Doce que atravessa séculos: cultivo de marmelo mantém tradição histórica no Entorno do DF

Com raízes no Quilombo Mesquita desde 1815, cultivo de marmelo e produção artesanal de marmelada une cultura, agricultura familiar e identidade regional no Entorno do Distrito Federal

O marmelo, fruto de aroma marcante e presença discreta nas grandes prateleiras do varejo, carrega no Entorno do Distrito Federal uma história que vai muito além da agricultura. Ali, especialmente na região do Quilombo Mesquita, entre Cidade Ocidental e a antiga área pertencente a Luziânia, o cultivo do marmelo se transformou em um símbolo de resistência cultural, identidade comunitária e continuidade familiar. A tradição, iniciada há mais de dois séculos, permanece viva graças ao empenho de famílias que transformam a colheita anual em celebração e o doce artesanal em patrimônio afetivo e econômico da região, divulgou reportagem do Jornal Opção.

Tradição que começou no século XIX

A história da marmelada no Entorno remonta ao início do século XIX. Conforme registro da reportagem original, a produção na região teve início em 1815, sendo mantida por gerações da mesma família.

Entre os principais guardiões dessa herança está a família de Carlúcio Miguel Laquias, reconhecida como a que produz marmelada há mais tempo na região. A tradição começou com sua bisavó, Ana dos Passos de Araújo Melo, e foi transmitida de geração em geração até chegar aos dias atuais .

Hoje, a produção envolve toda a família: Carlúcio atua na coordenação, vendas e distribuição; sua esposa, Kelle Dias, é responsável pelo preparo do doce; o filho, Jorge, cuida da padronização e embalagem nas tradicionais caixinhas de madeira . O modelo é típico da agricultura familiar, em que cada etapa carrega não apenas função produtiva, mas também valor simbólico.

Doce que atravessa séculos: cultivo de marmelo mantém tradição histórica no Entorno do DF
A história começou com os bisavós de Carlúcio, há dois séculos. Foto: Cintia Ferreira

Receita preservada, normas atualizadas

Embora a tradição seja centenária, a produção se adequou às exigências sanitárias contemporâneas. Os antigos tachos de cobre deram lugar a equipamentos de inox, mas a essência da receita permanece intacta: marmelo, água e açúcar, sem aditivos ou variações modernas .

A família produz entre 14 e 16 toneladas de marmelada por ano, com distribuição para Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais e Tocantins . A colheita ocorre apenas uma vez ao ano, nos meses de janeiro e fevereiro, período em que o fruto atinge o ponto ideal de maturação .

Esse ciclo curto reforça o caráter quase ritualístico da atividade: a colheita se torna momento coletivo, e o preparo do doce, uma prática que conecta passado e presente.

O maior produtor de marmelo da região

Se a família Laquias detém a tradição mais antiga da marmelada, o título de maior produtor de marmelo do Entorno pertence ao produtor rural Sinval Pereira Braga, de 70 anos .

Dono de um pomar com 140 pés de marmelo, Sinval mantém viva a cultura do fruto reunindo filhos e netas tanto no cultivo quanto na preparação da polpa para o doce . A produção familiar começou ainda com seu pai, no século passado, e nunca foi interrompida, mesmo após seu falecimento em 1967 .

Entre os pés cultivados, há uma árvore centenária plantada pelo pai quando jovem — ainda produtiva, simbolizando a continuidade de gerações por meio da agricultura . Para o produtor, o marmelo representa herança e permanência: algo que veio dos pais e seguirá para filhos, netos e bisnetos.

Festa do Marmelo reforça identidade cultural

A tradição não se restringe aos pomares. O Quilombo Mesquita realiza anualmente a Festa do Marmelo, evento que une cultura, agricultura familiar e identidade local .

Inspirada na resistência do fruto — colhido apenas uma vez por ano — a festa transforma o período de safra em encontro comunitário, reunindo moradores e visitantes em torno da história e da produção artesanal .

Segundo a secretária interina do Entorno do DF, Paula Tredicci, a celebração reforça o sentimento de pertencimento e demonstra que o desenvolvimento regional também passa pela preservação das tradições .

Mais que doce: patrimônio cultural vivo

Entre pomares centenários, tachos no fogo e receitas transmitidas há mais de dois séculos, o marmelo se consolidou como símbolo de resistência cultural no Entorno do Distrito Federal .

A produção, embora inserida em escala regional e familiar, representa muito mais do que uma atividade econômica: é a prova de que tradição e modernização podem caminhar juntas, mantendo raízes firmes enquanto se adaptam às exigências atuais.

No Entorno do DF, o marmelo não é apenas fruta. É memória, identidade e continuidade — uma herança que atravessa gerações e reafirma a força da cultura goiana.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM