baseada em dados reais
O lucro da pecuária de corte moderna não escorre apenas pelo preço da arroba, mas pelo ralo da ineficiência biológica. No centro desse gargalo está o “boi ladrão” — aquele animal que consome suplemento no cocho e ocupa espaço no pasto, mas entrega um Ganho Médio Diário (GMD) abaixo do custo de manutenção.
Até pouco tempo, identificar esses indivíduos era um desafio logístico. No entanto, a ascensão da pesagem remota está aposentando o “olhômetro” e instaurando uma era de descarte estratégico baseado em métricas de precisão.
A Pesagem Remota Tropicalizada da Embrapa
A grande revolução para o produtor brasileiro tem DNA nacional. A Embrapa Gado de Corte (MS), sob a liderança de pesquisadores como Mariana de Aragão Pereira e Alberto Bernardi, desenvolveu a “Balança de Passagem”. Diferente dos sistemas que exigem contenção, esta tecnologia utiliza energia solar para monitorar o rebanho em seu habitat natural.
Ao passar pelo equipamento — geralmente posicionado em corredores de acesso à água — o animal é identificado individualmente via brinco eletrônico (chip). A pesagem remota ocorre de forma automática, enviando os dados para a nuvem sem que um único funcionário precise manejar o gado. Segundo a Revista Pesquisa Fapesp, essa abordagem de “Pecuária 4.0” elimina o estresse do curral, que historicamente causa perdas de peso significativas e compromete a qualidade da carcaça.
O Check-up Diário do Rebanho
A matemática da rentabilidade, defendida por empresas líderes como Coimma, Intergado e Ponta Agro, é clara: o monitoramento contínuo permite calcular o “lucro cessante”. Quando um lote é pesado apenas no início e no fim do ciclo, o produtor carrega animais improdutivos por meses sem saber.
Com a pesagem remota, o descarte estratégico torna-se cirúrgico. Se um animal apresenta estagnação de peso por três ou quatro dias consecutivos, o sistema dispara um alerta. Isso permite uma intervenção imediata — seja para tratar uma enfermidade subclínica ou para remover o animal do lote de elite, otimizando a oferta de pasto para quem realmente converte.
O Contraste entre a Pesagem Remota na Austrália e no Brasil
Embora a tecnologia de Walk-over-Weighing (WoW) seja um padrão global, os objetivos variam conforme a geografia. Na Austrália, o CSIRO utiliza sistemas como o DataMuster com foco em economia de mão de obra em propriedades colossais e desérticas, onde o manejo humano é inviável.
Já no Brasil, o foco da pesagem remota é a eficiência por hectare. Em terras de alto valor, cada metro quadrado de pasto é um ativo valioso. As pesquisas da University of Nebraska-Lincoln (EUA) e os manuais técnicos da Gallagher (Nova Zelândia) corroboram que a integração da identificação eletrônica (EID) com a pesagem automática é o único caminho para reduzir o desperdício de suplementação e maximizar a eficiência biológica individual.
Além do Peso, a Inteligência de Dados
O futuro da engorda não admite mais a média do lote como indicador de sucesso. Publicações no Journal of Animal Science demonstram que a variabilidade individual dentro de um mesmo lote pode chegar a 40%. Sem a pesagem remota, o produtor subsidia o animal ineficiente com o lucro do animal produtivo.
A adoção dessas plataformas digitais transforma o pecuarista em um gestor de ativos. O fim do “boi ladrão” não é apenas uma meta operacional; é o marco zero para uma pecuária sustentável, onde cada arroba produzida é fruto de uma decisão baseada em dados, e não em suposições.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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