Com menor rebanho em 75 anos, pecuaristas enfrentam falta imediata de alimento após incêndios destruírem pastagens em Oklahoma, Kansas e Texas, pressionando ainda mais o mercado global da carne bovina.
As planícies centrais dos Estados Unidos vivem uma das situações mais críticas dos últimos anos para a pecuária. Incêndios florestais de grandes proporções atingiram Oklahoma, Kansas e áreas do Texas, destruindo pastagens, estoques de feno e provocando mortes de animais. O impacto ocorre justamente em um momento em que o país registra o menor rebanho bovino em 75 anos, ampliando a preocupação com a oferta de carne e a sustentabilidade econômica de milhares de propriedades rurais.
Onde antes havia cobertura vegetal utilizada para pastejo, agora predominam áreas totalmente queimadas, com solo exposto e comprometido. A devastação foi tamanha que, em algumas regiões, a paisagem passou a se assemelhar a extensões de areia, evidenciando a perda completa da vegetação forrageira essencial à alimentação do gado.
O incêndio mais expressivo até o momento, identificado como Ranger Road Fire, já queimou aproximadamente 114.640 hectares (283.283 acres) no norte de Oklahoma e no sul do Kansas, segundo dados do Departamento de Agricultura, Alimentação e Florestas de Oklahoma. O fogo está parcialmente controlado, com cerca de 65% de contenção, mas os danos materiais e produtivos já são considerados severos.
Outros focos registrados nos três estados ampliaram a área afetada, atingindo milhares de hectares adicionais. Além da destruição direta das pastagens, houve perdas significativas de feno armazenado — insumo estratégico utilizado para suplementação alimentar, especialmente em períodos de escassez.
Autoridades estaduais confirmaram a ocorrência de mortes de bovinos, embora ainda não haja um levantamento consolidado do total de animais perdidos. Também foram registrados casos de animais feridos, incluindo queimaduras, após ficarem cercados pelo avanço rápido das chamas.

Em diversas propriedades, produtores precisaram abrir cercas para permitir que os animais escapassem do fogo, medida emergencial que evitou perdas ainda maiores. Mesmo assim, a situação atual é crítica: muitos pecuaristas conseguiram salvar parte do rebanho, mas agora enfrentam falta imediata de alimento, já que as áreas de pastagem foram completamente destruídas.
Diante desse cenário, associações rurais e lideranças locais iniciaram campanhas de arrecadação de feno, ração e insumos. Doações estão sendo organizadas a partir de diferentes estados, incluindo Montana, Michigan, Wisconsin e Illinois, numa tentativa de garantir alimentação mínima aos rebanhos sobreviventes.
A Associação de Pecuária do Kansas confirmou que os recursos de pasto foram praticamente esgotados nas áreas mais atingidas, tornando urgente o fornecimento externo de volumoso.
O impacto dos incêndios se soma a um contexto estrutural delicado. Antes mesmo da atual crise climática, a oferta de gado nos Estados Unidos já era a mais baixa em 75 anos. A combinação de seca prolongada, aumento dos custos de produção e preços elevados incentivou muitos produtores a encaminhar mais animais ao abate, inclusive fêmeas que normalmente seriam destinadas à reprodução.
Essa redução no plantel de matrizes comprometeu a reposição do rebanho e reduziu a capacidade de recuperação rápida do setor. O resultado foi um ciclo de oferta restrita que pressionou o mercado interno e abriu espaço para mudanças no cenário global.
No ano passado, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos como maior produtor mundial de carne bovina, segundo estimativas do setor, consolidando uma mudança relevante na geografia da produção global.
A diminuição da oferta de animais já vinha refletindo nos preços ao consumidor. Em janeiro, o valor da carne moída no varejo norte-americano atingiu US$ 6,75 por libra, recorde histórico e alta de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior, conforme dados oficiais do governo dos Estados Unidos.
A combinação de oferta limitada e demanda interna aquecida manteve os preços em patamar elevado. Agora, com novas perdas produtivas e aumento dos custos de alimentação emergencial, o mercado pode enfrentar prolongamento do ciclo de preços firmes.
Especialistas do setor alertam que a recuperação das áreas queimadas não será imediata. A regeneração das pastagens depende da intensidade do calor registrado durante os incêndios, das condições climáticas subsequentes e da capacidade de investimento dos produtores na recuperação do solo.
Em algumas propriedades, o retorno ao pastejo pode levar meses. Isso significa que, mesmo após o controle total das chamas, os impactos econômicos tendem a se estender ao longo do ano.
Para parte dos ranchos atingidos, o problema não é apenas emergencial, mas estrutural. A reconstrução das áreas produtivas exigirá tempo, recursos financeiros e, possivelmente, apoio governamental e institucional.
Embora o foco da crise esteja nas planícies norte-americanas, os efeitos podem se espalhar pelo mercado internacional. Com o rebanho em patamar historicamente baixo e novas perdas produtivas, a capacidade de oferta dos Estados Unidos pode permanecer limitada.
Nesse contexto, países exportadores como o Brasil podem ampliar sua relevância no comércio global de carne bovina. A conjuntura reforça como eventos climáticos extremos, combinados a ciclos pecuários desfavoráveis, têm potencial para redefinir fluxos comerciais e alterar a dinâmica de preços no cenário internacional.
Para os pecuaristas norte-americanos, no entanto, a prioridade é imediata: garantir alimentação para os animais sobreviventes e iniciar, o quanto antes, o processo de reconstrução das áreas devastadas.
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