Grupo Trebeschi pede recuperação judicial; maior produtor de tomates do Brasil tem R$ 1,27 bilhão em dívida

Gigante do tomate entra em crise bilionária e acende alerta no agro brasileiro; Com dívida de R$ 1,27 bilhão, Grupo Trebeschi pede recuperação judicial e recorre à Justiça para reestruturar finanças e preservar 3 mil empregos; caso expõe fragilidade do ciclo financeiro no campo

O agronegócio brasileiro foi surpreendido por um movimento que expõe, de forma clara, os riscos estruturais do setor. O Grupo Trebeschi, considerado o maior produtor de tomates do Brasil, entrou com pedido de recuperação judicial, diante de um passivo que soma R$ 1,27 bilhão. A medida foi protocolada no dia 8 de abril, na 1ª Vara Cível da Comarca de Araguari (MG), e envolve diretamente a tentativa de reorganizar uma das maiores operações agrícolas do país.

Com atuação em larga escala — 17,7 mil hectares plantados, cerca de 3 mil colaboradores e presença em diversos estados brasileiros — o grupo construiu, ao longo de décadas, uma posição de destaque na produção de hortaliças, grãos e derivados. Agora, enfrenta o maior desafio de sua história.

Grupo Trebeschi pede recuperação judicial: Pedido envolve metade da dívida e busca fôlego imediato

Embora o passivo total seja bilionário, Grupo Trebeschi pede recuperação judicial abrangendo R$ 637,1 milhões, valor que corresponde às dívidas concursais — aquelas que podem ser renegociadas no processo.

A outra metade da dívida é composta por obrigações fiscais e extraconcursais, que, por legislação, não entram na recuperação judicial e permanecem exigíveis fora do plano de reestruturação.

Além disso, o grupo solicitou à Justiça:

  • Sigilo judicial sobre o processo
  • Período de 180 dias de blindagem contra execuções e cobranças
  • Suspensão de arrestos de bens

Grupo Trebeschi pede recuperação judicial e, segundo os envolvidos, essas medidas são consideradas essenciais para garantir fôlego financeiro e operacional, permitindo que a empresa continue funcionando enquanto negocia com credores.

Sistema financeiro exposto: bancos e gigantes do agro na lista

A dimensão do problema fica ainda mais evidente ao analisar a lista de credores. Instituições financeiras e multinacionais do agro estão entre os principais impactados, o que amplia o alcance da crise.

Entre os principais credores estão:

  • Itaú – cerca de R$ 213 milhões
  • Santander – aproximadamente R$ 154 milhões
  • Sicoob – R$ 122 milhões
  • Rabobank – R$ 82 milhões
  • Banco do Brasil – R$ 49 milhões

Além deles, empresas globais como ADM, BASF e Syngenta também figuram entre os credores.

O caso evidencia um ponto crítico: quando uma grande operação agrícola entra em crise, o impacto ultrapassa a porteira e atinge todo o sistema financeiro e produtivo.

Crise não é isolada e reflete tendência no Brasil

O episódio envolvendo o Grupo Trebeschi não ocorre de forma isolada. Em 2025, o Brasil registrou 2.466 pedidos de recuperação judicial, sendo que o agronegócio liderou com 743 casos — cerca de 30% do total nacional.

Esse cenário revela uma mudança importante: o agro, tradicionalmente visto como um setor resiliente, passou a enfrentar pressões financeiras mais intensas, especialmente em operações altamente alavancadas.

O peso do ciclo do agro: receita demora, custo não espera

A raiz da crise está, em grande parte, na própria dinâmica do setor. O ciclo financeiro do agronegócio é longo e exige alto capital de giro:

  • O produtor investe no plantio
  • Aguarda meses até a colheita
  • Depois espera pela comercialização
  • E só então recebe

Enquanto isso, os custos seguem correndo:

  • Juros bancários acumulam
  • Insumos precisam ser pagos
  • Credores exigem cumprimento de prazos

Esse descompasso transforma o fluxo de caixa em um dos principais gargalos do setor.

Tempestade perfeita: clima, custos e juros pressionaram operação

No caso do Grupo Trebeschi, a deterioração financeira começou a ganhar força a partir de 2021, em um cenário marcado por múltiplos choques:

  • Geadas e secas impactaram diretamente a produtividade
  • Alta nos fertilizantes, intensificada pela guerra na Ucrânia
  • Valorização do dólar, encarecendo insumos importados
  • Disparada da taxa Selic, que saltou de 2% para 14,75%

A combinação desses fatores criou uma “tempestade perfeita”, elevando custos, comprimindo margens e pressionando o endividamento.

Uma história de crescimento que agora exige reinvenção

A trajetória do Grupo Trebeschi é marcada por expansão acelerada. A empresa tem origem na história de um imigrante italiano que iniciou atividades no Brasil ainda no século passado, passando pela pecuária e pelo café.

O salto veio em 1999, quando Edson Trebeschi fundou a Trebeschi Tomates em Araguari (MG). Em cerca de 25 anos, o grupo se transformou em um dos maiores players agrícolas do país, com atuação em estados como Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Bahia e Ceará, além de outras regiões.

Agora, o desafio é reinventar um modelo que funcionou por décadas, mas que não resistiu às novas condições econômicas.

Empresa garante continuidade das operações

Em posicionamento público, o CEO Edson Trebeschi afirmou que não há risco de desabastecimento para clientes e que o objetivo da recuperação judicial é reorganizar a estrutura financeira e preservar empregos.

Segundo ele, ao longo de seus 50 anos de história, o grupo sempre honrou seus compromissos — mas reconhece que o atual cenário exige mudanças profundas no modelo de negócio.

Grupo Trebeschi pede recuperação judicial: O que o caso revela sobre o futuro do agro

O pedido de recuperação judicial de um dos maiores produtores de tomate do Brasil vai além de um caso isolado. Ele escancara uma nova realidade do agronegócio, onde escala, tecnologia e produtividade já não são suficientes para garantir sustentabilidade financeira.

Gestão de risco, controle de endividamento e equilíbrio de caixa passam a ser tão importantes quanto a produção.

E, diante desse cenário, uma conclusão se impõe:
quando o ciclo do agro trava, o impacto é proporcional ao tamanho da operação — e pode reverberar por toda a economia.

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