Veterinário abandonou a carreira acadêmica para apostar na pecuária regenerativa no coração da Amazônia; com recuperação de pastagens, árvores no sistema produtivo e tecnologia, modelo reduz emissões, aumenta a produtividade e surge como alternativa real ao avanço do desmatamento.
Abrir mão de uma carreira acadêmica consolidada, com estabilidade profissional e reconhecimento internacional, não é uma escolha comum — especialmente quando se trata de um cargo em uma das maiores universidades da América Latina. Ainda assim, foi exatamente essa decisão que levou o veterinário Luís Fernando Laranja Fonseca a trocar os corredores da Universidade de São Paulo (USP) pela linha de frente de um dos maiores desafios ambientais do planeta: o desmatamento da Amazônia.
No início dos anos 2000, a percepção de que o conhecimento científico precisava sair do papel e gerar impacto real no território levou o pesquisador a mudar completamente sua trajetória profissional. Em 2002, aos 35 anos, ele pediu demissão da universidade e se mudou com a família para Alta Floresta (MT) — município inserido em uma região historicamente pressionada pelo avanço da pecuária e pela abertura de novas áreas.
A mudança marcou o início de um projeto que buscava demonstrar, na prática, que é possível conciliar produção agropecuária e conservação florestal, desde que a atividade econômica passe a valorizar a floresta em pé.
A imersão na Amazônia durou seis anos e coincidiu com uma fase intensa de construção pessoal e profissional — período em que seu segundo filho nasceu e em que Fonseca se envolveu diretamente com comunidades locais.
Seu primeiro empreendimento na região foi a Ouro Verde, empresa voltada à extração sustentável da castanha-do-pará. O negócio mostrou viabilidade econômica e impacto social positivo, mas revelou um problema estrutural: iniciativas isoladas tinham alcance limitado diante da magnitude da destruição florestal.
A constatação levou o veterinário a buscar soluções com maior escala e capacidade de transformação econômica.

Foi nesse contexto que surgiu a Kaeté Investimentos, gestora criada para mobilizar capital em negócios de impacto na Amazônia. Anos depois, em 2019, ele estruturou a Caaporã, uma holding que atualmente administra cerca de 20 mil hectares distribuídos em seis fazendas nos estados do Mato Grosso, Tocantins e Bahia.
Hoje, Fonseca divide sua rotina entre o escritório da empresa em Piracicaba (SP) e as propriedades rurais, mantendo uma atuação estratégica que combina ciência, gestão e sustentabilidade.
Natural de São Borja (RS), ele possui doutorado em Reprodução Animal e pós-doutorado pela University of Kentucky, formação que ajudou a embasar tecnicamente o modelo produtivo adotado nas fazendas.
O ponto de partida da estratégia da Caaporã é transformar áreas já degradadas em sistemas produtivos eficientes.
Grande parte dessas terras foi desmatada décadas atrás e perdeu fertilidade ao longo do tempo. Nessas condições, o capim apresenta baixo valor nutricional, o que prolonga o ciclo produtivo: o boi pode levar até quatro anos para atingir o peso ideal de abate.
A proposta do grupo consiste em reverter esse cenário por meio da recuperação do solo, aliada a técnicas modernas de manejo.
Entre as principais práticas adotadas estão:
- plantio de árvores
- consórcio do capim com leguminosas
- melhoria da fertilidade do solo
- intensificação do manejo
Leguminosas como o amendoim forrageiro desempenham papel central nesse processo ao fixarem nitrogênio naturalmente na terra. Isso reduz a necessidade de fertilizantes químicos — especialmente a ureia, cuja produção também gera emissões relevantes de gases de efeito estufa.
Além do ganho ambiental, o pasto mais nutritivo permite maior lotação por hectare, elevando a eficiência econômica da propriedade.
O sistema integra espécies exóticas, como o eucalipto, e árvores nativas, como o paricá, madeira valorizada pela indústria moveleira.

Mais do que diversificação, a arborização tem efeito direto no desempenho animal. A sombra diminui o estresse térmico provocado pelas altas temperaturas tropicais, favorecendo o bem-estar do rebanho e acelerando o ganho de peso.
Com dieta melhor e solo recuperado, o tempo de engorda cai para cerca de dois anos — metade do observado em modelos tradicionais.
Esse encurtamento tem impacto climático relevante: quanto menor o ciclo de vida do animal, menor o volume de metano emitido durante a digestão — processo conhecido como fermentação entérica.
O tema ganha importância diante do peso ambiental do setor.
Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), o Brasil ocupa a quinta posição entre os maiores emissores globais de metano. Em 2023, o agronegócio respondeu por 75,6% dessas emissões, sendo que 98% tiveram origem na pecuária.
Ao mesmo tempo, o país possui o segundo maior rebanho bovino do mundo e lidera as exportações — protagonismo que também aumenta a responsabilidade ambiental.
Dados do MapBiomas mostram que a área de pastagens na Amazônia cresceu mais de 363% entre 1985 e 2023, passando de 12,7 milhões para aproximadamente 59 milhões de hectares, uma extensão comparável ao território da Espanha.
Grande parte desse avanço está associada à pecuária extensiva, caracterizada por baixo investimento tecnológico e produtividade média de apenas 0,73 animal por hectare — cenário que frequentemente impulsiona a abertura de novas áreas.
O modelo defendido pela Caaporã segue a lógica inversa: produzir mais em menos espaço.
A intensificação permite elevar o rendimento sem expandir fronteiras agrícolas e ainda abre caminho para a restauração de áreas improdutivas.
Caso adotado em larga escala, o sistema poderia liberar milhões de hectares para recuperação florestal, contribuindo para que o Brasil avance na meta assumida no Acordo de Paris, que prevê a restauração de 12 milhões de hectares de vegetação nativa.
Os indicadores ambientais reforçam o potencial do método.
Enquanto a produção tradicional pode emitir cerca de 35 kg de CO₂ por quilo de carcaça, o sistema adotado nas fazendas da holding gira em torno de 20 kg — uma redução superior a 40%.
Pesquisadores que acompanham a iniciativa a classificam dentro do campo da agricultura regenerativa, modelo capaz de produzir alimentos ao mesmo tempo em que gera serviços ambientais, como conservação da água, aumento da biodiversidade e recuperação do solo.
Especialistas também destacam que tratar a pecuária apenas como vilã ignora sua relevância econômica e social. Uma eventual eliminação da atividade poderia gerar efeitos severos sobre renda, emprego e segurança alimentar.
Projeções da OCDE e da FAO apontam que o consumo mundial de carne bovina deve crescer 10% até 2033, tendência que amplia o desafio de produzir mais sem ampliar o desmatamento.
Nesse contexto, alternativas como a carne cultivada em laboratório ainda enfrentam obstáculos relevantes, como custo elevado e adaptação do consumidor — fatores que limitam sua participação no mercado no curto prazo.
Assim, transformar os sistemas produtivos atuais surge como a estratégia mais imediata para equilibrar oferta de alimentos e conservação ambiental.

Apesar dos resultados promissores, a expansão do modelo enfrenta entraves importantes.
O primeiro deles é o acesso ao conhecimento técnico, já que a gestão intensiva exige planejamento detalhado e monitoramento constante. Outro obstáculo relevante é o alto custo da recuperação de áreas degradadas. Linhas de crédito voltadas à produção sustentável ainda são consideradas burocráticas e insuficientes. Há também uma barreira cultural significativa: muitos produtores resistem a abandonar métodos tradicionais mesmo quando dispõem de recursos para modernizar a operação.
Como o mercado ainda remunera de forma semelhante o boi convencional e o sustentável, a monetização ambiental surge como alternativa para equilibrar a equação financeira. A empresa trabalha no desenvolvimento de uma metodologia própria para geração de créditos de carbono, em parceria com a certificadora global Verra.
Ao mesmo tempo, a Minerva Foods, uma das maiores exportadoras de carne do país, já adquire parte da produção pecuária e incentiva práticas de baixa emissão entre fornecedores, avaliando o modelo como viável e replicável.
O debate sobre o futuro da pecuária ganhou visibilidade durante a COP30, em Belém, onde propostas de produção de baixo carbono foram apresentadas ao lado de protestos de ativistas críticos ao setor.
A rastreabilidade da cadeia ainda aparece como um elo sensível. O aplicativo Do Pasto ao Prato estima que cerca de 40% do rebanho brasileiro esteja na Amazônia, sendo que três quartos dessa carne abastecem o mercado interno.
Apesar dos compromissos públicos de sustentabilidade, apenas 54% da carne vendida no Brasil apresenta desempenho considerado adequado. Nas exportações, o índice sobe para 80%, impulsionado pela maior exigência de compradores internacionais — especialmente europeus.
A trajetória de Fonseca simboliza uma mudança de mentalidade que começa a ganhar espaço no agro brasileiro: crescer em produtividade, não em território. Se modelos intensivos e regenerativos avançarem, o país poderá reposicionar um dos setores mais criticados ambientalmente como parte da solução climática.
O desafio agora vai além da tecnologia. Envolve financiamento, difusão de conhecimento e, sobretudo, disposição para transformar uma atividade historicamente ligada à expansão territorial em um sistema mais eficiente — e compatível com as demandas ambientais do século XXI.
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