Pesquisa global liderada por cientistas brasileiros indica aumento do estresse térmico em rebanhos, maior vulnerabilidade da pecuária leiteira e da avicultura e reforça a necessidade urgente de adaptação genética e tecnológica para preservar a produção de alimentos.
As mudanças climáticas já deixaram de ser um risco distante para se tornar uma variável estratégica na produção agropecuária mundial. Um estudo com abordagem global e metodologia inédita projeta como rebanhos de diferentes espécies deverão reagir aos cenários climáticos entre 2050 e 2100, revelando que o aumento das temperaturas poderá alterar profundamente os sistemas produtivos e exigir uma nova lógica de adaptação no campo, principalmente na pecuária.
A pesquisa foi conduzida por cientistas brasileiros e publicada na revista científica Environmental Impact Assessment Review. O trabalho apresenta um modelo capaz de prever respostas fisiológicas dos animais diante do aquecimento global — uma ferramenta considerada essencial para orientar políticas públicas, decisões empresariais e estratégias de segurança alimentar.
Os pesquisadores alertam que, caso a temperatura média do planeta suba 2 °C até 2050, eventos críticos para a agricultura e para a saúde animal e humana deverão ocorrer com maior frequência e intensidade. Nesse cenário, antecipar riscos passa a ser determinante para evitar perdas produtivas e desequilíbrios no abastecimento de alimentos.
Uma das descobertas mais relevantes do estudo aponta que pequenos ruminantes criados no Hemisfério Norte tendem a sofrer impactos mais severos do que os do Sul nos três cenários avaliados — 2050, 2075 e 2100.
As projeções indicam um aumento médio de até 68% na frequência respiratória desses animais no Norte, um dos principais sinais de estresse térmico.
Nos trópicos, porém, o quadro também exige atenção. Entre os ruminantes do Hemisfério Sul, a pecuária leiteira aparece como a mais vulnerável ao calor, enquanto caprinos e bovinos de corte demonstram maior capacidade de adaptação. Essa resiliência está ligada à chamada plasticidade fenotípica, mecanismo biológico que permite aos animais ajustar características físicas conforme as condições ambientais sem alterar o código genético.
Entre as aves, o alerta é ainda mais direto: galinhas poedeiras e codornas estão entre as espécies mais suscetíveis ao aumento das temperaturas, com previsão de crescimento de até 40% na frequência respiratória até o fim do século.
As conclusões do estudo indicam que o avanço do aquecimento global e a intensificação de eventos climáticos extremos tornarão indispensável o desenvolvimento de raças mais resistentes e adaptáveis, além da ampliação de sistemas produtivos com controle térmico.
A pesquisa sustenta que estratégias de adaptação precisarão envolver manejo direcionado, seleção genética e conservação de recursos biológicos, formando a base de políticas voltadas à sustentabilidade e à segurança alimentar.
O trabalho integra uma série de investigações derivadas da tese do zootecnista Robson Mateus Freitas Silveira, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ-USP), sob orientação de Iran José Oliveira da Silva, coordenador do Núcleo de Pesquisas em Meio Ambiente (NUPEA).
Ao longo dessa linha de pesquisa, os cientistas estabeleceram pela primeira vez o conceito de “animal sustentável” — aquele capaz de reunir baixa emissão líquida de carbono, eficiência alimentar, alta capacidade de adaptação climática, sanidade e desempenho produtivo elevado.
A partir dessa definição, foi criada uma metodologia para identificar esses animais e mapear biomarcadores fenotípicos, indicadores biológicos que ajudam a reconhecer indivíduos com maior potencial de resistência às mudanças ambientais.
O conjunto de contribuições rendeu a Silveira o Prêmio de Excelência da Sociedade Brasileira de Zootecnia, reconhecimento pelo impacto científico do trabalho.
Para construir as projeções, os pesquisadores utilizaram 12 bancos de dados internacionais, reunindo informações do Brasil, Itália e Espanha. O processo envolveu a padronização de dados biológicos, produtivos e ambientais, seguida da avaliação das respostas adaptativas dos animais por meio de análise fatorial exploratória e regressões múltiplas.
Na etapa seguinte, foram desenvolvidos modelos inteligentes com aprendizado de máquina e análise multivariada, enquanto dados meteorológicos serviram de base para simular cenários climáticos alinhados ao modelo conservador IPCC-RCP 4.5, adotado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas em parceria com a ONU.
As análises consideraram variáveis termorregulatórias, hematológicas, hormonais, morfológicas e bioquímicas em diversas espécies — incluindo ovinos, caprinos, bovinos de leite e corte, leitões, aves e codornas.
Um resultado técnico relevante aponta que variáveis hematológicas obtidas por hemogramas completos são biomarcadores mais eficientes para medir adaptação ao calor do que características externas, como a pelagem.
O estudo surge em um momento de forte pressão sobre o sistema global de alimentos. A ONU projeta que a população mundial deverá saltar dos atuais 8 bilhões para cerca de 10 bilhões até 2050.
Mesmo assim, cerca de 8,2% da população enfrentou fome em 2024, enquanto o desperdício ainda corresponde a aproximadamente um terço de tudo o que é produzido no planeta.
Paralelamente, a cadeia agroalimentar responde por cerca de 31% das emissões globais de gases de efeito estufa, além de estar associada ao avanço do desmatamento.
O aumento da renda e da demanda por proteína animal intensifica essa pressão justamente quando eventos extremos — como secas e inundações — se tornam mais frequentes, dificultando o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pelas Nações Unidas.
Como um dos maiores produtores de carne do mundo ao lado de Estados Unidos e China, o Brasil ocupa posição central nesse debate sobre a pecuária.
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira de carnes bovina, suína e de aves deve alcançar 31,57 milhões de toneladas em 2025, praticamente repetindo o recorde do ano anterior.
No mercado externo, o país embarcou 1,78 milhão de toneladas de carne bovina entre janeiro e julho, e a expectativa é que as exportações de frango cheguem a 5,2 milhões de toneladas, mesmo diante de obstáculos como tarifas comerciais e episódios de gripe aviária.
Diante desse protagonismo, os pesquisadores destacam a urgência de intensificar e modernizar a produção avícola, considerada especialmente sensível ao aumento das temperaturas.
As projeções indicam que tanto a pecuária leiteira quanto a avicultura tendem a sentir impactos mais imediatos em seus ciclos produtivos — um sinal claro de que adaptação deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade estratégica.
Apesar do caráter pioneiro, o estudo reconhece desafios importantes, como o tamanho reduzido de algumas amostras, diferenças metodológicas entre países e os altos custos das análises laboratoriais.
Outra lacuna identificada é a ausência de bancos de dados robustos sobre sistemas totalmente confinados — modelo comum em países como China e Estados Unidos.
Os pesquisadores consideram que o trabalho representa apenas o início de uma agenda científica mais ampla. A próxima etapa prevê a ampliação das parcerias internacionais e a construção de um banco nacional de dados fenotípicos, reunindo informações sobre aves e suínos de diferentes raças para aprimorar a previsão de respostas produtivas diante das mudanças ambientais.
Também há recomendação para que estudos futuros aprofundem a relação entre respostas termorregulatórias e desempenho produtivo, fortalecendo estratégias globais de segurança alimentar.
A principal mensagem da pesquisa é objetiva: adaptar a produção animal será essencial para equilibrar produtividade e resiliência climática nas próximas décadas.
Embora o Hemisfério Norte deva enfrentar impactos mais intensos, a pecuária do Sul precisará investir desde já em seleção genética, cruzamentos estratégicos, conservação de raças locais, inovação tecnológica e políticas públicas integradas.
Em um mundo que exigirá cada vez mais alimentos, a sobrevivência dos sistemas pecuários dependerá da integração entre ciência, genética e sustentabilidade — três pilares que devem definir o futuro da produção animal no século XXI.
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