Impasse comercial com a China derruba embarques e receita nas exportações de carne bovina dos EUA, mas demanda internacional segue firme; dezembro registra melhor volume em oito meses
O comércio internacional de carne bovina voltou a dar sinais claros de tensão em 2025. Os Estados Unidos, um dos maiores exportadores globais da proteína, fecharam o ano com queda expressiva nos embarques e na receita, em meio a entraves comerciais e oferta interna restrita. Os dados oficiais revelam um cenário de retração relevante, mas também apontam que, fora o mercado chinês, a demanda permaneceu resiliente. Exportações de carne bovina dos EUA recuam 12% em 2025 e acendem alerta no mercado global.
De acordo com números divulgados pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) e compilados pela Federação de Exportadores de Carne (USMEF), as exportações norte-americanas de carne bovina recuaram 12% em volume em 2025, totalizando 1,14 milhão de toneladas . Em termos de receita, a retração foi de 11%, com faturamento de US$ 9,33 bilhões, na comparação com 2024.
China no centro do problema
O principal fator por trás da queda foi o impasse comercial com a China, que desde março de 2025 não renovou as habilitações de grande parte das plantas frigoríficas norte-americanas aptas a exportar para o país .
Na prática, isso reduziu drasticamente o acesso dos EUA a um dos mercados mais estratégicos para a carne bovina mundial. A China é historicamente um dos maiores compradores globais da proteína, influenciando preços, fluxos comerciais e estratégias industriais.
Os números mostram claramente o peso dessa decisão. Excluindo a China da conta, as exportações norte-americanas teriam registrado queda muito mais moderada: -3% em volume e apenas -0,4% em valor em 2025 .
Ou seja, o desempenho internacional da carne dos EUA se manteve relativamente sólido quando desconsiderado o bloqueio chinês.
O presidente e CEO da USMEF, Dan Halstrom, destacou que a demanda global permaneceu forte, apesar da oferta restrita e dos obstáculos comerciais, reforçando que o restabelecimento pleno do acesso ao mercado chinês é fundamental para que o país volte a maximizar o valor por animal exportado .
Dezembro mostra reação nos embarques
Mesmo com o saldo anual negativo, o último mês de 2025 trouxe um sinal de recuperação pontual.
Em dezembro, os EUA exportaram 98.595 toneladas de carne bovina, volume que representa queda de 10,5% frente ao mesmo mês de 2024, mas que foi o maior patamar registrado nos últimos oito meses, desde abril .
Em receita, os embarques de dezembro somaram US$ 809,2 milhões, retração de 10% na comparação anual, porém também o maior valor desde abril .
O detalhamento por mercados mostra um cenário heterogêneo:
- Alta nos embarques para Taiwan, Oriente Médio, ASEAN, Caribe, América do Sul e Hong Kong
- Estabilidade nas vendas ao Japão
- Quedas modestas para Coreia do Sul, México e Canadá
- Exportações mínimas para a China
Quando a China é excluída da equação, o desempenho de dezembro muda significativamente: as exportações teriam crescido 4% em volume e 6% em valor frente ao mesmo mês do ano anterior .
Impactos no mercado global e reflexos para o Brasil
A retração dos EUA ocorre em um momento delicado para a pecuária mundial. O rebanho norte-americano já vem sendo pressionado por ciclos de seca e custos elevados de produção, reduzindo a oferta interna de animais terminados.
Com menor volume disponível para exportação e restrições comerciais com a China, abre-se espaço para outros grandes players — especialmente o Brasil — ampliarem sua presença no mercado asiático.
Para o mercado brasileiro, o cenário pode significar:
- Maior competitividade da carne nacional na China e em países da Ásia
- Reforço da posição do Brasil como principal fornecedor global
- Possível influência sobre preços internacionais e prêmio de exportação
No entanto, é importante observar que, apesar da queda, os EUA ainda movimentaram US$ 9,33 bilhões em exportações em 2025 — um volume financeiro expressivo, que mantém o país entre os protagonistas globais da proteína bovina.
Um ano de ajustes e incertezas
O desempenho de 2025 evidencia como decisões sanitárias e comerciais podem alterar rapidamente o fluxo global da carne bovina. O caso norte-americano reforça a importância da diversificação de mercados e da estabilidade diplomática para garantir previsibilidade ao setor.
Se o acesso à China for restabelecido em 2026, o país pode recuperar parte do terreno perdido. Caso contrário, o mercado internacional seguirá se reorganizando — e o Brasil tende a ser um dos principais beneficiados nesse rearranjo.
A pecuária mundial entra, assim, em mais um capítulo de disputa estratégica por mercado, com oferta ajustada, tensões comerciais e uma demanda global que, apesar dos obstáculos, continua firme.
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