Originário da Mongólia Interior, o Sanhe combina genética internacional, rusticidade mongol e adaptação extrema ao frio, sendo usado tanto para montaria quanto para tração.
Menos 40°C. Neve no chão. Vento cortante. Em um cenário onde muitos animais precisam de abrigo constante, alimentação reforçada e cuidados extras para atravessar o inverno, existe um cavalo que segue em frente como se o frio fosse apenas parte da rotina: o cavalo Sanhe, considerado uma das três raças de cavalos mais famosas da China.
A imagem é impressionante e ajuda a explicar por que o Sanhe ganhou notoriedade: ele continua correndo, trabalhando e se deslocando mesmo em condições extremas, sem depender de “casacos”, mantas ou estruturas sofisticadas para sobreviver. Sua história, porém, vai além do impacto visual. O Sanhe é resultado de um projeto planejado de melhoramento genético, que uniu o melhor da rusticidade asiática com raças selecionadas do Ocidente, formando um cavalo reconhecido por uma combinação rara de atributos.
O cavalo Sanhe é originário da região de Sanhe, em Hulunbuir, localizada no norte da China, dentro da Região Autônoma da Mongólia Interior. E não é qualquer lugar: a área é marcada por invernos extremamente rigorosos, além de um território de campos abertos, conhecido por possuir algumas das melhores pastagens do país.
O nome Sanhe tem significado direto e geográfico: em chinês, quer dizer “três rios”, uma referência à bacia hidrográfica que forma a região. Em outras palavras: é uma raça que carrega o território até no nome.
Esse detalhe ajuda a compreender por que o Sanhe é tão associado ao frio: não se trata de um cavalo que “aguenta o inverno por acaso”, mas sim de um animal moldado em uma área onde a natureza exige resistência como regra.

O prestígio da região não começou no século XX. Há registros históricos que indicam que por volta do ano 1000 d.C., durante a dinastia Liao, a área já era reconhecida pela qualidade de seus cavalos.
Naquele período, alguns animais eram tão valorizados que acabavam enviados aos imperadores, oferecidos por tribos nômades como forma de tributo ou reconhecimento. Isso mostra que o território de Hulunbuir e Sanhe já carregava, desde muito cedo, uma tradição de seleção natural e humana voltada para desempenho e robustez.
Séculos depois, já durante a dinastia Qing, a região viu surgir a chamada raça Soulun, criada localmente. Esses cavalos ficaram conhecidos por boa aparência e desempenho sob sela, sendo utilizados como cavalos de cavalaria — inclusive em combates e operações militares contra invasores.
Ou seja: antes mesmo do Sanhe existir, já havia ali um histórico sólido de cavalos valorizados por função e eficiência, não apenas por estética.
Apesar do contexto histórico ancestral, o Sanhe moderno começou a ser construído como raça no século XX, a partir de diferentes etapas de cruzamentos e introduções de genética estrangeira.
Essa formação foi acontecendo ao longo de décadas, com marcos importantes:
- 1904–1905: cavalos russos da raça Zabaikal foram levados para a região através do rio Baikal e cruzados com animais locais;
- 1917: colonos russos introduziram raças como Orlov e Bechuk;
- 1934–1945: um haras foi estabelecido por japoneses e registrou a presença de raças como Anglo-Árabe, Árabe, Puro-Sangue Inglês, Trotadores Americanos e Chitran;
- 1955: o Ministério da Agricultura da República Popular da China realizou uma avaliação dos mestiços locais e criou dois haras com o objetivo de consolidar a nova raça oficialmente com o nome Sanhe.

O resultado final desse processo foi um cavalo que reúne rusticidade, capacidade atlética e adaptação climática, sustentando um padrão de desempenho mesmo em ambientes extremos.
O Sanhe, portanto, não é “apenas um cavalo resistente ao frio”: ele é um produto de cruzamento direcionado, com base em performance e sobrevivência.
Atualmente, o Sanhe é encontrado principalmente no nordeste da Região Autônoma da Mongólia Interior, sendo utilizado para funções práticas, especialmente:
- montaria
- tração
- trabalho de arreio
- corridas
- atividades sob sela
Essa versatilidade é um dos pontos que sustentam o prestígio da raça: ela não é restrita a uma única finalidade, funcionando tanto como cavalo de serviço quanto como cavalo de desempenho.
Na prática, trata-se de um animal que combina força e obediência para o trabalho, mas também resistência e fôlego para longas distâncias e esforço contínuo.
Fisicamente, o cavalo Sanhe se destaca por ser compacto e musculoso, com um tipo corporal moldado para força, equilíbrio e resistência.
Entre as principais características descritas para a raça estão:
- corpo bem estruturado e robusto
- ombros inclinados, favorecendo movimentação e tração
- articulações fortes
- musculatura desenvolvida
- cascos resistentes, fundamentais para condições de solo duro, gelo e neve

Quanto às pelagens, o padrão mais comum inclui tons como:
- castanho
- baio
Outras cores são relatadas como raras, o que reforça um padrão de seleção mais voltado ao desempenho do que à diversidade estética.
Se existe um ponto que coloca a raça em destaque internacional, é este: o Sanhe é adaptado para sobreviver e prosperar a temperaturas de até -40°C.
Não é apenas “suportar” no sentido de resistir passivamente. O que chama atenção é que, mesmo sob frio severo, o cavalo:
- continua se movimentando
- segue trabalhando
- mantém capacidade de corrida
- vive em campo aberto, em ambientes cobertos de neve
Essa característica faz do Sanhe uma referência quando o assunto é adaptação a clima hostil.
A raça apresenta um conjunto de fatores que explicam por que consegue enfrentar a estação mais difícil do ano:
1) Pelagem extremamente espessa
No inverno, o Sanhe desenvolve uma camada de pelo muito grossa, um mecanismo natural de isolamento térmico. Essa pelagem é trocada mais tarde, no final da primavera, quando as temperaturas voltam a subir.
2) Eficiência metabólica para “comer pouco e manter energia”
O Sanhe possui características que ajudam a lidar com dietas de menor energia e baixo teor de carboidratos em regiões frias, onde o alimento disponível pode ser limitado e menos nutritivo em certas épocas do ano.
3) Rusticidade comportamental e resistência no trabalho
Um dos aspectos mais impressionantes da raça é a capacidade de seguir em atividade sem cuidados especiais, muitas vezes sem proteção adicional como cobertores, mesmo em temperaturas extremas.
4) Cascos fortes para neve e pastagens difíceis
Os cascos do Sanhe são descritos como robustos e adaptados para caminhar e buscar alimento em terrenos congelados, com neve e variação de umidade.

Mesmo sendo uma raça altamente resistente, isso não significa ausência total de manejo. Em períodos severos, a condução ideal envolve:
- garantir acesso às pastagens disponíveis
- monitorar mudanças bruscas no clima
- acompanhar condições extremas que possam elevar o risco de estresse térmico e perda de condição corporal
Ainda assim, o que diferencia o Sanhe é que ele apresenta uma autonomia e adaptação muito acima do comum, tornando-se um cavalo símbolo de resistência no norte da China.
O que torna o cavalo Sanhe tão especial é a soma de fatores: ele nasceu em uma região com tradição secular em cavalos, foi desenvolvido com cruzamentos planejados e, ao mesmo tempo, preserva a base rústica do cavalo mongol local.
Velocidade, resistência, força e tolerância ao frio — é difícil encontrar todas essas características juntas em uma única raça de forma tão marcante.
Em um mundo em que boa parte da equinocultura moderna busca desempenho com suporte intensivo (infraestrutura, suplementação, abrigo e cuidados constantes), o Sanhe mostra um caminho diferente: a força da adaptação natural aliada à seleção estratégica.
E talvez seja exatamente isso que explica por que, mesmo a -40°C, ele não para.
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