Com o início do período de estiagem, estados intensificam investimentos em tecnologia, novos equipamentos e contratação de brigadas para conter o avanço das queimadas e proteger a produção agrícola
Com a chegada da temporada de seca entre junho e novembro, o setor produtivo nacional entra em estado de atenção máxima. A estiagem prolongada eleva consideravelmente o risco de incêndios no campo, uma ameaça recorrente que destrói lavouras, dizima pastagens, coloca trabalhadores em perigo e devasta a fauna local.
Após um ano de 2025 severo, que registrou mais de 136 mil focos de queimadas no país, o ano de 2026 já acende o sinal de alerta: mesmo com um clima moderado no início do ano, o Brasil já contabilizou mais de 10 mil focos de incêndio, exigindo ações imediatas de produtores e governos estaduais.
Ação humana é o principal gatilho para incêndios no campo
Embora os fatores climáticos criem o ambiente ideal para a propagação das chamas, a meteorologia não é a vilã solitária. Historicamente, regiões como o Centro-Oeste, Norte e frações do Sudeste concentram os maiores índices de queimadas. Em 2025, os biomas da Amazônia e do Cerrado foram os mais castigados, com severidade nos estados do Maranhão, Pará, Bahia, Piauí, Tocantins e Mato Grosso.
De acordo com a pesquisadora e doutora em geociências Renata Libonati, coordenadora do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a interferência humana continua sendo o fator determinante:
“De todos os incêndios que acontecem no Brasil, cerca de 1% é originado por raio. Todos os outros 99% são de ação humana”, afirma Libonati.
Para mitigar o problema, o laboratório coordena o sistema Alarmes, uma ferramenta de monitoramento diário via satélite que emite alertas em tempo real sobre a presença de fogo na vegetação, servindo de base estratégica para os órgãos de controle.
São Paulo investe R$ 19,3 milhões em mitigação
O Estado de São Paulo, que enfrentou um cenário complexo em 2025 com mais de 2 mil incêndios florestais e 8 mil focos de calor — afetando diretamente as áreas de pecuária e cultivo de cana-de-açúcar, segundo dados da plataforma Terra Brasilis (INPE) —, estruturou uma resposta robusta para a atual temporada.
O governo paulista oficializou a Operação São Paulo Sem Fogo 2026. O plano envolve um aporte financeiro de R$ 19,3 milhões destinados à compra de maquinários, caminhonetes 4×4, mochilas de combate e tanques-pipa, além do recrutamento temporário de 243 brigadistas para atuar nas Unidades de Conservação (UCs).
A estratégia valida um modelo bem-sucedido adotado no ano anterior, quando o estado obteve uma redução histórica de 91% na área queimada dentro de suas UCs e queda de 50% no número total de focos. Adicionalmente, durante a feira Agrishow 2026, foi lançado o Programa de Prevenção, Preparation, Monitoramento e Combate a Incêndios nas Rodovias (PPMCI), uma aliança entre a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística e produtores rurais para conter focos às margens das estradas.
Minas Gerais aposta em força-tarefa descentralizada
No cenário de contenção de danos, Minas Gerais se destacou ao liderar índices de redução de sinistros entre 2024 e 2025. A engenharia ambiental mineira apoia-se na Força-Tarefa Previncêndio, operada de forma conjunta pelo Corpo de Bombeiros Militar e pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad). O esforço coordenado resultou em uma contração de 37% na área queimada nas Unidades de Conservação do estado em 2025.
Como pilar de expansão para 2026, a Semad aposta no programa “Minas contra o fogo”, executado em cooperação mútua com 40 municípios. Conforme explica Alexandre Leal, subsecretário de Fiscalização da Semad, o foco está na antecipação:
“A implementação de medidas preventivas pode conter a propagação das queimadas, evitando o acontecimento de incêndios de grande magnitude”, destaca Leal.
Tecnologia e conscientização reduzem impacto de incêndios no campo
O cruzamento de dados de satélites com a mobilização rápida de brigadas municipais e privadas tem se provado o caminho mais eficiente para blindar o agronegócio brasileiro. À medida que o pico do período de estiagem se aproxima, a integração entre o monitoramento tecnológico e a responsabilidade civil do produtor rural será o divisor de águas para manter a produtividade da terra e a segurança ambiental intactas em 2026.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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