Inseto tóxico presente em quase todo o Brasil, conhecido como besouro “arrebenta-boi”, pode provocar hemorragias internas em animais e queimaduras em humanos; especialistas recomendam cautela no manejo.
O reaparecimento de um inseto pouco conhecido, mas potencialmente perigoso, tem chamado a atenção de produtores rurais em diferentes regiões do país. O besouro Cissites maculata, popularmente chamado de “arrebenta-boi”, voltou a ser observado em áreas de pastagem e levanta preocupações relacionadas à intoxicação animal, especialmente em sistemas onde o gado permanece em pastejo contínuo.
Embora pequeno — medindo cerca de três a quatro centímetros — o inseto carrega uma toxina capaz de provocar danos severos se ingerida. Sua aparência vibrante, marcada pela coloração alaranjada com manchas escuras, não é um acaso da natureza, mas um mecanismo de defesa que funciona como sinal de perigo para predadores.
Segundo o mestre em zoologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), João Paulo Nunes, cores intensas costumam indicar que o animal pode ser venenoso ou produzir substâncias irritantes. “Ele tem uma cor muito chamativa: é laranja com umas pintas pretas, uma cor bem vibrante. Geralmente, quando o inseto tem essa coloração, isso é um alerta, um sinal de que ele está dizendo: ‘ó, fica longe de mim, porque, se você chegar perto, vai ter consequências’”, explica.
A toxina por trás do nome alarmante, o besouro “arrebenta-boi”
O apelido “arrebenta-boi” está diretamente ligado à presença da cantaridina, uma substância altamente irritante liberada quando o besouro é pressionado ou se sente ameaçado. O contato pode causar queimaduras na pele humana, enquanto a ingestão acidental representa um risco ainda maior.
Especialistas alertam que, se consumida, a toxina pode provocar hemorragias internas graves e até levar animais à morte.
Apesar do potencial perigo, surtos não são comuns. Isso ocorre porque o inseto não costuma aparecer em grandes concentrações, o que reduz a probabilidade de intoxicações coletivas no rebanho. Ainda assim, basta um episódio isolado para gerar prejuízos — principalmente quando o produtor não reconhece o risco.
Do cleptoparasitismo ao pasto: um ciclo curioso
O comportamento do arrebenta-boi muda completamente ao longo da vida. Na fase larval, ele adota o chamado cleptoparasitismo, estratégia na qual rouba alimento de outros organismos para sobreviver.
As fêmeas depositam ovos próximos aos ninhos de abelhas solitárias, como as mamangavas. Após a eclosão, as larvas se agarram ao corpo das abelhas para acessar o ninho e consumir o alimento reservado às crias — que acabam morrendo por falta de recursos.

Há relatos de fêmeas capazes de colocar mais de 20 mil ovos, aumentando o potencial de dispersão da espécie.
Na fase adulta, o inseto passa a viver associado à vegetação, alimentando-se de flores, pólen e partes vegetais — momento em que pode ser ingerido acidentalmente por bovinos durante o pastejo.
Besouro “arrebenta-boi”: Presença ampla e silenciosa no território
O besouro “arrebenta-boi” possui distribuição extensa, com registros em praticamente todo o Brasil — exceção feita a Roraima — além de ocorrências em outras áreas da América do Sul e até no sul do México.
Sua presença acompanha a das abelhas utilizadas no ciclo reprodutivo, o que significa que o inseto pode surgir tanto em áreas agrícolas quanto em vegetações próximas às propriedades rurais. Muitas vezes, o produtor só percebe o animal quando o encontro acontece por acaso.
Manejo correto é a principal forma de prevenção
A orientação técnica é clara: evitar contato direto com o besouro. Caso seja encontrado em currais, residências ou áreas de circulação, o ideal é removê-lo com recipientes, pinças ou luvas resistentes e soltá-lo em uma área de vegetação.
Eliminar o inseto não é recomendado. Apesar do risco de acidentes, ele exerce função ecológica relevante, contribuindo para o equilíbrio da cadeia alimentar ao controlar populações de outros organismos.
Atenção redobrada no campo
O retorno do besouro “arrebenta-boi” reforça uma máxima conhecida na pecuária moderna: ameaças nem sempre vêm em grande escala — às vezes, são discretas e silenciosas.
Insetos raramente entram no radar do produtor, mas podem representar riscos estratégicos quando associados à toxicidade. Por isso, observar, identificar e agir com cautela continua sendo a melhor defesa para evitar perdas e manter a segurança do rebanho.
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