Febre aftosa sai do controle na África do Sul e recuperação pode levar 10 anos

País perdeu o reconhecimento de área livre da febre aftosa em 2019, convive com surtos desde 2021 e aposta em vacinação em massa, controle de trânsito animal e vigilância sobre búfalos para conter a doença.

A África do Sul vive uma das maiores crises sanitárias de sua pecuária nos últimos anos e já trabalha com um horizonte de uma década para voltar a controlar plenamente a febre aftosa (FMD – Foot and Mouth Disease). O caso, que afeta tanto sistemas intensivos quanto a pecuária extensiva, é tratado como um alerta de biosseguridade para outros países e tem provocado impactos diretos sobre a cadeia da carne bovina e do leite. A informação foi publicada pelo Beef Central, que detalhou o cenário e as medidas anunciadas pelo governo sul-africano para enfrentar o avanço da doença no território nacional.

Perda do status de país livre e avanço do surto

Segundo o Portal, a África do Sul perdeu em 2019 o status de área livre de febre aftosa. No entanto, o surto que compõe a crise atual teria começado em 2021, e desde então oito das nove províncias do país já registraram ocorrências da doença — um indicativo de ampla dispersão territorial.

O material também traz um mapa (na página 1) com a distribuição dos casos, em que as áreas em vermelho representam ocorrências confirmadas e as em laranja indicam casos suspeitos, evidenciando que o problema não está restrito a uma região isolada.

febre aftosa
Este mapa exibe os casos de febre aftosa relatados atualmente na África do Sul. Em vermelho, estão os casos confirmados e em laranja, os casos suspeitos.

Governo estima 10 anos para “virar a chave” sanitária

Diante da dimensão do desafio, o ministro da Agricultura da África do Sul, John Steenhuisen, afirmou que o país seguirá uma estratégia dividida em três fases ao longo de 10 anos, com foco em reduzir surtos, consolidar o controle e, apenas no fim do processo, retirar gradualmente a vacinação para buscar reconhecimento internacional de “livre sem vacinação”.

Em declaração à imprensa local, o ministro reforçou que retomar o status sanitário é uma tarefa monumental e que não se trata de algo que ocorrerá “da noite para o dia”.

Vacinação não é “solução mágica”: biossegurança e controle de trânsito entram no centro

Mesmo com o reforço da vacinação, o governo reconhece que o caminho para conter a febre aftosa não depende apenas de seringas e doses. O próprio ministro destacou que a vacinação não é uma “bala de prata”, sendo apenas uma das ferramentas no combate à doença, e que não substitui medidas rigorosas de biossegurança nas fazendas e adesão ao controle de movimentação de animais.

Ou seja: a crise deixa uma mensagem clara para o setor produtivo — sem disciplina sanitária, rastreabilidade e fiscalização eficiente, surtos podem se prolongar e se espalhar com rapidez.

Meta é vacinar praticamente toda a pecuária leiteira e de confinamento

A estratégia oficial inclui um plano de imunização agressivo, priorizando as regiões consideradas de maior risco.

De acordo com o ministro, a intenção é vacinar:

  • 100% do rebanho leiteiro e do gado em confinamento (feedlots)
  • 90% do gado comercial
  • 80% do gado comunitário

O objetivo estabelecido é reduzir em 70% os surtos em províncias de alto risco dentro de 12 meses, usando vacinação e, ao mesmo tempo, reforçar áreas livres por meio de “zonas de contenção” (vacina em cinturões) e restrições duras de movimentação animal.

Feedlots positivos e 160 mil animais sob controle imediato

Um dos pontos que mais chama atenção no caso sul-africano é a presença do vírus também em grandes operações comerciais.

O Beef Central relata que, em junho de 2025, a imprensa local informou que três dos maiores confinamentos comerciais do país, operados pela Karan Beef, testaram positivo para febre aftosa, levando cerca de 160 mil cabeças a serem colocadas sob medidas imediatas de controle.

Esse episódio expõe um risco importante: quando a febre aftosa entra em sistemas intensivos, o impacto logístico e econômico tende a ser rápido e profundo, pela concentração de animais, fluxo constante de transporte e cadeia de fornecimento integrada.

Quase 2 milhões de animais vacinados em poucos meses

Em resposta ao avanço, o ministro informou que quase 2 milhões de animais foram vacinados nos últimos meses, reforçando a dimensão da mobilização sanitária em curso.

Vida selvagem vira peça-chave: búfalos sob vigilância

Outro fator que aumenta a complexidade do combate é o papel da fauna silvestre. Segundo as autoridades, animais selvagens podem estar contribuindo para a disseminação do vírus, motivo pelo qual a vigilância sanitária está sendo ampliada — com atenção especial aos búfalos, apontados como portadores importantes.

A diretora-chefe de Coordenação de Biossegurança, Dra. Emily Mogajane, afirmou que os búfalos podem carregar a doença sem demonstrar sinais clínicos, o que exige vigilância específica, além de vacinação direcionada nas áreas próximas a reservas.

Um alerta sanitário que ultrapassa fronteiras

O caso da África do Sul mostra como a febre aftosa pode se transformar em uma crise prolongada quando há: ampla circulação territorial, desafios de fiscalização, presença de vida selvagem como reservatório, além de risco em grandes estruturas comerciais como confinamentos.

Ao projetar uma estratégia de 10 anos, o governo deixa evidente que o processo de reconstrução sanitária não é simples — e envolve uma combinação de vacina, vigilância constante, controle rigoroso de movimentação e compromisso do produtor rural.

Em resumo: a febre aftosa, quando perde controle, não vira “notícia de uma semana” — vira um problema de uma década.

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