Por décadas, o consumidor acreditou que os grãos de excelência deixavam o país enquanto o mercado interno ficava com os resíduos; especialistas e novos dados de consumo explicam por que essa ideia ficou no passado
O Brasil exporta o melhor e guarda o pior? A verdade sobre o nosso café do dia a dia é uma pergunta que atravessa gerações de consumidores. Por décadas, consolidou-se no imaginário popular a ideia de que o grão tipo “exportação” atravessava o Atlântico, enquanto as impurezas e os grãos defeituosos permaneciam nas prateleiras dos supermercados nacionais.
No entanto, o cenário da cafeicultura brasileira em 2026 revela uma realidade muito mais sofisticada, onde o mercado interno tornou-se tão exigente quanto o internacional.
O estigma dos anos 80: De onde vem a má fama?
Para entender por que muitos ainda acreditam que o Brasil exporta o melhor e guarda o pior, é preciso olhar para a década de 1980. Naquele período, o setor era regido pelo extinto Instituto Brasileiro do Café (IBC), e a prioridade era o controle inflacionário por meio do tabelamento de preços.
“Isso desestimulava a busca por qualidade. Independentemente do que havia no pacote, o preço final era o mesmo”, recorda Sérgio Parreiras, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). A combinação de preços fixos e fiscalização ineficiente criou o cenário perfeito para fraudes. Em 1989, uma pesquisa da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic) revelou que 30% do volume comercializado continha misturas como cevada, milho e cascas. O consumidor brasileiro, de fato, bebia um produto inferior.
A revolução do Selo de Pureza e o efeito Tarcísio Meira
A virada começou em 1989 com a extinção do IBC e a auto-regulamentação do setor pela Abic. O lançamento do Selo de Pureza foi um marco histórico. A estratégia de comunicação foi agressiva: o ator Tarcísio Meira, no auge de sua popularidade, protagonizou campanhas em horário nobre garantindo que “por trás desse selo, só tem café”.
Essa iniciativa forçou as indústrias a uma escolha: ou se adequavam ao padrão de 100% grão puro, ou seriam denunciadas ao Ministério Público. O resultado foi a recuperação do consumo per capita, que havia caído de 4,8 kg em 1965 para apenas 2,27 kg em 1989. Hoje, o índice de pureza no mercado formal beira os 100%.

Segmentação de mercado: O café especial fica no Brasil?
A questão central sobre se o Brasil exporta o melhor e guarda o pior mudou de foco. Hoje, não se discute mais “pureza”, mas sim “qualidade sensorial”. O país viu o surgimento da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) em 1991, focada em grãos com notas acima de 80 pontos na escala internacional.
Historicamente, o café especial era quase todo exportado devido ao poder de compra de mercados como Europa, Japão e EUA. Contudo, Vinicius Estrela, diretor-executivo da BSCA, aponta um crescimento exponencial no consumo doméstico:
- 2015: Apenas 1% da produção de cafés especiais ficava no Brasil.
- Hoje: Aproximadamente 15% dos melhores grãos produzidos são consumidos por brasileiros.
Isso significa que o “melhor” café do mundo está disponível em cafeterias e supermercados premium de São Paulo a Porto Alegre, desmistificando a ideia de que o grão de excelência é um privilégio exclusivo do estrangeiro.
Novas regras: O combate ao “café fake”
A fiscalização subiu de patamar em 2023 com a entrada em vigor da Portaria 570 do Ministério da Agricultura. A norma estabeleceu um padrão de identidade e qualidade para o café torrado, proibindo mais de 1% de impurezas (galhos e cascas) e tolerância zero para matérias estranhas (pedras, areia ou sementes de outras espécies).
O controle atual é rigoroso e envolve quatro frentes:
- Microscopia: Detecta se há algo além de café.
- Análise Sensorial: Especialistas provam o café “às cegas” para classificar entre Tradicional, Extraforte, Superior ou Gourmet.
- Auditoria de Boas Práticas: Inspeções diretas nas fábricas.
- Monitoramento de Gôndola: Coletas surpresas no varejo para garantir que o produto vendido é o mesmo certificado.
O paladar do brasileiro evoluiu
Embora o Brasil ainda exporte volumes massivos para atender à demanda global, o mercado interno não é mais o “depósito de rejeitos” do passado. A frase “O Brasil exporta o melhor e guarda o pior” tornou-se um anacronismo. Com a fiscalização da Abic e as novas diretrizes do Governo Federal, o consumidor nacional tem hoje acesso a cafés que variam do honesto “extraforte” matinal aos grãos premiados que vencem concursos internacionais. O segredo, agora, está no rótulo e na busca pelos selos de certificação.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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