Guerra no Oriente Médio pressiona logística global e pode impactar exportações de carne bovina brasileira

Escalada das tensões e guerra no Oriente Médio, região estratégica do comércio internacional, eleva custos de transporte, pressiona fertilizantes e cria incertezas para frigoríficos e pecuaristas brasileiros quanto a exportações de carne bovina brasileira, segundo análise da Scot Consultoria.

A escalada recente do conflito no Oriente Médio voltou a colocar o mercado global em alerta — e o agronegócio brasileiro já começa a sentir reflexos indiretos. Em um cenário onde rotas marítimas estratégicas podem ser afetadas, especialistas apontam que a instabilidade geopolítica pode alterar o ritmo das exportações de carne bovina, pressionar custos logísticos e gerar incertezas para toda a cadeia da pecuária.

De acordo com análise da Scot Consultoria, o aumento das tensões militares envolvendo potências globais e países da região ampliou o risco para o comércio internacional. O impacto imediato foi percebido no comportamento das indústrias frigoríficas brasileiras, que passaram a reduzir o ritmo de compras no mercado do boi gordo.

Segundo o engenheiro agrônomo e analista de mercado Alcides Torres, fundador e CEO da Scot Consultoria, a instabilidade externa já começou a influenciar o mercado interno da pecuária.

“A cotação do boi gordo vinha em trajetória de alta, mas perdeu velocidade. Não houve queda expressiva, porém o movimento de valorização foi interrompido porque as indústrias passaram a agir com maior cautela nas compras”, analisa Torres.

Oriente Médio é mercado estratégico para as exportações de carne bovina brasileira

O impacto potencial do conflito ganha relevância porque o Oriente Médio se consolidou, ao longo da última década, como um dos principais destinos da carne bovina brasileira.

Dados compilados pela Scot Consultoria mostram que a região respondeu por 8,5% das exportações brasileiras de carne bovina em 2026, reforçando sua importância estratégica para o setor.

No ano anterior, a participação foi de 6,8% do total exportado, com destaque para a Arábia Saudita, que lidera entre os compradores da região.

Em termos financeiros, os números também evidenciam a relevância desse mercado:

  • US$ 1,18 bilhão em receita com exportações para o Oriente Médio em 2025
  • US$ 236 milhões exportados entre janeiro e fevereiro de 2026

Esses valores reforçam que qualquer instabilidade logística ou comercial envolvendo a região pode gerar reflexos importantes no fluxo de embarques brasileiros.

Gargalos logísticos preocupam o comércio internacional

Apesar da importância comercial do Oriente Médio como comprador, o principal temor do mercado está nas rotas marítimas estratégicas que passam pela região.

Entre os pontos críticos estão dois gargalos fundamentais do comércio global:

  • Estreito de Ormuz
  • Estreito de Bab el-Mandeb, que conecta o Mar Vermelho ao Canal de Suez

Esses corredores marítimos são responsáveis por uma parcela significativa do transporte de petróleo e de mercadorias entre Ásia, Europa e outras regiões.

Segundo os analistas da Scot Consultoria, um eventual bloqueio ou restrição nessas rotas pode provocar mudanças profundas no comércio internacional, aumentando custos e atrasando entregas.

“O fechamento do Estreito de Ormuz, por exemplo, obrigaria desvios de rota, elevaria o custo do frete marítimo e aumentaria os prêmios de seguro no transporte internacional”, apontam os analistas da consultoria.

Além disso, o problema vai além da demanda direta por carne. Uma parcela relevante das exportações brasileiras utiliza essas rotas como passagem para mercados asiáticos, o que amplia o risco logístico.

Estimativas indicam que entre 30% e 40% da carne bovina exportada pelo Brasil passa por rotas ligadas ao Oriente Médio, principalmente em viagens com destino ao Sudeste Asiático.

Caso o conflito se intensifique ou provoque bloqueios marítimos, o impacto pode incluir atrasos na comercialização e dificuldades no escoamento da produção brasileira.

Energia e fertilizantes também entram na conta

Outro efeito indireto do conflito envolve o mercado energético, que costuma reagir rapidamente a crises geopolíticas na região.

Historicamente, tensões no Oriente Médio costumam provocar alta nos preços internacionais do petróleo, já que o risco geopolítico passa a ser incorporado às cotações.

Segundo a análise da Scot Consultoria, esse movimento pode elevar os custos em diferentes etapas da cadeia agropecuária.

Em março, por exemplo:

  • A ureia granulada foi cotada a US$ 597 por tonelada, registrando alta de 25,4% em relação ao mês anterior
  • O barril do petróleo Brent chegou a US$ 84,24, avanço de 25,5% no mesmo período

O aumento desses custos impacta diretamente o agronegócio, já que fertilizantes e combustíveis são insumos fundamentais tanto na produção agrícola quanto na logística de transporte.

Cenários para o mercado do boi gordo

Diante desse contexto de instabilidade, especialistas avaliam que o comportamento do mercado pecuário dependerá principalmente da duração do conflito.

De acordo com os analistas da Scot Consultoria, dois cenários principais podem se desenhar.

No primeiro, caso o conflito seja resolvido rapidamente, os impactos tendem a ser limitados.

“Com a normalização das rotas marítimas e do transporte internacional, é possível que a demanda volte a se aquecer, retomando um ritmo mais firme de compras no curto prazo”, avaliam os analistas.

Já no segundo cenário, caso a crise se prolongue, as pressões logísticas e energéticas podem persistir, afetando a competitividade da carne brasileira no mercado internacional.

Nesse contexto, o setor pecuário pode enfrentar:

  • aumento nos custos operacionais
  • margens mais pressionadas
  • maior volatilidade nos preços do boi gordo

Análise de especialistas do mercado

O estudo foi elaborado por Alcides Torres, engenheiro agrônomo formado pela ESALQ/USP e fundador da Scot Consultoria, reconhecido analista do mercado agropecuário brasileiro.

O trabalho também conta com contribuições de Gustavo Duprat, engenheiro agrônomo da mesma instituição e analista da equipe de inteligência de mercado da consultoria, especializado no monitoramento de mercados de proteínas animais e insumos agrícolas.

Segundo Duprat, acompanhar os efeitos geopolíticos sobre as cadeias de proteína animal tornou-se cada vez mais importante para produtores e frigoríficos.

“Conflitos internacionais podem afetar desde custos de produção até a logística de exportação, o que exige acompanhamento constante dos indicadores globais para entender seus reflexos no mercado pecuário”, destaca o analista.

Um alerta para o agronegócio global

Embora o conflito ainda esteja em desenvolvimento, o episódio reforça um ponto crucial para o agronegócio brasileiro: a forte dependência das cadeias logísticas globais.

Com exportações cada vez mais relevantes para o setor pecuário, qualquer instabilidade em rotas estratégicas do comércio mundial pode se refletir rapidamente nos preços, nos custos e no ritmo das negociações.

Por isso, especialistas destacam que o acompanhamento do cenário geopolítico passou a ser tão importante quanto fatores tradicionais como oferta de gado, demanda doméstica ou ciclo pecuário.

No curto prazo, o mercado segue atento — e a evolução do conflito pode definir os próximos movimentos da pecuária brasileira no comércio internacional.

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