Guerra encarece fertilizantes e Brasil pode reduzir produção: entenda o risco para o agro em 2026

Relatório do Rabobank acende alerta para 2026 ao apontar que a disparada dos fertilizantes, impulsionada pela guerra, deve reduzir o uso no Brasil e pressionar a produção agrícola.

O agronegócio brasileiro entra em 2026 sob forte pressão de custos e incertezas globais. Segundo análise do Rabobank, o consumo de fertilizantes no país deve recuar cerca de 2 milhões de toneladas, interrompendo o ciclo recente de crescimento e refletindo um cenário marcado pela guerra no Oriente Médio, alta dos preços internacionais e fragilidade financeira dos produtores.

Após atingir o recorde de 49,1 milhões de toneladas em 2025, as entregas devem cair para aproximadamente 47,2 milhões de toneladas em 2026, evidenciando uma mudança relevante no comportamento do setor.

Esse movimento, no entanto, vai além de um simples ajuste de mercado: ele expõe fragilidades estruturais do Brasil e acende um alerta para impactos mais amplos na economia.

Um dos fatores mais críticos por trás desse cenário é a elevada dependência do país em relação ao mercado internacional de fertilizantes.

Atualmente, o Brasil importa cerca de 80% a 85% de todo o fertilizante que consome, incluindo nutrientes essenciais como nitrogênio, fósforo e potássio.

Isso significa que qualquer instabilidade global — seja guerra, sanções econômicas ou problemas logísticos — tem impacto direto e imediato no custo de produção agrícola nacional.

Além disso:

  • 90% do nitrogênio,
  • 96% do potássio,
  • e cerca de 80% dos fosfatados

vêm do exterior, tornando o país altamente exposto a oscilações internacionais.

A situação se agrava porque regiões estratégicas, como o Oriente Médio, concentram grande parte da produção global de fertilizantes e matérias-primas, além de rotas logísticas essenciais, como o Estreito de Ormuz.

O conflito geopolítico recente intensificou um movimento de alta que já estava em curso.

Segundo o Rabobank:

  • A ureia subiu mais de 46% em poucas semanas
  • No acumulado do ano, a alta chega a até 76%
  • Fertilizantes fosfatados ultrapassaram US$ 800 por tonelada

Esse aumento está diretamente ligado ao encarecimento do gás natural — base da produção de fertilizantes nitrogenados — e aos riscos logísticos na região.

Além disso, cerca de um terço da ureia global passa por rotas estratégicas do Oriente Médio, o que amplia o impacto de qualquer instabilidade sobre a oferta mundial.

O resultado é um choque global que não atinge apenas o Brasil, mas toda a cadeia alimentar mundial.

No campo, os efeitos são imediatos e preocupantes.

Os fertilizantes representam uma das maiores parcelas do custo de produção agrícola, especialmente em culturas como soja, milho, café e cana-de-açúcar. Com a disparada dos preços, o produtor é forçado a tomar decisões difíceis:

  • Reduzir a adubação
  • Diminuir área plantada
  • Postergar investimentos
  • Optar por culturas menos exigentes

Esse ajuste tende a provocar:

  • Queda de produtividade
  • Redução na oferta de grãos
  • Maior risco financeiro para produtores endividados

Culturas como milho, trigo e arroz — altamente dependentes de nitrogênio — estão entre as mais vulneráveis.

Além disso, o impacto não é homogêneo: regiões com sistemas intensivos, como o Centro-Oeste, podem sentir ainda mais os efeitos devido ao uso intensivo de fertilização.

A redução no uso de fertilizantes não afeta apenas o campo — ela tem potencial de impactar toda a economia.

Isso porque o agronegócio é um dos pilares do PIB brasileiro e da balança comercial. Quando os custos sobem e a produtividade cai, os efeitos se espalham:

  • Alta nos custos de produção de alimentos
  • Pressão inflacionária no médio prazo
  • Aumento do custo de ração e proteínas animais
  • Redução da competitividade das exportações

Além disso, o aumento do petróleo — também influenciado pela guerra — encarece o diesel, elevando o custo de transporte e operação agrícola, ampliando ainda mais a pressão sobre o setor.

O impacto não se limita ao Brasil. A alta dos fertilizantes tem efeitos diretos sobre a produção global de alimentos.

Como cerca de metade da produção mundial depende de fertilizantes nitrogenados, qualquer choque de oferta ou preço pode resultar em:

  • Redução da produção agrícola global
  • Aumento dos preços de alimentos básicos
  • Pressão sobre cadeias de proteína animal
  • Risco à segurança alimentar em diversos países

Grandes produtores agrícolas, como Brasil, Estados Unidos e Índia, são diretamente afetados, o que amplifica o efeito global.

Mais do que um impacto pontual, o cenário de 2026 reforça uma questão estratégica: a dependência brasileira de insumos importados.

A atual crise evidencia que o país, apesar de ser uma potência agrícola, ainda depende fortemente de fatores externos para sustentar sua produtividade.

Diante disso, especialistas apontam a necessidade de:

  • Investimento em produção nacional de fertilizantes
  • Diversificação de fornecedores
  • Desenvolvimento de tecnologias de uso mais eficiente de insumos

Resumo do cenário

  • Consumo deve cair de 49,1 para 47,2 milhões de toneladas em 2026
  • Brasil importa até 85% dos fertilizantes que consome
  • Alta de preços impulsionada pela guerra no Oriente Médio
  • Produtor reduz uso de insumos e ajusta produção
  • Impactos atingem desde o campo até a inflação de alimentos
  • Risco global para cadeias agrícolas e segurança alimentar

Em um mundo cada vez mais conectado, o fertilizante — insumo invisível ao consumidor — se revela um dos principais pontos de pressão sobre o agro e a economia. E, em 2026, o Brasil volta a sentir com força o peso de sua dependência externa em um cenário global instável.

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