Frio histórico: como o “forno” natural do gado o mantém quente

Pelagem de inverno, rúmen funcionando como “forno” e manejo simples explicam por que o gado enfrenta temperaturas negativas sem congelar.

Os eventos climáticos extremos registrados recentemente, com nevascas atípicas e quedas bruscas de temperatura, têm acendido o alerta de produtores e técnicos em relação ao bem-estar animal. Em fazendas cobertas de neve, a imagem de vacas paradas ao relento pode parecer preocupante à primeira vista. No entanto, a ciência e a experiência no campo mostram que o gado é muito mais resistente ao frio do que se imagina.

As vacas contam com um conjunto de estratégias fisiológicas e comportamentais que funcionam como um verdadeiro “sistema de aquecimento embutido”. A principal delas começa ainda no outono, quando o organismo passa por mudanças graduais para enfrentar o frio.

Pelagem de inverno
Durante os meses frios, o gado desenvolve uma pelagem mais longa, densa e espessa, que atua como isolamento térmico natural. Um detalhe curioso é que, em dias de neve, ela pode se acumular sobre o dorso do animal sem derreter — sinal de que o calor corporal está sendo bem retido. Essa camada cria bolsas de ar entre os pelos, reduzindo drasticamente a perda de calor.

Pele e gordura corporal
Além do pelo, a vaca apresenta pele mais espessa e uma camada de gordura subcutânea, que funcionam como barreiras adicionais contra o frio intenso, especialmente em animais bem nutridos.

Um dos pontos mais importantes — e menos conhecidos — é o papel do rúmen no aquecimento do corpo.

Digestão que gera calor
O rúmen atua como um forno biológico. A fermentação da forragem rica em fibras, como feno e silagem, produz calor constante e significativo. Por isso, em períodos de frio, aumentar a oferta de volumoso é essencial: quanto mais o animal rumina, mais calor interno ele produz.

Quando a temperatura cai, o organismo da vaca responde com um aumento da taxa metabólica para manter a temperatura corporal estável. Isso significa que:

  • O consumo de alimento aumenta
  • A exigência energética é maior
  • Dietas mal balanceadas elevam o risco de perda de condição corporal

Nutrição adequada é decisiva para que o animal suporte temperaturas negativas sem entrar em estresse pelo frio.

Força do comportamento em grupo

Outro aliado poderoso contra o frio é o comportamento coletivo.

Aglomeração para conservar calor
As vacas tendem a se agrupar, reduzindo a exposição individual ao vento e compartilhando calor corporal. Em sistemas extensivos, esse comportamento pode manter áreas de descanso surpreendentemente aquecidas, mesmo sem aquecimento artificial.

Aclimatização faz diferença

Animais que são gradualmente expostos ao frio desenvolvem maior tolerância térmica. A aclimatização permite que o organismo ajuste metabolismo, pelagem e comportamento de forma eficiente.

Pelo seco é fundamental
Um ponto crítico é a umidade. O pelo molhado perde grande parte da sua capacidade isolante. Por isso, frio seco costuma ser menos prejudicial do que temperaturas mais altas combinadas com chuva, neve derretida e vento.

Embora as vacas sejam resistentes, o manejo correto faz toda a diferença para evitar perdas produtivas e problemas de saúde.

Proteção contra o vento
Abrigos simples, barreiras naturais, cercas-vivas ou quebra-ventos artificiais reduzem drasticamente o impacto da sensação térmica.

Camas secas
O uso de palha, feno ou outro material seco evita a perda de calor por contato com o solo gelado e úmido.

Cuidados especiais com bezerros
Os bezerros recém-nascidos são muito mais sensíveis ao frio. Abaixo de 15 °C, eles já podem entrar em estresse térmico. Em situações extremas, produtores recorrem a “jaquetas térmicas”, além de abrigos fechados e colostragem adequada.

De forma geral, vacas adultas bem adaptadas conseguem suportar temperaturas muito abaixo de zero, frequentemente até -20 °C ou menos, desde que:

  • Tenham boa nutrição
  • Estejam secas
  • Contem com proteção contra o vento

Zona de conforto térmico
A faixa considerada ideal para bovinos é ampla, variando entre 5 °C e 20 °C.

Temperatura crítica inferior
Abaixo de cerca de -15 °C, o animal começa a entrar em estresse pelo frio, exigindo maior aporte energético.

Temperatura efetiva
Mais importante que o número no termômetro é a sensação térmica. Vento e umidade elevam drasticamente o frio sentido pelo animal. Em alguns casos, 5 °C com chuva e vento podem ser mais perigosos do que -10 °C em clima seco.

As vacas são, sim, animais extremamente resistentes ao frio, especialmente quando adaptadas e bem manejadas. No entanto, raça, idade, nutrição e manejo são fatores determinantes para garantir que essa resistência natural não seja ultrapassada.

Em um cenário de eventos climáticos cada vez mais extremos, entender esses mecanismos deixa de ser curiosidade e passa a ser estratégia essencial para o bem-estar animal e a sustentabilidade da produção.

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