Milho “barato” vira energia milionária e revoluciona a bioindústria brasileira

Estrutura de alta tecnologia converte grãos de baixo valor em combustível, eletricidade e proteína animal, mostrando a força da nova bioindústria de milho brasileira.

A transformação do milho em combustível deixou de ser apenas uma alternativa energética e passou a ocupar papel estratégico na matriz brasileira. Em Mato Grosso — estado que lidera a produção nacional do cereal — uma agroindústria tem mostrado como grãos de menor valor comercial podem ser convertidos em etanol, ração animal, energia elétrica e biogás, criando um modelo produtivo altamente eficiente e sustentável.

A FS Bioenergia, primeira indústria do país a produzir etanol, ingredientes para nutrição animal e bioenergia 100% a partir do milho, simboliza essa mudança estrutural no agronegócio. Fundada em 2017 a partir da parceria entre o Summit Agricultural Group, dos Estados Unidos, e a Tapajós Participações S/A, do Brasil, a empresa acompanha o avanço do chamado “cinturão do etanol de milho”, que cresce rapidamente no Centro-Oeste.

Atualmente, a companhia produz cerca de 2,5 bilhões de litros por ano e projeta atingir 3,1 bilhões de litros com a entrada em operação da nova planta em Campo Novo do Parecis, prevista para o início de 2027 — um salto que reforça o protagonismo do milho na transição energética brasileira.

O processo começa com a chegada dos grãos de milho em caminhões que descarregam toneladas em armazéns industriais. A partir daí, a tecnologia assume o protagonismo.

Primeiro, o milho é moído até se transformar em um pó fino. Em seguida, é misturado com água e enzimas responsáveis por quebrar o amido — que representa cerca de 70% da composição do grão — em açúcares fermentáveis.

Após o cozimento, forma-se o chamado “mosto”, que segue para tanques de fermentação. Durante mais de 60 horas, microrganismos consomem os açúcares e os convertem em etanol, originando a chamada “cerveja de milho”, com aproximadamente 17% de álcool — imprópria para consumo humano, mas essencial para a etapa seguinte.

A destilação ocorre em colunas automatizadas que aquecem o líquido até a formação de vapor, posteriormente condensado. O resultado é um combustível com cerca de 96% de álcool e 4% de água, dentro dos padrões exigidos pelo mercado.

Em plantas desse porte, a produção diária pode ultrapassar 1 milhão de litros, evidenciando a escala industrial do modelo.

Um dos diferenciais do etanol de milho é o conceito de aproveitamento integral da matéria-prima. Nada se perde — e isso cria novas fontes de receita dentro da própria cadeia agroindustrial.

Após o cozimento do milho, a fração sólida é separada e transformada em produtos de alto valor nutricional:

  • FS úmido: massa destinada principalmente à alimentação de bovinos
  • FS seco (DDGS): farelo desidratado rico em proteína
  • FS essencial: proteína concentrada obtida por centrifugação
  • Óleo de milho industrial: utilizado como matéria-prima para biodiesel
  • Rações para peixes, suínos e aves

Esse sistema reforça o papel do milho como base alimentar de diversos rebanhos e contribui para reduzir custos na produção de proteína animal — um fator cada vez mais relevante em um cenário de demanda global crescente por alimentos.

Além do combustível, as usinas operam dentro de um modelo energético circular.

Biodigestores convertem resíduos orgânicos, como esterco, em biogás para geração de eletricidade, enquanto a fração sólida retorna às lavouras como fertilizante natural. A água utilizada nos processos passa por purificação antes de ser reaproveitada na irrigação, evitando impactos ambientais.

As caldeiras são abastecidas com biomassa — como eucalipto e casca de arroz — para gerar vapor. Nesse ciclo, o carbono liberado tende a ser reabsorvido por novas plantações, reduzindo a pegada ambiental da operação.

O resultado é um sistema alinhado às exigências globais por combustíveis de menor intensidade de carbono.

Usinas desse porte funcionam continuamente e dependem de profissionais especializados. Áreas como manutenção industrial, operação de caldeiras e laboratórios exigem formação técnica específica.

Esse movimento ocorre dentro de uma agroindústria mato-grossense que movimenta mais de R$ 200 bilhões, sustentada por trabalhadores qualificados e pela crescente demanda energética.

A expansão do setor considera fatores estruturais, como a possível elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina e o avanço do hidratado em novos mercados regionais.

Outro vetor é o comércio exterior. Embora hoje represente menos de 10% da produção da FS, as exportações já chegam a países asiáticos — entre eles Japão, Tailândia e Vietnã — e avançam em discussões com compradores europeus.

Além disso, o etanol de milho ganha espaço em novas frentes, como combustíveis marítimos e de aviação sustentável (SAF). Mesmo sem planos imediatos de produzir SAF, a empresa avalia oportunidades ligadas aos atributos ambientais do biocombustível.

Um dos projetos mais ambiciosos da companhia é o BEECS (Bio-Energy with Enhanced Carbon Storage), que prevê a captura e o armazenamento geológico de CO₂ na unidade de Lucas do Rio Verde.

A expectativa é iniciar a injeção do carbono em 2026, com certificação e operação plena no ano seguinte. O gás capturado vem diretamente da fermentação — e, ao ser armazenado, contribui para a redução líquida das emissões.

A tendência é que a tecnologia seja expandida para outras plantas, consolidando o etanol de milho como um combustível cada vez mais competitivo sob o ponto de vista ambiental.

Para executivos do setor, o etanol de milho deve desempenhar papel decisivo na meta nacional de atingir cerca de 35% de mistura na gasolina nos próximos anos. A visão predominante é de complementaridade — não de concorrência — com o etanol de cana.

Há espaço ainda para outras matérias-primas, como trigo e sorgo, indicando que o futuro da bioenergia brasileira pode ser mais diversificado do que nunca.

Nesse cenário, transformar milho de baixo valor em combustível, nutrição animal e energia não é apenas uma inovação industrial — é um exemplo claro de como tecnologia e eficiência podem redefinir o agronegócio e acelerar a transição para uma economia de menor carbono.

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