Consumida há gerações no Nordeste brasileiro, a formiga tanajura — conhecida também como içá — chama atenção pelo alto valor nutricional e pode ter teor de proteína superior ao da carne bovina e do frango, despertando interesse da ciência e da gastronomia.
A ideia de comer formigas pode soar estranha para muitos brasileiros, mas no Nordeste e em diversas regiões do interior do país existe uma iguaria tradicional que vem ganhando cada vez mais destaque: a carne da formiga tanajura, também conhecida como içá ou saúva fêmea. Rica em proteínas e nutrientes, essa iguaria típica é considerada por especialistas uma das fontes naturais de proteína mais concentradas entre os alimentos de origem animal.
Muito antes de virar tema de estudos científicos e curiosidade gastronômica, a tanajura já fazia parte da alimentação de povos indígenas e de comunidades rurais brasileiras. Durante o período das chuvas, quando ocorre a revoada das formigas aladas, moradores saem para coletar as rainhas, que são posteriormente torradas, fritas ou transformadas em pratos tradicionais, como a famosa farofa de içá.
Hoje, além de tradição culinária, a tanajura também passou a despertar interesse da ciência por seu valor nutricional elevado e potencial como alimento sustentável.
A tanajura é a fêmea reprodutora das formigas cortadeiras do gênero Atta, conhecidas popularmente como saúvas. Essas formigas são encontradas em grande parte da América Latina, incluindo o Brasil.
Durante determinadas épocas do ano, principalmente após chuvas fortes, ocorre o chamado voo nupcial, quando as rainhas aladas deixam os formigueiros para acasalar e iniciar novas colônias. Nesse momento elas são capturadas para consumo.
Somente as fêmeas aladas são utilizadas na culinária, pois possuem um abdômen grande e rico em reservas nutricionais que serão utilizadas para fundar uma nova colônia.
Após a coleta, as asas são retiradas e a parte comestível — o abdômen — é torrada ou frita, podendo ser consumida pura ou misturada com farinha, arroz ou outros ingredientes típicos.
Um dos motivos que fazem a tanajura chamar atenção é sua composição nutricional. Estudos apontam que a formiga pode apresentar cerca de 42% a 44% de proteína, índice superior ao de muitos alimentos tradicionais.
Para efeito de comparação:
- Tanajura: cerca de 42% de proteína
- Carne bovina: cerca de 20% de proteína
- Carne de frango: cerca de 23% de proteína
Além disso, pesquisas mostram que as formigas do gênero Atta podem apresentar entre 42 e 52 gramas de proteína a cada 100 gramas de matéria seca, valores semelhantes aos de carnes de caça.

Esses insetos também contêm:
- gorduras saudáveis
- minerais como ferro, cálcio e fósforo
- vitaminas do complexo B
- aminoácidos essenciais para o organismo humano.
Outro ponto destacado por pesquisadores é que a proteína de insetos costuma ter alta digestibilidade, podendo ser comparável à de alimentos como leite ou soja.
Embora seja consumida em várias regiões do país, a tanajura é especialmente popular no Nordeste, onde costuma aparecer como petisco em bares, feiras e eventos gastronômicos. Em áreas rurais de Pernambuco, por exemplo, o inseto chega a ser servido como aperitivo.
No interior do Brasil, a coleta das formigas durante a revoada virou até uma espécie de evento comunitário. Famílias inteiras saem à noite com lanternas para capturar as rainhas que caem no chão após o voo.
Depois da coleta, elas são preparadas de várias maneiras:
- torradas na panela
- fritas com sal
- misturadas à farinha para fazer farofa
- usadas como ingrediente em pratos regionais
A farofa de içá, por exemplo, ganhou fama histórica. O escritor Monteiro Lobato chegou a chamá-la de “caviar da gente taubateana”, destacando seu sabor marcante e prestígio regional.
Nos últimos anos, o consumo de insetos — prática chamada de entomofagia — vem sendo estudado em todo o mundo como uma alternativa sustentável de produção de alimentos.
Pesquisadores destacam que insetos exigem menos água, menos área e menos recursos para produção do que bovinos, suínos ou aves, além de fornecerem altos níveis de proteína e nutrientes.
Por isso, a tanajura e outros insetos comestíveis passaram a ser analisados como possíveis ingredientes para novos produtos alimentícios, como farinhas e suplementos ricos em proteína. Pesquisas recentes mostram que a farinha de tanajura possui excelente valor nutricional e pode ser usada na formulação de novos alimentos.
Mesmo com o crescente interesse científico, para muitos brasileiros a tanajura continua sendo, antes de tudo, um símbolo cultural e gastronômico.
Seu consumo atravessa séculos e conecta diferentes gerações — desde povos indígenas até comunidades rurais e chefs de cozinha que hoje resgatam ingredientes tradicionais da culinária brasileira.
Entre curiosidade, tradição e ciência, a pequena formiga nordestina mostra que o futuro da alimentação pode estar em ingredientes que sempre estiveram presentes na cultura popular do país.
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