Frio ártico paralisa fazendas nos EUA, ameaça bezerros e pode reduzir oferta global de carne

Tempestade histórica com neve, gelo e frio ártico alcança 28 estados, onda de frio nos EUA, pressiona produtores e pode gerar reflexos no mercado pecuário nos próximos meses

Uma intensa massa de ar polar acompanhada por neve, gelo e temperaturas perigosamente baixas tem colocado o setor agropecuário dos Estados Unidos em alerta máximo. Uma forte tempestade de inverno atingiu propriedades de grãos e gado em 28 estados, onda de frio nos EUA acabou provocando impactos imediatos na rotina de fazendas e levantando preocupações sobre a produtividade e a oferta de carne bovina ao longo de 2026.

Segundo o meteorologista Eric Snodgrass, pesquisador sênior da Nutrien Ag, o fenômeno teve alcance continental e avançou rapidamente pelo país. “Tudo começou no Novo México e terminou no Maine, despejando uma quantidade enorme de neve ao longo do caminho; uma tempestade de gelo gigantesca que se estendeu de Dallas a Memphis e Nashville”, relatou ao portal da revista norte-americana Drovers.

Desde o último fim de semana, agricultores e pecuaristas trabalham em regime de urgência para proteger os rebanhos. Centenas de localidades registraram recordes diários não oficiais de baixas temperaturas, e a combinação com sensação térmica extremamente perigosa já provoca estresse nos animais e compromete indicadores de desempenho e saúde.

Onda de frio nos EUA: Bezerros recém-nascidos estão entre os mais vulneráveis

O professor Mark Johnson, da Universidade Estadual de Oklahoma, alerta que os bezerros recém-nascidos enfrentam risco elevado durante eventos climáticos severos. A hipotermia se torna uma ameaça real quando temperaturas abaixo de 10 °C se combinam com umidade e ventos fortes, cenário previsto para importantes regiões produtoras.

O analista de mercado pecuário Derrell Peel reforça que esse grupo é especialmente sensível até que consiga secar e mamar com sucesso após o nascimento. “É necessário um esforço extra para salvar os bezerros e evitar o congelamento das orelhas, caudas e cascos”, explicou.

Além do impacto direto sobre a sobrevivência dos animais, as perdas podem provocar efeitos em cadeia. A redução no número de bezerros tende a afetar o fornecimento de gado nos próximos meses, enquanto as baixas temperaturas também devem diminuir o desempenho de bovinos em confinamento — prolongando o tempo até o abate e reduzindo o peso das carcaças.

Estoques já estavam em queda antes da tempestade

O cenário climático adverso surge em um momento delicado para a pecuária norte-americana. O relatório de janeiro de 2026 do USDA apontou 11,45 milhões de cabeças de gado em confinamento, número 3,2% inferior ao do ano anterior e que marca o 14º mês consecutivo de retração nos estoques.

A média móvel dos últimos doze meses está no nível mais baixo desde setembro de 2018 e 3,8% abaixo do pico registrado em setembro de 2022.

Os dados mais recentes também indicam desaceleração na reposição:

  • As admissões em confinamento caíram 5,4% em dezembro, no comparativo anual;
  • Foi o nono mês seguido de queda;
  • Nos últimos seis meses, as entradas representaram apenas 92% do estoque atual, com retração de 8,2% frente ao ano anterior.

Esse conjunto de fatores sugere que o frio extremo pode aprofundar uma tendência já observada de menor disponibilidade de animais.

Onda de frio nos EUA aumenta custo de produção e exige manejo emergencial

Especialistas alertam que o estresse prolongado causado pelo frio pode elevar as necessidades energéticas do gado em até 30%, prejudicar a digestão, reduzir o desempenho e gerar problemas sanitários caros ao produtor.

O pesquisador Justin Waggoner, da Universidade Estadual do Kansas, recomenda que os pecuaristas adotem estratégias preventivas para evitar interrupções na ingestão de alimentos e preservar o bem-estar animal.

Entre os principais desafios operacionais estão:

  • Garantir água disponível — muitas vezes exigindo quebrar o gelo diariamente;
  • Fornecer ração adicional para manutenção do rebanho;
  • Monitorar equipamentos de aquecimento;
  • Manter acessos limpos até as fontes de água após nevascas.

Outro ponto crítico é o comportamento alimentar. Bovinos confinados tendem a aumentar o consumo de matéria seca antes das tempestades, o que pode provocar complicações digestivas, como acidose — especialmente se o fornecimento de ração sofrer atrasos.

Para reduzir esse risco, a recomendação é elevar a quantidade de forragem entre 12 horas antes e 24 horas após a tempestade, adicionando de 2% a 4% de talo longo para manter a ingestão voluntária sem comprometer a saúde ruminal.

Água, cama seca e pelagem: detalhes que fazem diferença

O frio também complica a gestão hídrica. Ajustar a taxa de fluxo dos reservatórios ajuda a evitar congelamento, enquanto aquecedores elétricos precisam de verificações frequentes.

A cama seca surge como outro fator decisivo. Permitir que os animais se deitem em superfícies protegidas reduz o estresse térmico, especialmente quando as temperaturas ficam abaixo de zero.

Embora o gado desenvolva uma pelagem mais espessa no inverno, esse isolamento perde eficiência quando o pelo se molha. “O estresse para o animal aumenta significativamente quando a neve derrete e penetra na pelagem”, alertou Waggoner.

Quatro práticas essenciais para salvar bezerros do frio extremo

Especialistas listam medidas consideradas críticas durante eventos climáticos severos:

  • Secar imediatamente os recém-nascidos, utilizando toalhas ou secadores;
  • Aplicar calor externo, como lâmpadas ou banho morno (cerca de 38 °C);
  • Mantê-los longe do chão, sobre palha, cobertores ou paletes;
  • Abrigar rapidamente em local seco e protegido do vento, como celeiros ou galpões.

Impactos podem ultrapassar as fazendas

Mais do que um evento climático pontual, a tempestade e onda de frio nos EUA reforça a crescente vulnerabilidade da produção agropecuária a extremos meteorológicos. Quando somados à redução dos estoques, os efeitos do frio podem influenciar preços, disponibilidade de carne e estratégias de reposição ao longo do ano.

Para o mercado global — especialmente países importadores — episódios dessa magnitude costumam ser acompanhados de perto, já que qualquer quebra na produção norte-americana tende a alterar fluxos comerciais e abrir espaço para concorrentes.

Enquanto isso, produtores seguem em alerta, mobilizando equipes e recursos para atravessar um dos episódios de inverno mais severos da temporada.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM