Laudo confirma que a morte das vacas leiteiras foi causada por intoxicação por nitrito após pastagem afetada pelo clima; caso expõe risco silencioso que pode atingir qualquer propriedade leiteira.
Cerca de 80 dias após uma das ocorrências mais impactantes da pecuária leiteira recente no Sul do país, a família Witter, de Novo Xingu, no norte do Rio Grande do Sul, tenta reconstruir a atividade após perder 48 vacas em leiteiras em apenas três dias. O episódio, além do forte impacto emocional, deixou um prejuízo estimado em R$ 600 mil e acendeu um alerta técnico importante para produtores de todo o Brasil.
Com apoio de uma campanha solidária, a propriedade recebeu 23 animais — sendo 17 em lactação — e retomou parcialmente a produção, que hoje varia entre 450 e 500 litros de leite por dia, ainda distante dos 1.200 litros diários registrados antes da tragédia. A expectativa é que o volume se aproxime de 1.000 litros/dia nos próximos meses, com a estabilização do novo rebanho.
O caso teve início na madrugada do dia 2 de janeiro, quando os primeiros animais foram encontrados mortos antes da ordenha. Ao longo do mesmo dia, o número de perdas aumentou drasticamente e, em menos de 72 horas, todas as vacas em lactação da propriedade morreram.
As vacas leiteiras apresentaram um quadro clínico semelhante e de evolução extremamente rápida, caracterizado por:
- Salivação intensa (sialorreia)
- Dificuldade respiratória (dispneia)
- Prostração e incapacidade de se manter em pé
- Morte em curto intervalo de tempo
Enquanto isso, novilhas e vacas secas, que estavam em outro piquete, não foram afetadas — um indício importante para a investigação da causa.
Após análises detalhadas de vísceras, água, ração, silagem e pastagem, laudos da Universidade de Passo Fundo confirmaram que a causa das mortes foi intoxicação por nitrito, decorrente do consumo de forragem com alto teor de nitrato.
O mecanismo é conhecido na literatura técnica, mas muitas vezes subestimado no campo:
- O nitrato ingerido pela planta é convertido em nitrito no rúmen
- Em condições normais, o nitrito vira amônia
- Porém, quando há excesso, o nitrito se acumula e é absorvido pelo organismo
O resultado é grave: o nitrito transforma a hemoglobina em meta-hemoglobina, impedindo o transporte de oxigênio no sangue. Ou seja, o animal respira normalmente, mas sofre uma hipóxia interna fatal.
O acúmulo de nitrato na pastagem está diretamente ligado a condições ambientais específicas. No caso analisado, a principal hipótese confirmada envolve sequência de dias chuvosos e nublados, que reduziram a fotossíntese das plantas.
Esse cenário cria um desequilíbrio:
- A planta continua absorvendo nitrogênio do solo
- Mas não consegue convertê-lo em proteína
- Resultado: acúmulo perigoso de nitrato nas folhas
Situações de risco incluem:
- Períodos prolongados de baixa luminosidade
- Seca seguida de chuvas
- Áreas recém-adubadas com nitrogênio
Esse conjunto de fatores cria um ambiente propício para intoxicação, especialmente em sistemas intensivos.
Além das perdas diretas, a tragédia forçou mudanças imediatas no manejo da propriedade. A área de pastagem onde ocorreu o problema foi dessecada e convertida em lavoura de milho, eliminando o risco de recontaminação.
Outro ponto crítico foi a alteração na alimentação:
- As vacas em lactação deixaram de pastejar
- Passaram a receber dieta totalmente no cocho
Embora mais segura, essa estratégia elevou significativamente os custos, justamente em um momento de preço do leite pressionado, reduzindo ainda mais a margem do produtor.
A situação financeira também compromete investimentos estruturais. A adoção de sistemas mais intensivos e seguros, como o free stall, foi descartada no curto prazo devido ao endividamento e à perda de capital animal.

Manejo e cuidado no campo
O caso reforça que a intoxicação por nitrato/nitrito é evitável, desde que haja atenção ao manejo integrado entre solo, planta e animal. Entre as principais recomendações técnicas estão:
- Respeitar o intervalo entre adubação nitrogenada e entrada dos animais
- Evitar adubação em períodos de baixa luminosidade
- Adaptar gradualmente os animais a áreas recém-adubadas
- Monitorar pastagens após eventos climáticos críticos
- Oferecer suplementação para reduzir consumo excessivo de forragem
- Realizar análises laboratoriais da pastagem em situações de risco
Mais do que uma tragédia pontual, o episódio ocorrido em Novo Xingu evidencia um risco crescente na pecuária moderna: a interação entre clima, manejo e nutrição pode gerar consequências rápidas e devastadoras.
Com a intensificação dos sistemas produtivos e maior variabilidade climática, episódios como esse tendem a ganhar relevância. Por isso, o conhecimento técnico e o monitoramento constante passam a ser não apenas recomendáveis, mas essenciais para a segurança do rebanho e a sustentabilidade da atividade leiteira.
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