Diesel vira motivo de alerta no agro e conflito no Oriente Médio acende preocupação no Brasil

Entidades do setor relatam atrasos no fornecimento do diesel no Sul do país, enquanto a ANP afirma que não há desabastecimento e inicia investigação sobre estoques e preços do combustível

A instabilidade geopolítica provocada pelo conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos começou a gerar reflexos diretos no agronegócio brasileiro. Com a escalada das tensões no Oriente Médio e a alta do preço internacional do petróleo, entidades do setor produtivo passaram a alertar para possíveis dificuldades no acesso ao diesel, combustível considerado essencial para o funcionamento da agropecuária no país.

O alerta ganhou força principalmente na região Sul, onde organizações ligadas ao agro relatam atrasos no fornecimento e aumento significativo no preço do combustível. Enquanto produtores demonstram preocupação com o impacto nas operações agrícolas e na logística de transporte, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) afirma que não há, até o momento, um problema estrutural de abastecimento.

A divergência de avaliações ocorre justamente em um momento crítico para diversas atividades no campo, quando máquinas agrícolas e transporte de insumos dependem fortemente do diesel para manter a produção em ritmo normal.

Entidades do agro relatam atrasos e aumento no preço do combustível

A Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Sistema Faep) foi uma das primeiras instituições a manifestar preocupação com a situação. Em nota divulgada recentemente, a entidade destacou que o diesel é um insumo estratégico para o funcionamento de praticamente todas as etapas da produção agropecuária, desde o preparo do solo até a colheita e o transporte da produção.

Segundo o presidente da entidade, Ágide Eduardo Meneguette, sindicatos rurais do interior do Paraná já começaram a registrar relatos de dificuldades para adquirir o combustível.

“O diesel está presente em praticamente todas as etapas da produção e também no transporte daquilo que é produzido no campo”, afirmou o dirigente, destacando que produtores já reportaram falta do combustível em entrepostos do interior do estado.

A situação também foi relatada no Rio Grande do Sul. A Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) informou que produtores de arroz começaram a enfrentar atrasos e cancelamentos na entrega de diesel previamente agendada, além de aumentos expressivos no valor do combustível.

De acordo com a entidade, o preço do diesel chegou a subir mais de R$ 1,20 por litro em alguns casos, o que acendeu ainda mais o alerta entre produtores rurais da região.

ANP afirma que não há falta de diesel

Diante da repercussão do tema, a Agência Nacional do Petróleo se pronunciou afirmando que, até o momento, não foram identificados problemas estruturais no abastecimento de diesel no Rio Grande do Sul.

A agência informou que realizou contatos com os principais fornecedores da região durante o fim de semana para verificar a situação dos estoques e da logística de distribuição. A avaliação inicial indica que os volumes disponíveis são suficientes para manter o abastecimento regular no estado.

Segundo a ANP, a produção e o fornecimento de combustível seguem em ritmo normal pela Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), principal unidade responsável pelo atendimento da região Sul.

Mesmo assim, a agência decidiu aprofundar a análise e notificar formalmente as distribuidoras que atuam no estado, solicitando informações detalhadas sobre volumes em estoque, pedidos recebidos e entregas efetivamente realizadas. Caso sejam identificadas irregularidades, medidas administrativas poderão ser adotadas para garantir o abastecimento.

Além disso, a ANP também informou que investigará eventuais aumentos injustificados no preço do combustível.

Dependência do diesel expõe vulnerabilidade do agro

O episódio reacendeu o debate sobre a forte dependência do diesel na produção agrícola brasileira. Levantamento do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep indica que 73% da energia utilizada na agropecuária brasileira vem de combustíveis fósseis, principalmente o diesel.

Esse nível de dependência torna o setor particularmente sensível a oscilações no mercado internacional de energia. Com a elevação do preço do petróleo, que ultrapassou US$ 110 por barril, os custos operacionais no campo tendem a aumentar rapidamente.

Além do uso direto em máquinas agrícolas, o combustível também é essencial para a logística do agronegócio. No Brasil, mais de 60% do transporte de cargas ocorre por rodovias, incluindo o escoamento de grãos, fertilizantes, ração e outros insumos fundamentais para a cadeia produtiva.

Outro fator que amplia a vulnerabilidade é a dependência externa: cerca de 29% do diesel consumido no país é importado, o que torna o mercado brasileiro diretamente influenciado por eventos geopolíticos globais.

Impactos podem atingir diversas cadeias produtivas

A eventual escassez do combustível teria impactos que vão além das lavouras mecanizadas. Segundo o Sistema Faep, culturas como soja, milho, trigo e cana-de-açúcar dependem de máquinas movidas a diesel em praticamente todas as etapas de produção.

Mas a dependência não se limita à agricultura. Cadeias produtivas como avicultura, suinocultura e produção de leite também dependem de logística contínua, que exige transporte regular de insumos e alimentos para os animais.

Qualquer interrupção no abastecimento pode gerar atrasos na produção, aumento de custos e impactos diretos na oferta de alimentos.

Biodiesel surge como alternativa para reduzir pressão no mercado

Diante da instabilidade no mercado internacional de energia, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) sugeriu ao Ministério de Minas e Energia o aumento da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel, elevando o percentual de 15% para 17% — modelo conhecido como B17.

A entidade argumenta que o biodiesel pode ajudar a reduzir pressões de preços no transporte e na produção agropecuária, além de ampliar a segurança energética do país.

Atualmente, a mistura obrigatória é de 15% (B15). A implementação do B16 estava prevista para março de 2026, mas ainda não foi efetivada.

Segundo a CNA, diante do cenário internacional incerto, antecipar o avanço para o B17 poderia ajudar a equilibrar o mercado interno, principalmente considerando a grande disponibilidade de matéria-prima no Brasil, impulsionada pela safra de soja em andamento.

Cenário internacional mantém mercado em alerta

A tensão geopolítica no Oriente Médio, especialmente na região do Estreito de Hormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo —, continua sendo monitorada com atenção pelos mercados globais.

Para o agronegócio brasileiro, o desdobramento desse cenário pode significar custos mais elevados, pressão logística e maior volatilidade nos preços dos combustíveis, elementos que impactam diretamente a competitividade do setor e a eficiência das cadeias produtivas no campo.

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