Com a liberação oficial das licenças de importação para 2026, navios de gado vivo devem retomar embarques na próxima semana; demanda segue forte, mas oferta apertada e preços sustentados acendem alerta.
A Indonésia confirmou uma movimentação importante para o mercado global de proteína animal ao liberar oficialmente os permissos de importação de bovinos vivos para 2026, com uma alocação inicial de 600 mil cabeças. A expectativa é que os embarques de gado vivo do norte da Austrália para a Indonésia sejam retomados já na próxima semana, marcando o início de mais um ciclo de compras agressivas pelo país asiático.
O anúncio, no entanto, vem acompanhado de um ponto que preocupa o setor: há escassez de oferta em várias origens exportadoras, o que pode limitar o volume real embarcado, manter preços elevados e pressionar cadeias dependentes de importação.
Permissões distribuídas e importadores já se movimentam
De acordo com informações publicadas pelo Beef Central, os permissos começaram a ser distribuídos no início desta semana, alcançando cerca de 30 importadores ligados à Gapusfindo, associação que representa os confinadores e operadores de feedlots na Indonésia. Esses grupos teriam recebido volumes “dentro do esperado” para o começo do ano.
A leitura do mercado é que os 600 mil animais funcionam como uma base inicial, e que importadores em conformidade com as regras do governo poderão solicitar permissos adicionais ao longo do ano, conforme o ritmo de compras e o desempenho do abastecimento interno.
Na prática, isso significa que a Indonésia pode estar apenas “abrindo a temporada” — e o número final pode ser ainda maior se a demanda doméstica continuar aquecida e houver disponibilidade de gado para exportação.
“Use ou perca”: Indonésia endurece regra e reduz volumes para quem não cumpriu exigências no comércio de gado vivo
Um dos pontos mais relevantes do novo ciclo é o reforço da política conhecida como “use it or lose it” (“use ou perca”). A regra determina que confinadores e importadores precisam aproveitar boa parte das permissões anteriores e cumprir contrapartidas para seguir com o direito de receber alocação cheia no ano seguinte.
Entre as exigências está a importação de gado reprodutor equivalente a pelo menos 3% da capacidade do feedlot, além do uso efetivo de parte significativa do volume liberado anteriormente.
Quem não atingiu esses critérios, segundo o relato, recebeu permissos drasticamente menores — em alguns casos de apenas 1.800 cabeças ou menos, o que muda completamente o peso desses players no mercado de compra.
Na prática, a medida força a profissionalização do setor e concentra mais volume nos grupos que conseguem entregar os compromissos exigidos pelo governo indonésio.
Demanda firme e oferta apertada: o combo que sustenta preço elevado
Com permissos na mão, o interesse de compra da Indonésia por gado australiano voltou com força. O problema é que o outro lado da balança — a oferta — não acompanha no mesmo ritmo.
O Beef Central destaca que há restrição de oferta no norte da Austrália, inclusive com estimativas indicando que até 100 mil cabeças podem ter sido perdidas devido às enchentes de Ano Novo em áreas do norte e do centro de Queensland.
E quando o mercado tem comprador forte e boi curto, o resultado é previsível: preço sustentado em patamar alto.
O valor do boi exportação (feeder steers) saindo de Darwin está estimado em 4,80 dólares australianos por kg de peso vivo para embarques de janeiro. A tendência é de manutenção de firmeza até a retomada de oferta com as primeiras rodadas de manejo e apartação de animais entre março e abril, dependendo do comportamento do clima e da estação seca.
Ou seja: mesmo com volume de importação grande autorizado, a dificuldade pode estar em encontrar boi disponível no mundo para cumprir tudo o que foi planejado.
Por que a Indonésia está comprando tanto? Economia e programa nacional de alimentação puxam a demanda
Um dos motores dessa demanda continua sendo o cenário interno do país. A Indonésia vive um momento de condições econômicas consideradas sólidas, o que sustenta consumo e políticas públicas de alimentação.
O próprio presidente Prabowo Subianto tem impulsionado a meta de ampliar o programa de refeições gratuitas e nutritivas, chamado Free Nutritious Meal (MBG), com o objetivo de alcançar todas as vilas do país até o fim de 2026.
Em 2025, segundo ele, cerca de 55 milhões de crianças receberam refeições dentro do programa. Para 2026, a intenção é expandir para além do público escolar, incluindo também todas as crianças, além de gestantes e idosos.
Esse tipo de política pública tem impacto direto no mercado porque aumenta a necessidade de proteína, exige regularidade de abastecimento e reforça a importação como ferramenta estratégica.
Enquanto autoriza 600 mil bovinos vivos, Indonésia corta quota de carne bovina “in natura”
Outro ponto que chama atenção é que, paralelamente às permissões de bovinos vivos, a Indonésia promoveu uma forte mudança no mercado de carne congelada/importada.
O país reduziu drasticamente os permissos destinados ao setor privado para importação de carne bovina desossada (boxed beef): de 180 mil toneladas no ano passado para apenas 30 mil toneladas em 2026, volume que ainda será dividido entre Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos e outros fornecedores.
Enquanto isso, empresas estatais (estatais/estatais controladas) poderão importar um total de 250 mil toneladas, incluindo:
- 100 mil toneladas da Índia
- 75 mil toneladas do Brasil
- 75 mil toneladas de outras origens ainda não definidas
Além disso, 17 mil toneladas foram destinadas a permissos voltados à indústria de processamento.
Esse desenho mostra uma mudança clara: o governo indonésio parece buscar maior controle do abastecimento via estatais, ao mesmo tempo em que mantém o gado vivo como uma das peças centrais do seu sistema de proteína animal.
Reação do setor privado: risco de demissões e pressão no preço interno
A redução da quota para importadores privados gerou insatisfação dentro da Indonésia. Representantes do setor alertam que o volume liberado pode ser insuficiente para atender a demanda real do mercado.
O Beef Central aponta que associações do setor privado afirmam que essa redução pode provocar perda de empregos e alta nos preços domésticos da carne, exatamente por limitar o acesso do setor privado à matéria-prima importada.
O diretor executivo da associação indonésia de empreendedores e processadores (APPDI), Teguh Boediyana, declarou preocupação com a continuidade dos negócios, afirmando que a cota seria pequena diante da demanda e que a divisão do volume entre cerca de 105 empresas deixaria cada uma com uma parcela muito limitada, elevando o risco de cortes de pessoal caso a política não seja revista.
O que isso significa para o mercado global — e por que a “escassez no mundo” preocupa
A Indonésia está dando um recado claro ao mercado: vai seguir comprando forte para sustentar políticas públicas e suprir consumo interno. Porém, a grande questão está no “como” e no “de onde”.
Com:
- permissos elevados para gado vivo,
- redução de quotas privadas de carne,
- concentração de importação via estatais,
- e oferta apertada em países exportadores,
o resultado tende a ser um cenário de competição mais acirrada por animais disponíveis, sobretudo em períodos de menor oferta sazonal.
E isso explica a preocupação citada na manchete: não é apenas sobre “querer importar 600 mil cabeças”, mas sim sobre a dificuldade real de encontrar oferta suficiente no mercado global sem encarecer ainda mais o custo do boi.
Próximos passos: retomada de navios de gado vivo e mercado atento ao ritmo dos embarques
Com navios prestes a voltar a operar, o foco agora passa a ser:
- o ritmo de embarques nas próximas semanas,
- a capacidade de reposição de oferta no norte da Austrália,
- e a possibilidade de importadores solicitarem volumes adicionais ao longo do ano.
Se a demanda indonésia continuar firme e a oferta global seguir apertada, o mercado pode atravessar um primeiro semestre com preços sustentados e logística pressionada, refletindo um cenário em que o comprador está forte — mas o boi não está “sobrando” em lugar nenhum.
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