Luxo, poder e denúncias: documentos expõem Rancho milionário de Epstein ligado a abusos e tráfico

Com estrutura digna de um império privado, o Zorro Ranch, rancho associado a Jeffrey Epstein ressurge no centro das atenções após revelações que pressionam autoridades por respostas.

O vasto complexo rural que pertenceu ao financista e criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein voltou ao debate público após a divulgação de novos documentos oficiais e o avanço de iniciativas políticas para investigar o passado da propriedade. Localizado próximo à pequena comunidade de Stanley, a cerca de 48 quilômetros a sudeste de Santa Fé, no Novo México, o imóvel — anteriormente chamado Zorro Ranch e hoje rebatizado como Rancho de San Rafael — tornou-se um dos símbolos mais controversos ligados ao caso Epstein.

De dimensões comparáveis a grandes fazendas norte-americanas, o terreno ultrapassa 7.600 acres (mais de 3 mil hectares) e se estende pelo alto deserto do centro do estado, ao norte da Bacia de Estancia. A borda norte acompanha um antigo dique magmático do período Terciário, enquanto parte da propriedade avança sobre um penhasco que marca a transição entre formações geológicas distintas — o Xisto de Mancos ao norte e depósitos aluviais do Grupo Santa Fé ao sul.

Mais do que uma curiosidade geográfica, o local reúne relatos de sobreviventes, registros judiciais e documentos governamentais que alimentam questionamentos sobre como um espaço tão isolado pode ter permanecido por décadas sem escrutínio mais rigoroso das autoridades.

Construída para receber grandes encontros, a residência principal — erguida em 1999 no estilo hacienda — é frequentemente descrita como uma mansão “espalhosa”, com dimensões que incluem uma sala de estar comparável ao tamanho de uma casa média nos Estados Unidos.

Além da casa principal, o rancho inclui:

  • Piscina e casas de hóspedes
  • Escritórios administrativos
  • Cabana de madeira
  • Quartel de bombeiros próprio
  • Estábulos e áreas produtivas
  • Pista de pouso particular
  • Um antigo vagão ferroviário com trilhos, remanescente da histórica “Linha Frijoles”

Há ainda registros de que um heliporto foi posteriormente transformado em um jardim em formato de labirinto.

Jeffrey Epstein
Fazenda Zorro no Novo México em 2019. Fotografia: Zeitview/Reuters

A área é cercada por terras pertencentes ao estado do Novo México e à família do ex-governador Bruce King — de quem Jeffrey Epstein comprou a propriedade em 1993, supostamente por cerca de US$ 12 milhões. A aquisição foi feita por meio de uma empresa de fachada chamada Zorro Trust, depois renomeada Cypress Inc., e incluía aproximadamente 1.200 acres arrendados do governo estadual para uso agropecuário.

Historicamente, as terras remontam ao período colonial espanhol e, ao longo dos séculos, foram utilizadas principalmente para pecuária e agricultura, reforçando o caráter rural da região.

O Rancho Zorro é citado em diversas ações judiciais como um local onde teriam ocorrido abusos sexuais e tráfico de menores.

A denunciante Annie Farmer afirma ter sido abusada na propriedade ainda na década de 1990, envolvendo Jeffrey Epstein e sua cúmplice Ghislaine Maxwell. Outros relatos reunidos em processos descrevem situações em que adolescentes teriam sido levadas ao local e submetidas a episódios de coerção sexual.

Uma jovem relatou que foi transportada no avião do financista até o Novo México após conhecê-lo em Nova York. No rancho, teria sido conduzida ao quarto do empresário, onde ele exigiu uma massagem e a pressionou a participar de uma atividade sexual.

Virginia Giuffre, uma das acusadoras mais conhecidas do caso, também declarou ter sido vítima na propriedade e afirmou que foi traficada para homens influentes que visitavam o local. Um dos citados, o ex-governador Bill Richardson, negou as acusações, classificando-as como falsas.

Jeffrey Epstein
Jeffrey Epstein no rancho. Fotografia: Departamento de Justiça

Segundo relatos de uma dançarina local, grandes festas eram realizadas várias vezes por ano, com recrutamento de mulheres da região. O rancho era administrado por um casal neozelandês, Karen e Brice Gordon, que posteriormente teriam se escondido temendo por suas vidas.

Entre os visitantes mencionados por funcionários e registros aparecem nomes conhecidos, como:

  • Andrew Mountbatten-Windsor (à época Príncipe Andrew)
  • Woody Allen e Soon-Yi Previn
  • O agente de modelos Jean-Luc Brunel
  • O linguista Noam Chomsky

Nenhum deles foi formalmente acusado de crimes ligados ao rancho.

A propriedade também teria sido frequentada por figuras políticas locais. Registros indicam ainda que Epstein realizou doações ao ex-procurador-geral Gary King, filho do antigo proprietário da fazenda.

Após se declarar culpado por crimes sexuais na Flórida em 2008, Epstein não foi obrigado a se registrar como agressor sexual no Novo México — e o estado continuou arrendando terras públicas para ele.

Reportagem do New York Times apontou que o financista teria discutido com cientistas a ideia de “semear a raça humana com seu DNA”, engravidando mulheres no rancho — uma revelação que ampliou a repercussão internacional do caso.

Apesar das acusações, não há registro de uma operação do FBI no rancho, mesmo quando mandados de busca foram executados em outras propriedades de Epstein, como sua mansão em Nova York e a ilha privada Little Saint James.

Documentos indicam que agentes federais chegaram a entrevistar o gerente da propriedade em 2007, mas a conversa foi abruptamente interrompida após uma ligação que proibiu a continuidade do contato.

Jeffrey Epstein
Interior do rancho de Epstein. Fotografia: Departamento de Justiça.

Autoridades locais também registraram incidentes na região ao longo dos anos — nenhum relacionado diretamente a abusos.

Em agosto de 2018, invasores cortaram a cerca perimetral, entraram em edifícios e roubaram um cofre que supostamente continha entre 30 e 40 armas de fogo, aumentando as preocupações sobre a segurança e o controle da propriedade.

Após a morte do financista em 2019, o rancho permaneceu praticamente sem uso até ser vendido para uma empresa registrada como San Rafael Ranch LLC, por um valor não divulgado — especula-se que inferior ao preço inicialmente pedido.

Os novos proprietários não foram identificados publicamente, e o nome da propriedade foi oficialmente alterado para Rancho de San Rafael.

A ausência de um relato completo sobre o que ocorreu na fazenda levou legisladores do Novo México a pressionar por uma investigação formal.

Em 2025, parlamentares defenderam a criação de um grupo para analisar as atividades de Epstein no local. Já em 2026, a Câmara Legislativa do estado preparou um comitê investigativo, com a missão de esclarecer:

  • O que as autoridades sabiam
  • Se denúncias foram ignoradas
  • Como evitar falhas semelhantes no futuro

A iniciativa surge diante da percepção de que Jeffrey Epstein frequentou a propriedade por mais de duas décadas sem que houvesse um exame público aprofundado.

Hoje, o Rancho de San Rafael permanece como um dos capítulos mais enigmáticos do caso Epstein — um espaço que combina isolamento geográfico, luxo e uma longa lista de acusações.

Com novos documentos emergindo e investigações sendo discutidas, cresce a pressão para que autoridades finalmente estabeleçam uma linha do tempo clara dos acontecimentos, trazendo respostas às vítimas e ao público sobre o que, de fato, ocorreu dentro dos limites dessa vasta propriedade no deserto americano.

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