As clostridioses estão entre as principais causas de morte de bovinos, e a vacinação é fundamental para reduzir essas perdas.
Segundo dados do Confina Brasil 2025, as clostridioses estão entre as quatro morbidades mais citadas que acontecem em confinamentos (3,1%), além de serem a quarta maior causa de mortalidade (8,0%) – veja mais detalhes no Benchmarking 2025. Apesar da participação parecer pequena no todo, podem trazer prejuízos econômicos para o produtor.
As clostridioses são um grupo de doenças causadas por bactérias do gênero Clostridium, produtoras de toxinas. As principais que acometem bovinos são: C. tetani (tétano); C. botulinum (botulismo); C. perfrigens (enterotoxemia); C. chauvoei (carbúnculo sintomático), entre outras.
Podendo afetar animais de todas as idades, porém há maior predisposição em alguns casos. No carbúnculo sintomático, por exemplo, a ocorrência é mais comum em bovinos jovens, entre seis meses e dois anos, embora possa acometer bezerros de dois a seis meses e até cerca de três anos.
Essas doenças podem ser transmitidas por diferentes vias: distúrbios alimentares, como a acidose, favorecem a proliferação bacteriana no trato digestivo e podem levar à enterotoxemia; o botulismo está associado à ingestão de toxinas em dietas de má qualidade, como silagem mal conservada; pastagens podem se contaminar após descarte inadequado de carcaças; lesões e feridas decorrentes de acidentes ou fraturas, podendo evoluir para gangrena e tétano; além disso, um protocolo vacinal mal executado também é um fator de risco.
E como identificar um bovino acometido pelas clostridioses?
• Tétano: anorexia, tremores, rigidez muscular (marcha oscilante), retração dos olhos e prolapso das pálpebras, constrição da mandíbula, constipação, dificuldade para urinar, regurgitação, timpanismo e entortamento da coluna e cauda etc. Pode evoluir para insuficiência respiratória e levar ao óbito entre 5 e 9 dias.
• Botulismo: anorexia, fraqueza, sialorreia, perda do tônus da língua, disfagia e paralisia – podendo ocorrer paralisia do diafragma, levando a óbito de 2 a 3 dias.
• Enterotoxemia: C. perfrigens tipo C, pode acometer bezerros, causando enterite necrótica com morte nos primeiros dias de vida. Já a C. perfrigens tipo D, pode gerar opistótono, pressão da cabeça contra superfícies e andar em círculos. A doença em sua forma aguda, pode levar a óbito em horas.
• Carbúnculo sintomático: anorexia, depressão, aumento de frequência cardíaca e temperatura corporal e acidose ruminal. Os membros afetados podem apresentar inchaço, calor e crepitação, com formação de bolhas gasosas. O óbito pode ocorrer entre 12 e 36 horas.
Considerando o tempo curto entre o aparecimento dos sinais clínicos e a morte, muitos tratam as clostridioses como “morte súbita”, e o tratamento é pouco eficaz – não é rápido o suficiente – para evitar perdas.
Diante disso, o ponto crucial é a prevenção, sendo a vacinação o principal meio de controle – e parte dos produtores sabe disso: na última expedição do Confina Brasil (2025), 87,0% dos confinamentos afirmaram utilizar vacinação para prevenção das clostridioses. Mas, além disso, o controle nutricional, a qualidade dos alimentos fornecidos, o manejo e o descarte correto de carcaças fazem diferença no controle da doença dentro da fazenda.
É importante destacar que, além da vacinação em si, deve-se dar atenção ao protocolo: instrumentos adequados e armazenamento do insumo, bem como à técnica de aplicação.
Protocolo vacinal
O protocolo pode variar conforme o insumo utilizado. Tomando como exemplo uma vacina que contém toxoides¹ das bactérias citadas, a imunização pode ser iniciada aos 2 meses de idade, com aplicação da primeira dose. A segunda dose deve ser administrada após 4 semanas. Recomenda-se uma terceira dose aos 6 meses e, posteriormente, revacinação anual ou a critério do responsável técnico, considerando fatores como região, lotação, risco de exposição e manejo.
Além disso, quando novos bovinos chegam à propriedade, deve-se seguir um protocolo adequado, incluindo quarentena e aplicação das vacinas indicadas, entre elas a contra clostridioses.
E quanto custa?
Considerando a cotação média em janeiro, em R$59,10 para 20 doses (R$2,96 por dose), e as duas primeiras doses essenciais, o protocolo custa R$5,91, por bovino, – sem considerar mão de obra e materiais.
Quando avaliamos as perdas precoces, como no caso do carbúnculo sintomático, o prejuízo – considerando os machos – pode chegar a R$2.922,38 para um bezerro de desmama de oito meses; R$3.267,97 em um bezerro de ano de 12 meses; R$3.906,67 em um garrote de 18 meses; e R$4.442,00 em um boi magro de 24 meses, por cabeça, em bovinos anelorados em São Paulo, considerando a cotação vigente em 27 de janeiro.
Se considerarmos o boi destinado ao abate em São Paulo, em 27/1, com a arroba cotada, em média, em R$319,00 e peso médio de 550kg (18,3@), o produtor deixa de receber aproximadamente R$5.848,33 por bovino. Isso sem considerar os gastos gerados até aquele momento, como nutrição e manejo, entre outros.
Conclusão
A relação entre custo e benefício não deixa dúvidas: a vacinação tem preço relativamente baixo e alto impacto na proteção do rebanho. Já a perda de um bovino, seja ele precoce ou terminado, representa um prejuízo elevado, podendo ultrapassar milhares de reais por cabeça. Para o produtor, optar pela prevenção é uma decisão estratégica.
¹toxina atenuada por agentes químicos, que possui a capacidade de estimular a produção de anticorpos, utilizada como vacina.
Referências
CARTER, G. R.; CHENGAPPA, M. M. & ROBERTS, A.W. (ed.) Essentials of veterinary microbiology. 5a ed. Williams & Wilkins, cap. 14. p. 134-141. 1995.
QUEVEDO, P.S. Clostridioses em ruminantes – revisão. Rev. cient. med. vet. Ano XIII, n.25, 2015.
RIET-CORREA, F. In: RIET-CORREA, F.; SCHILD, A.L.; LEMOS, R.A.A. & BORGES, J.R. J. (ed.). Doenças de Ruminantes e Equideos. 3ª ed. Santa Maria: Pallotti, v. 1, cap. 3. 2007.
SCOT CONSULTORIA. Benchmarking Confina Brasil. 2025.
SOUZA, U. R. de; ALMEIDA, C. P. de; & PINTO, E. V. (2024). Clostridioses em bovinos: desafios e estratégias para prevenção. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, 10(11), 6412–6434.
Fonte: Scot Consultoria
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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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