Norte de Minas entra no mapa do cacau e produz seu primeiro chocolate; região mira 15 mil hectares

Pesquisa da Unimontes transforma cacau cultivado no semiárido em chocolate e impulsiona nova fronteira agrícola, com apoio do Agro+Verde e expectativa de formar uma cadeia produtiva forte na região.

O Norte de Minas Gerais começa a se consolidar como uma nova fronteira agrícola para o cultivo de cacau no Brasil. Um marco importante dessa transformação foi alcançado com a produção do primeiro chocolate feito exclusivamente com amêndoas cultivadas na região, resultado de pesquisas desenvolvidas na Fazenda Experimental da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), no município de Janaúba.

O avanço representa o desdobramento de mais de uma década de estudos científicos voltados à adaptação do cacau ao clima semiárido, demonstrando que a cultura pode se desenvolver com boa produtividade e qualidade mesmo fora das regiões tradicionalmente produtoras do país.

A iniciativa utiliza o mesmo genótipo de planta já presente nas lavouras de produtores locais, que recebem assistência técnica e incentivo por meio do Programa Agro+Verde Cacau, conduzido pelo Sistema Faemg Senar em parceria com a empresa Cargill.

Os experimentos realizados pela equipe da Unimontes comprovaram que o cacau apresenta boa adaptação às condições climáticas do Norte de Minas, incluindo períodos de déficit hídrico característicos do semiárido.

O primeiro chocolate experimental foi produzido a partir de amêndoas cultivadas na própria fazenda experimental da universidade, utilizando o clone CCN 51, variedade conhecida por sua resistência e produtividade.

Os testes iniciais indicaram resultados positivos quanto à qualidade do produto final, abrindo caminho para a continuidade das pesquisas e para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva regional.

As análises estão sendo realizadas no Laboratório de Tecnologia de Produtos de Origem Vegetal (TPOV), estrutura dedicada ao processamento, avaliação e desenvolvimento de produtos derivados de matérias-primas agrícolas.

Com o primeiro protótipo de chocolate produzido, os pesquisadores iniciaram uma nova fase do projeto, que envolve testes mais aprofundados para avaliar a qualidade do cacau cultivado na região.

Entre as próximas etapas estão:

  • testes com amêndoas produzidas por agricultores de Janaúba e Jaíba
  • análises físico-químicas do cacau
  • avaliações sensoriais com consumidores
  • desenvolvimento de novas formulações de chocolate
  • estudos para produção de chocolate ao leite

Essas avaliações irão medir características importantes do produto, como:

  • teor de gordura
  • compostos fenólicos
  • aroma e sabor
  • textura
  • potencial antioxidante

Esses fatores são fundamentais para determinar a qualidade tecnológica do chocolate e sua aceitação pelo consumidor.

O avanço do cultivo de cacau no Norte de Minas está diretamente ligado ao Projeto Agro+Verde, iniciativa que busca estruturar uma nova cadeia produtiva na região.

O programa é resultado de uma parceria entre Sistema Faemg Senar, Cargill e o Instituto Antônio Ernesto de Salvo (Inaes) e atua em diferentes frentes para incentivar a produção.

Entre as ações do projeto estão:

  • fornecimento de mudas certificadas
  • incentivo financeiro aos produtores
  • assistência técnica especializada
  • capacitação e treinamentos para agricultores

O programa prevê ainda um modelo de financiamento produtivo, no qual o produtor recebe até R$ 9.500 em mudas por hectare e devolve parte do investimento na forma de produção futura.

Nesse sistema, o agricultor se compromete a entregar R$ 7 mil em amêndoas de cacau em até cinco anos, contribuindo para a sustentabilidade do projeto.

As mudas utilizadas no programa são produzidas em viveiros certificados de Ilhéus e Eunápolis, na Bahia, garantindo qualidade genética e fitossanitária.

A expectativa é que o Norte de Minas se transforme em um novo polo produtor de cacau no país, com expansão gradual das áreas cultivadas.

O planejamento regional prevê:

Área plantada:
A meta é alcançar 15 mil hectares de cacau cultivados.

Produtividade:
Estimativa de duas toneladas de amêndoas por hectare ao ano.

Implantação gradual:
Nos primeiros dois anos, o cacau é plantado em consórcio com banana, aproveitando a sombra natural e a estrutura já existente nas propriedades.

A substituição das áreas ocorre de forma progressiva entre três e quatro anos, quando o cacau passa a ocupar definitivamente o espaço produtivo.

A meta inicial do Agro+Verde é fornecer mudas suficientes para o plantio de aproximadamente 2.900 hectares de cacau.

A introdução do cacau no Norte de Minas também surge como uma estratégia para reduzir riscos produtivos na fruticultura regional.

A região já enfrentou crises importantes no passado, como o impacto do Mal do Panamá, doença causada por fungos que devastaram plantações de banana em diversas áreas.

Com a diversificação das culturas, o cacau passa a atuar como uma alternativa econômica capaz de reduzir a dependência de uma única atividade agrícola, fortalecendo a segurança produtiva dos agricultores.

Além da produção de amêndoas, as pesquisas indicam potencial para o desenvolvimento de chocolates com identidade territorial, seguindo o modelo conhecido como “bean to bar”, no qual todo o processo — do cultivo ao chocolate final — é rastreado e valorizado.

Esse tipo de produto possui alto valor agregado no mercado nacional e internacional, especialmente quando associado à origem, sustentabilidade e qualidade do cacau.

Com a combinação de pesquisa científica, tecnologia agrícola, assistência técnica e organização da cadeia produtiva, o Norte de Minas começa a se posicionar como uma nova região promissora para o cultivo de cacau no Brasil, ampliando as oportunidades de geração de renda e desenvolvimento rural no semiárido.

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