EUA investigam possível cartel da carne enquanto pecuaristas denunciam perda de poder de negociação

Com mais de 85% do mercado nas mãos de quatro empresas, governo americano investiga possível “cartel da carne” e suspeita de distorção no preço pago ao pecuarista e ao consumidor.

A suspeita de um possível “cartel da carne” passou a dominar o debate no maior mercado consumidor do mundo após o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) confirmar uma investigação antitruste contra as maiores processadoras de carne do país. No centro da apuração estão JBS, Tyson Foods, Cargill e National Beef Packing Company, responsáveis por cerca de 85% do processamento de carne bovina nos Estados Unidos, em um cenário de forte concentração que levanta dúvidas sobre como os preços são realmente definidos da fazenda ao consumidor.

A investigação ganhou força em meio a um contexto explosivo: preços da carne próximos de recordes históricos, redução do rebanho bovino ao menor nível em décadas e crescente pressão política sobre o custo dos alimentos. Nos EUA, o valor da carne subiu de forma consistente, impulsionado por fatores como seca, custos elevados e restrições na oferta — mas autoridades agora querem entender se há algo além das forças de mercado.

Nos bastidores, o DOJ já analisou mais de 3 milhões de documentos e realizou dezenas de entrevistas com agentes da cadeia produtiva, incluindo pecuaristas, compradores e executivos da indústria. O objetivo é identificar se houve coordenação entre essas empresas na compra de gado ou na formação de preços, o que poderia configurar violação das leis antitruste.

O ponto mais sensível da investigação está nos chamados contratos diretos entre confinamentos e frigoríficos, que substituem negociações em mercado aberto. Embora legais, esses acordos vêm sendo criticados há anos por produtores, que alegam que o modelo reduz a transparência e pode distorcer o preço de referência do boi gordo.

Na prática, a suspeita é de que o preço possa estar sendo influenciado antes mesmo de chegar ao mercado, limitando o poder de negociação do pecuarista — um dos principais pontos levantados por associações do setor nos EUA.

A estrutura do mercado é um dos principais fatores por trás da investigação. Hoje, o setor é dominado por quatro gigantes — JBS, Tyson, Cargill e National Beef — que controlam a maior parte do abate e processamento de carne bovina no país.

Esse nível de concentração, que cresceu ao longo das últimas décadas, reduziu drasticamente as opções de comercialização para os produtores. Segundo autoridades americanas, isso contribuiu para a perda de milhares de operações pecuárias e para o enfraquecimento da competitividade no setor.

Além disso, há um fator adicional que amplia a sensibilidade do tema: parte dessas empresas tem capital estrangeiro, o que levou o debate para além da economia e passou a envolver também questões de segurança alimentar e soberania produtiva.

Apesar dos preços elevados ao consumidor, o cenário atual revela um paradoxo. Com a oferta de gado restrita, os frigoríficos enfrentam custos mais altos para aquisição de animais, o que pressiona margens operacionais — mesmo com a carne mais cara no varejo.

Ao mesmo tempo, a escassez de animais levou os EUA a aumentarem as importações de carne bovina para equilibrar o mercado interno, evidenciando um desequilíbrio estrutural na cadeia produtiva.

A investigação atual não surge do zero. As mesmas empresas já foram alvo de processos privados nos Estados Unidos sob acusação de manipulação de preços, incluindo ações movidas por consumidores e grandes redes varejistas.

Em alguns casos, companhias como Tyson, Cargill e JBS aceitaram pagar dezenas de milhões de dólares em acordos, embora tenham negado irregularidades.

Esses antecedentes reforçam a atenção do governo americano e aumentam a pressão por respostas concretas.

Um dos pontos mais sensíveis do caso é que a apuração pode evoluir para a esfera criminal. Há indícios de que o DOJ esteja analisando possíveis práticas como cartel, manipulação de preços e restrição de oferta, o que pode resultar em multas bilionárias e até responsabilização de executivos.

Caso isso se confirme, o impacto pode ser histórico para o setor.

Mais do que uma investigação doméstica, o caso tem potencial para redefinir o funcionamento do mercado global de proteína animal. Empresas como a JBS, com presença em diversos países, podem sofrer efeitos diretos em suas operações internacionais.

Para países exportadores como o Brasil, o desdobramento da investigação pode influenciar preços internacionais, fluxo de exportações e até a dinâmica competitiva entre frigoríficos globais.

No fim das contas, a pergunta que move o mercado é direta:
o preço da carne é resultado apenas da oferta e demanda — ou existe, de fato, um “cartel da carne” operando nos bastidores?

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