País que importa até 90% dos alimentos aposta em tecnologia, investimentos globais e megaprojetos logísticos para garantir segurança alimentar nas próximas décadas.
A segurança alimentar tornou-se uma das maiores prioridades estratégicas dos Emirados Árabes Unidos, um país que construiu sua prosperidade com base no petróleo, mas que depende fortemente do exterior para alimentar sua população. Em um cenário global marcado por crises logísticas, mudanças climáticas e conflitos internacionais, o país do Golfo iniciou uma corrida tecnológica e geopolítica para garantir alimentos a partir do deserto.
O desafio é enorme. O clima árido, a escassez de água e a limitação de terras agricultáveis tornam praticamente impossível que o país seja autossuficiente apenas com produção doméstica. Ainda assim, o governo vem investindo bilhões de dólares em tecnologia agrícola, infraestrutura logística e aquisições estratégicas no exterior, numa tentativa de reduzir sua dependência de importações e tornar o sistema alimentar mais resiliente.
Hoje, entre 85% e 90% dos alimentos consumidos nos Emirados são importados, o que deixa o país vulnerável a choques internacionais — desde guerras até interrupções em rotas marítimas estratégicas.
Uma estratégia nacional para garantir comida até 2051
Para enfrentar esse cenário, o governo lançou em 2018 a Estratégia Nacional de Segurança Alimentar 2051, um plano de longo prazo que busca transformar completamente o sistema de abastecimento do país.
Entre os principais objetivos estão:
- Produzir localmente até 50% dos alimentos consumidos no país até 2051
- Garantir entre três e cinco fontes diferentes de importação para cada alimento básico
- Reduzir drasticamente o desperdício de alimentos
- Investir em tecnologias agrícolas adaptadas ao deserto
A estratégia inclui 38 iniciativas nacionais, muitas delas voltadas para agricultura de alta tecnologia, como:
- Agricultura vertical
- Hidroponia
- Cultivo em ambiente controlado
- Sementes resistentes ao calor, seca e salinidade
Essas soluções permitem produzir alimentos mesmo em ambientes extremos, reduzindo o impacto da escassez de água e da falta de solo fértil.
O mega projeto que pode mudar o comércio de alimentos no Oriente Médio
Além da produção, o país está investindo pesado em logística para garantir eficiência na distribuição e armazenamento de alimentos.
Um dos projetos mais ambiciosos é o Dubai Food District, anunciado pela empresa estatal DP World, que transformará o atual mercado central de frutas e vegetais de Al Aweer em um dos maiores polos alimentares do mundo.
Quando concluído, o complexo terá:
- 2,69 milhões de metros quadrados
- infraestrutura avançada de cadeia do frio
- armazéns com controle de temperatura
- sistemas digitais de documentação
- centros de inspeção de qualidade
O objetivo é criar um ecossistema integrado que reúna comércio, armazenamento, processamento e distribuição em um único local, reduzindo perdas e aumentando a eficiência logística.
Especialistas destacam que o projeto não pretende substituir totalmente as importações, mas tornar o sistema alimentar mais seguro e eficiente, reduzindo riscos de interrupções no abastecimento.
Emirados compram terras e empresas agrícolas pelo mundo
Outra frente importante da estratégia envolve investimentos globais em produção agrícola.
Fundos soberanos de Abu Dhabi vêm ampliando sua presença em empresas e fazendas em diversos continentes para garantir acesso direto a alimentos e matérias-primas agrícolas.
Entre os movimentos mais relevantes estão:
- Aquisição indireta de 45% da Louis Dreyfus Company, uma das maiores tradings agrícolas do mundo
- Participação de 50% na Al Dahra Holding, empresa agrícola que opera em cerca de 20 países
- Controle de aproximadamente 161 mil hectares de terras agrícolas
Entre os ativos da Al Dahra estão:
- 56 mil hectares na Romênia, considerada a maior fazenda consolidada da Europa
- terras agrícolas próximas a Belgrado, na Sérvia
- operações na América do Norte, Egito, Namíbia e Marrocos
A empresa também negocia arrendamento de mais de 80 mil hectares no Quênia, com investimento estimado em US$ 800 milhões, voltado para projetos de irrigação e produção agrícola em larga escala.
Tecnologia agrícola ganha bilhões em investimentos
A inovação também ocupa posição central na estratégia alimentar dos Emirados.
Em 2019, o Abu Dhabi Investment Office (ADIO) lançou um programa de incentivos de US$ 272 milhões para atrair empresas de agrotecnologia e transformar Abu Dhabi em um polo global de agricultura no deserto.
Entre os investimentos realizados estão:
- US$ 100 milhões para empresas como AeroFarms, Responsive Drip Irrigation e Madar Farms
- US$ 41 milhões destinados a startups de tecnologia alimentar e produção sustentável
Além disso, uma parceria estratégica entre a ADQ e a cooperativa francesa Limagrain busca desenvolver sementes adaptadas ao deserto, focando em culturas como:
- pepinos
- tomates
- melões
As variedades serão projetadas para resistir a temperaturas extremas, escassez de água e solos salinos, condições comuns no Oriente Médio.
População cresce e pressiona o sistema alimentar
Apesar de todos esses investimentos, os desafios continuam grandes.
A população dos Emirados já ultrapassa 11,5 milhões de habitantes em 2026, e as projeções indicam que o país pode chegar a 15,3 milhões até 2050.
O aumento populacional, combinado com o crescimento do turismo e da renda, deve elevar o consumo de alimentos para cerca de 8,8 milhões de toneladas por ano até 2029.
Esse crescimento ocorre em um contexto geopolítico cada vez mais instável. Conflitos como a guerra na Ucrânia ou tensões no Mar Vermelho demonstram como interrupções logísticas podem impactar diretamente o abastecimento alimentar de países dependentes de importações.
Um modelo que pode influenciar o futuro da agricultura global
A corrida dos Emirados Árabes Unidos para produzir alimentos no deserto vai além de uma estratégia nacional. O país está tentando criar um novo modelo de segurança alimentar baseado em tecnologia, logística avançada e investimentos globais em produção agrícola.
Se bem-sucedido, esse modelo pode servir de referência para outras regiões com escassez de recursos naturais, especialmente em um mundo que enfrenta mudanças climáticas, crescimento populacional e pressões sobre a produção de alimentos.
No coração do deserto, os Emirados tentam provar que a próxima fronteira da agricultura pode nascer justamente onde antes parecia impossível plantar.
Conteúdo produzido por CompreRural.
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