Reverenciados como seres divinos na China antiga, os cavalos Fergana da Ásia Central impulsionaram conquistas militares, movimentaram guerras e deixaram um legado que ainda intriga historiadores e criadores.
Durante milênios, poucos animais carregaram uma reputação tão extraordinária quanto os cavalos de Fergana, conhecidos na antiguidade como “cavalos celestiais”. Reverenciados por imperadores, disputados em guerras e envoltos em mistérios, esses animais eram considerados superiores a qualquer outra montaria de seu tempo. Agora, séculos após terem sido declarados extintos, uma pergunta volta a intrigar o mundo equestre: será que esses cavalos realmente desapareceram — ou ainda caminham entre nós?
Originários do fértil vale de Fergana, na Ásia Central — região que hoje integra principalmente o Uzbequistão — esses cavalos ganharam notoriedade por sua velocidade, resistência e aparência imponente. Situado ao longo da Rota da Seda, o vale era um ponto estratégico de intercâmbio cultural e comercial, facilitando a fama dos animais entre diferentes civilizações.
No século II a.C., a China enfrentava dificuldades militares. Seus cavalos eram considerados fracos diante das tribos nômades, que dominavam o campo de batalha com cavalarias rápidas. O imperador Wu, da Dinastia Han, acreditava que apenas uma raça superior poderia garantir vantagem estratégica.
Quando ouviu falar dos cavalos de Fergana — descritos até em antigas profecias como “cavalos celestiais vindos do noroeste” — ele decidiu que precisava deles a qualquer custo.
A primeira tentativa foi comercial, mas terminou em tragédia: emissários chineses foram assassinados após uma negociação fracassada. A resposta veio em forma de uma das campanhas militares mais ousadas da época.

Em 104 a.C., o imperador enviou tropas rumo ao reino de Dayuan. Após perdas devastadoras, uma segunda expedição com cerca de 60 mil soldados conseguiu sitiar a cidade e impor um acordo histórico.
A China recebeu:
- 30 cavalos considerados perfeitos, destinados à reprodução imperial;
- cerca de 3.000 animais adicionais para reforçar a cavalaria;
- e acesso a novas técnicas de alimentação, incluindo sementes semelhantes à alfafa.
Esses cavalos ajudaram a sustentar campanhas militares que ampliaram significativamente o território chinês.
O detalhe mais intrigante era a crença de que esses animais suavam sangue, característica que lhes rendeu o nome chinês Han Xue Ma.
Hoje, especialistas apontam que o fenômeno provavelmente era causado por parasitas hematófagos, que provocavam pequenas lesões na pele — mais visíveis após esforço físico intenso. Para os povos antigos, porém, aquilo era sinal de origem divina.
Não por acaso, os cavalos tornaram-se símbolos de status, restritos à elite e frequentemente retratados na arte e na mitologia chinesa

Durante quase mil anos, os cavalos de Fergana foram sinônimo de excelência. Com o tempo, porém, a preferência por animais maiores e mais robustos levou ao cruzamento com outras raças, diluindo suas características originais.
Gradualmente, o tipo puro desapareceu — e a raça passou a ser considerada extinta.
Mas a história pode não ter terminado ali.
Em 2013, um criador chinês afirmou possuir exemplares autênticos vindos do vale de Fergana e declarou que restariam apenas 3.000 cavalos no mundo, sendo cerca de 2.000 ainda na Ásia Central.
Os preços acompanham a suposta raridade: animais estariam avaliados entre US$ 325 mil e impressionantes US$ 49 milhões.

A dúvida permanece no ar: os cavalos voltaram da extinção — ou seriam, na verdade, Akhal-Teke comercializados sob um nome lendário?
Apesar da empolgação, especialistas mantêm cautela. Sem registros genealógicos sólidos ou testes genéticos amplamente divulgados, muitos acreditam que esses cavalos possam ser Akhal-Teke, raça também originária da Ásia Central e famosa pela pelagem metálica e desempenho atlético.
Considerado por alguns o parente mais próximo dos cavalos celestiais, o Akhal-Teke possui hoje uma população estimada em cerca de 6.600 exemplares — e também enfrenta preocupações quanto à preservação.
Sejam mito, realidade ou uma mistura dos dois, os cavalos de Fergana ocupam um lugar único na história. Eles não apenas redefiniram a cavalaria chinesa, como ajudaram a sustentar a expansão de um dos maiores impérios da antiguidade.
Mais do que animais raros, tornaram-se símbolos de poder, inspiração para lendas e prova de que, em certos momentos da humanidade, o destino de nações pode ter galopado sobre quatro patas.
E enquanto surgem novos relatos sobre sua possível sobrevivência, uma certeza permanece: poucas raças conseguiram atravessar tantos séculos ainda envoltas em tanto fascínio.
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