Para analista de mercado internacional argentino, a escassez de gado está forçando a indústria a transformar seu modelo de negócios
A evolução dos preços do gado no Mercosul começa a refletir uma mudança estrutural no mercado de carnes. Segundo o Víctor Tonelli, analista argentino de mercado internacional, o cenário para os próximos anos será marcado por menor disponibilidade de matéria-prima, preços firmes e crescente pressão sobre a indústria de processamento de carne para redefinir sua estratégia comercial.
“A matéria-prima será escassa”, alertou Tonelli, projetando uma redução na oferta regional de carne bovina. Ele explicou que a Argentina enfrentará uma queda de quase 200 mil toneladas na produção em 2026 em comparação com a média dos últimos três anos, com recuperação prevista apenas para 2027, embora sem atingir os níveis históricos recentes.
O Brasil, maior produtor e exportador mundial, também passa por um processo de ajuste. O analista observou que o país vizinho já prevê uma redução de 3% a 4% na oferta de carne bovina, em um contexto de manutenção do plantel reprodutor e necessidade de reconstruir a produção de bezerros. “Isso eliminará a vantagem que o Brasil teve durante anos, quando manteve os preços do gado entre um e um dólar e vinte abaixo da média regional”, explicou.
Essa mudança, afirmou Tonelli, terá um efeito direto no restante do Mercosul, fortalecendo os preços do gado em países como Argentina, Uruguai e Paraguai. “O Brasil continua sendo o número um, mas não conseguirá sustentar esse diferencial de preços, e isso impulsiona toda a região para cima”, declarou.
Com uma oferta mais restrita e uma forte demanda internacional, o analista considerou que o mercado pecuário está entrando em uma fase de maior competição por matéria-prima. “Os produtores exigirão preços que o mercado aceite, porque a oferta é insuficiente para atender à demanda”, resumiu.
Nesse contexto, Tonelli foi particularmente crítico da abordagem tradicional da indústria de processamento de carne. “A indústria reclama que os números não fecham, mas o problema não é apenas o preço do gado”, argumentou. Para o analista, o verdadeiro desafio reside em um modelo de negócios que continua priorizando a venda de carne como commodity, mesmo quando se trata de produtos de alta qualidade.
“Não dá para continuar vendendo carne de qualidade como se fosse uma commodity”, enfatizou, apontando que a eficiência da planta, embora ainda importante, já não é suficiente para sustentar a lucratividade. “A mentalidade precisa mudar: precisamos focar em maior valor agregado por corte, buscar nichos de mercado e melhorar nosso posicionamento comercial”, ressaltou.
Segundo Tonelli, a escassez de matéria-prima forçará as plantas a competirem não apenas em volume, mas também em qualidade e diferenciação. “O valor não estará apenas em produzir mais barato, mas em vender melhor”, resumiu.
Dois anos cruciais para a indústria frigorífica
O alerta do analista é claro: se a indústria não se adaptar a esse novo cenário, os próximos dois anos poderão ser desafiadores. “Se não mudarem sua estratégia, terão problemas, porque não haverá excedente de carne”, afirmou.
Para Tonelli, o contexto internacional, longe de ser uma ameaça, representa uma oportunidade para reposicionar a indústria regional em segmentos de maior valor agregado. “O mercado está disposto a pagar mais, mas exige produtos melhor posicionados e uma estratégia comercial diferente”, explicou.
Nesse sentido, ele considerou o desafio duplo: por um lado, apoiar os produtores em um cenário de preços firmes do gado; por outro, capturar maior valor por tonelada exportada. “A indústria precisa encontrar uma maneira de pagar o que os produtores pedem e melhorar sua rentabilidade com base no mercado, e não apenas na própria planta”, concluiu.
Esta reportagem foi originalmente publicada em espanhol pela Valor Agro em 27.jan.2026. Foi traduzida e republicada pelo CompreRural
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