Mão de obra é apontada como maior risco aos bovinos em confinamento, aponta Confina Brasil

Pesquisa da Scot Consultoria revela que escassez, rotatividade e falta de qualificação estão diretamente ligadas a falhas de manejo e aumento das perdas; para 80,4% dos confinadores, o desafio número 1 não é ração nem sanidade, mas a mão de obra

Em um sistema intensivo como o de bovinos em confinamento, o raciocínio parece simples: para o boi ganhar peso e sair com desempenho, é preciso dieta bem ajustada, manejo eficiente e sanidade em dia. Mas, na prática, há um fator que pode comprometer tudo isso — e ele nem sempre entra na conta como deveria. De acordo com levantamento do Confina Brasil, iniciativa organizada pela Scot Consultoria, a mão de obra foi apontada como o principal risco e o maior desafio operacional dentro dos confinamentos visitados, por conta da escassez de trabalhadores, alta rotatividade e falta de qualificação técnica.

A constatação chama atenção porque muda o foco da discussão. Quando se fala em ameaças aos bovinos, o senso comum costuma listar predadores, doenças e acidentes. Mas o que a pesquisa evidencia é que falhas humanas — mesmo sem intenção — podem ser decisivas para a saúde e o desempenho dos animais, além de refletirem diretamente na taxa de mortalidade.

O dado que acende o alerta: mortalidade média de 0,5%

Segundo a apuração feita pelo Confina Brasil, a taxa média de mortalidade foi de 0,5% nos confinamentos visitados. Na prática, isso significa que a cada 200 bovinos que entram no confinamento, 1 morre.

Dentro desse percentual, há diversas causas, mas as doenças aparecem com peso relevante. O ponto central é que, em muitas situações, a causa não é apenas a doença em si, mas a demora em identificar o problema e agir, algo diretamente ligado à rotina operacional e à disponibilidade de equipe preparada.

A Scot destaca que a falta de pessoal qualificado dificulta a identificação precoce de bovinos doentes, o que pode atrasar tratamentos e aumentar o risco de morte.

Doenças e acidentes dominam as causas — e muitas têm “participação humana”

A pesquisa também reuniu as causas de mortalidade mais citadas pelos confinamentos participantes. Entre os principais motivos, aparecem:

O dado que mais chama atenção é que, quando se somam categorias como doenças, acidentes e falhas de transporte/manejo, o Confina Brasil aponta que 78,9% das causas de morte relatadas podem ter algum nível de participação humana.

Ou seja: não é exagero dizer que a mão de obra virou um “insumo” tão sensível quanto nutrição e sanidade — e, quando falha, o prejuízo aparece em perdas de animais, queda de desempenho, aumento de gastos com medicamentos e menor eficiência no giro do lote.

80,4% dos gestores apontam mão de obra como o maior desafio do confinamento

Ao perguntar diretamente aos responsáveis pelos confinamentos qual seria o maior desafio da atividade, o resultado foi direto:

80,4% apontaram a mão de obra como principal dificuldade.

Segundo a pesquisa, esse problema envolve três pontos principais:

1) Escassez de trabalhadores disponíveis
2) Falta de qualificação técnica
3) Dificuldade de encontrar profissionais preparados para o ritmo e exigência operacional do confinamento

Na visão dos confinadores, a dificuldade vai além do “contratar”: envolve manter equipe estável e eficiente no dia a dia, em um ambiente que exige atenção constante, rotina rígida e resposta rápida para evitar que pequenos problemas virem perdas grandes.

Bovinos nos confinamentos: O campo mudou — e o trabalhador também

A Scot Consultoria cita que a Embrapa (2024), em relatório sobre crise de mão de obra no campo, aponta fatores estruturais por trás do problema: envelhecimento da população rural, baixa oferta de capacitação e condições de trabalho pouco atrativas, dificultando contratação e retenção no agro.

Além disso, há uma competição interna dentro do próprio setor: segundo o mesmo estudo, a agricultura, por ser mais tecnificada, mecanizada e, muitas vezes, com melhores remunerações, acaba “puxando” a parcela mais qualificada da mão de obra rural — deixando a pecuária em desvantagem.

Salário subiu, mas ainda não resolve: pecuária perde para agricultura

Os dados do Novo Caged reforçam esse cenário. Conforme a divulgação de setembro de 2025, o salário médio de admissão em algumas atividades foi:

  • Algodão: R$ 2.551,80
  • Soja: R$ 2.681,08
  • Milho: R$ 2.423,52
  • Trigo: R$ 2.300,81
  • Bovinos de corte: R$ 2.295,73
  • Bovinos de leite: R$ 2.002,93
  • Suínos: R$ 1.968,32
  • Frango de corte: R$ 1.838,44

Na prática, mesmo pagando mais do que algumas cadeias pecuárias, a bovinocultura de corte ainda não consegue competir de igual para igual com culturas agrícolas, que vêm atraindo profissionais mais preparados e com experiência em operações mecanizadas e tecnificadas.

E o movimento de valorização existe: entre janeiro de 2020 e setembro de 2025, o salário médio de admissão na bovinocultura de corte subiu 54,3%, enquanto na pecuária geral aumentou 52,9% e na agropecuária, 44,8%.

Ainda assim, o próprio levantamento aponta que o ajuste salarial não foi suficiente para eliminar a escassez de mão de obra qualificada.

Bonificação ajuda — mas não é a única solução

Uma das estratégias adotadas por muitos confinamentos para reduzir a rotatividade é oferecer bônus. O Confina Brasil aponta que 73,9% dos confinamentos visitados oferecem algum tipo de bonificação ou premiação aos colaboradores.

Mas a pesquisa reforça que, mesmo com salários melhores e incentivos, o problema persiste, deixando claro que outros fatores precisam ser considerados, como:

  • alojamentos precários
  • alimentação inadequada
  • equipamentos ruins
  • condições de trabalho pouco atrativas

No dia a dia, esse conjunto pesa tanto quanto o salário — e muitas vezes define se o trabalhador fica ou sai.

As melhorias “simples” que reduzem rotatividade e evitam prejuízos

A Scot Consultoria relata casos práticos observados no campo mostrando que melhorias simples, como:

moradia adequada
estruturas mínimas de conforto
cursos de capacitação

podem reduzir significativamente a rotatividade e, em alguns casos, quase eliminá-la.

O recado final do estudo é direto: não basta disputar mão de obra apenas pelo salário. Para manter desempenho e reduzir perdas, o confinamento precisa ser um ambiente atrativo, com organização, conforto básico e treinamento — porque, no sistema intensivo, um erro operacional custa caro e acontece rápido.

De onde vêm os dados do Confina Brasil

A Scot Consultoria explica que conduz há seis anos pesquisas expedicionárias em diferentes regiões do país, mapeando sistemas produtivos do nascimento à terminação, com projetos como Confina Brasil e Circuito Cria, coletando informações diretamente no campo para gerar relatórios e materiais de apoio à tomada de decisão na pecuária.

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