Com China e Estados Unidos concentrando quase 60% da receita, desempenho de janeiro sinaliza mudança estrutural na demanda global — e pode inaugurar uma nova fase de valorização para a pecuária brasileira.
O ano de 2026 começou com um recado claro ao mercado global de proteínas: o Brasil segue ampliando sua relevância estratégica no abastecimento mundial de carne bovina. Em janeiro, o país registrou o melhor desempenho da história nas exportações de carne bovina para o mês, com 264 mil toneladas embarcadas e receita de US$ 1,404 bilhão, segundo dados do MDIC compilados pela Abiec.
Na comparação com janeiro de 2025 — quando foram exportadas 209,4 mil toneladas e faturados US$ 1,002 bilhão — houve crescimento de 26,1% em volume e expressivos 40,2% em valor, indicando não apenas maior demanda, mas também um ambiente de preços mais favorável.
Mais do que um recorde pontual, os números reforçam uma leitura cada vez mais presente entre analistas: o Brasil deixou de ser apenas um fornecedor competitivo e passou a ocupar posição central na segurança alimentar global.
O dado que redefine o mercado: concentração nas duas maiores economias do mundo
Um dos pontos mais relevantes do levantamento está na forte concentração das compras.
A China liderou com folga, importando US$ 657,2 milhões e 123,2 mil toneladas, o equivalente a 46,8% do valor total exportado pelo Brasil no mês.
Já os Estados Unidos aparecem na segunda posição, com US$ 193,7 milhões e 29,9 mil toneladas, crescimento de cerca de 63% no volume frente ao mesmo período do ano anterior.
Juntos, os dois países responderam por cerca de 60% da receita das exportações de carne bovina, um indicador poderoso sobre para onde caminha o fluxo global de proteínas.
Insight de mercado
Essa concentração não deve ser interpretada como risco imediato — mas como um sinal de que a carne bovina brasileira se tornou um ativo estratégico para grandes economias, especialmente em um contexto de menor produção em diversos países.
Segundo o presidente da Abiec, Roberto Perosa, mesmo diante de um cenário geopolítico desafiador e da queda na produção em várias regiões do mundo, o Brasil demonstrou capacidade de manter volumes relevantes, chegando hoje a 177 países.
Carne bovina in natura domina — e mostra onde está o dinheiro
A estrutura das exportações de carne bovina também revela muito sobre a lógica do mercado.
- Carne bovina in natura: US$ 1,292 bilhão (91,97% da receita) e 231,8 mil toneladas.
- Industrializados: US$ 58,5 milhões e 7,9 mil toneladas.
- Miúdos: US$ 37,3 milhões e 16,9 mil toneladas.
Na prática, isso confirma que o mundo continua buscando proteína básica em grande escala, e o Brasil permanece altamente competitivo nesse segmento.
Insight estratégico
Enquanto produtos de maior valor agregado ainda avançam lentamente, o ganho de escala na carne in natura segue sendo o principal motor de receita do setor exportador — algo que pode mudar ao longo da década com maior rastreabilidade e protocolos de baixo carbono.
Diversificação silenciosa fortalece o ciclo
Embora China e EUA concentrem a maior fatia, outros mercados ajudam a reduzir a dependência nas exportações de carne bovina.
Entre os principais destinos aparecem:
- Emirados Árabes Unidos — US$ 38,9 milhões
- Egito — US$ 35,7 milhões
- Rússia — US$ 33 milhões
- Hong Kong — US$ 32,3 milhões
- Arábia Saudita — US$ 30,6 milhões
- Israel — US$ 25,1 milhões
Além disso, países como Filipinas (+159%), Vietnã (+41%) e Peru (+41%) ampliaram fortemente suas compras.
Leitura de analista
Esse movimento indica um fenômeno relevante: o Brasil não cresce apenas onde já é forte — ele está expandindo fronteiras de consumo. Essa capilaridade reduz volatilidade e cria uma espécie de “colchão de demanda”, algo fundamental para sustentar preços do boi no médio prazo.
Exportações de carne bovina: O que explica o super janeiro?
Três vetores ajudam a entender o momento:
1. Oferta global mais restrita
Problemas produtivos e custos elevados em outros países abriram espaço para a carne brasileira.
2. Câmbio ainda favorável
Mesmo com oscilações, o real mantém competitividade internacional.
3. Escala produtiva difícil de replicar
Poucos países conseguem aumentar rapidamente a produção bovina.
Projeções: estamos diante de um novo superciclo?
Os sinais iniciais de 2026 permitem algumas leituras importantes.
Cenário base (mais provável)
- Exportações seguem fortes
- Preços internacionais sustentados
- Boi gordo com viés estrutural de alta
Cenário otimista
Se a Ásia continuar expandindo o consumo e os EUA mantiverem importações elevadas, o Brasil pode caminhar para novos recordes anuais, consolidando-se como “porto seguro” da proteína global.
Principal risco
A dependência de grandes compradores exige atenção diplomática e sanitária. Qualquer ruído nesses mercados tem potencial de gerar volatilidade imediata.
O recado para o pecuarista brasileiro
O desempenho de janeiro não é apenas uma estatística — é um sinal econômico.
Para dentro da porteira, ele sugere:
- Demanda externa consistente
- Maior previsibilidade de escoamento
- Incentivo à intensificação produtiva
- Valorização de genética e eficiência
Para investidores, reforça a tese de que a pecuária brasileira vive uma transformação silenciosa — deixando de ser cíclica para se tornar cada vez mais estrutural.
Conclusão: o Brasil virou peça-chave no tabuleiro global
O recorde histórico não deve ser visto como um pico isolado, mas como parte de uma reorganização do comércio mundial de alimentos.
Com escala, sanidade e presença em quase todos os continentes, o Brasil passa de fornecedor competitivo para protagonista estratégico da segurança alimentar.
Se essa trajetória se mantiver — e os indicadores sugerem que sim — o país pode entrar na segunda metade da década com um status difícil de contestar: o de maior potência exportadora de carne bovina do planeta.
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